
Um novo relatório global divulgado nesta terça-feira (17) pelo Grupo Interagencial das Nações Unidas para Estimativas de Mortalidade Infantil (UN IGME) revela um cenário alarmante: em 2024, cerca de 4,9 milhões de crianças com menos de cinco anos morreram em todo o mundo. O dado mais crítico do levantamento é que a maioria dessas mortes decorreu de causas evitáveis ou que poderiam ter sido revertidas com tratamentos de baixo custo.
O estudo, intitulado Níveis e Tendências da Mortalidade Infantil, foi realizado em parceria com o Banco Mundial e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os dados mostram que quase metade do total de óbitos (2,3 milhões) ocorreu no período neonatal, ou seja, nos primeiros 28 dias de vida. As principais causas identificadas foram a prematuridade (36%) e complicações durante o parto (21%), além de infecções como a sepse e anomalias congénitas.
Desigualdade geográfica e o impacto dos conflitos
A mortalidade infantil permanece severamente concentrada em termos geográficos. A África Subsariana respondeu por 58% de todas as mortes de menores de cinco anos em 2024, impulsionada por doenças infecciosas como pneumonia, malária e diarreia. No Sul da Ásia, responsável por 25% dos óbitos, o maior desafio reside nas complicações do primeiro mês de vida. Em contraste, regiões como a Europa e a América do Norte registaram apenas 9% do total global.
O relatório destaca ainda que crianças nascidas em países afetados por conflitos têm quase três vezes mais probabilidade de morrer antes dos cinco anos. Embora a mortalidade global tenha caído mais de metade desde o ano 2000, o ritmo de redução desacelerou 60% a partir de 2015. Se a tendência atual persistir, estima-se que 27,3 milhões de crianças morrerão antes do quinto aniversário entre 2025 e 2030.
O cenário brasileiro: avanços e novos desafios
No Brasil, o relatório aponta progressos significativos nas últimas três décadas. Em 1990, a taxa de mortalidade neonatal era de 25 por mil nascidos vivos; em 2024, este número caiu para sete. A probabilidade de uma criança morrer antes dos cinco anos também recuou drasticamente, passando de 63 por mil em 1990 para 14,2 em 2024.
De acordo com Luciana Phebo, chefe de Saúde e Nutrição da Unicef no Brasil, este sucesso deve-se a políticas públicas sólidas, como o Programa Saúde da Família, a expansão da atenção básica, o incentivo à amamentação e a vacinação. Contudo, o país também enfrenta a tendência global de desaceleração: entre 2000 e 2009, a redução da mortalidade neonatal era de 4,9% ao ano, caindo para 3,16% no período entre 2010 e 2024.
Mortalidade entre jovens e as metas para 2030
O levantamento também analisou a faixa etária entre os 5 e os 24 anos, onde se registaram 2,1 milhões de mortes em 2024. Globalmente, o suicídio surge como a principal causa de morte entre raparigas de 15 a 19 anos, enquanto os acidentes de trânsito lideram entre os rapazes. No Brasil, a violência é o fator mais letal para os jovens do sexo masculino (49% das mortes nesta faixa), enquanto as doenças não transmissíveis são a principal causa entre as jovens (37%).
Para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, os países precisam de reduzir a mortalidade de menores de cinco anos para 25 por mil nascidos vivos. No entanto, a ONU alerta que 60 países correm o risco de não cumprir esta meta.
O organismo recomenda que governos priorizem investimentos em cuidados pré-natais, profissionais qualificados e sistemas de atenção primária, sublinhando que cada dólar investido na sobrevivência infantil pode gerar até 20 dólares em benefícios sociais e económicos.
Com informações da Agência Brasil
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