
“Os israelenses querem ser Davi, mas se tornaram Golias”
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O que os israelenses gostariam de ser na luta bíblica entre Davi e Golias? Resposta do ex-presidente do Parlamento em Israel e cofundador do novo partido “Todos Seus Cidadãos” (árabes e judeus), Avraham Burg:
“A esmagadora maioria responderia Davi”.
Burg acrescenta: “Golias, nós? Impossível! Em nossa autoimagem, somos belos, inteligentes, ágeis, engenhosos. Sempre ganhamos. E, ao mesmo tempo, somos frágeis, perseguidos e confrontados por um mundo hostil. Em resumo, somos filhos de Davi. Isso não é uma simples questão de identidade, mas um reflexo sobre o que perdemos pelo caminho, se valeu o preço e onde o caminho desapareceu. ”
Em um artigo muito reproduzido em redes sociais, Burg se questiona: “Como uma civilização de sabedoria se transformou em uma cultura de poder? Como o povo de poetas e profetas se tornou conquistador e opressor? ”
O pastor Davi se tornaria “lascivo, traiçoeiro, conspirador e derramador de sangue em série. Pior ainda, com o passar dos anos, Davi virou Golias”. Para Burg, esta não é apenas uma história bíblica: “é um padrão histórico”, em que os lúcidos ficam cegos; e o amante se torna assassino.
“Como o gigante bíblico, estamos (os israelenses) armados com a tecnologia mais avançada, e como ele, nos tornamos pesados e sem resposta. Exatamente como ele, recebemos uma pedra mortal bem entre os olhos. Israel, o poderoso Golias, foi severamente atingido por adversários mais fracos, porém mais ousados. O Davi de 1948 (da fundação de Israel) tornou-se o Golias de 2025. ”
A mudança não ocorreu em um dia nem em um ano. Foi uma longa transformação de consciência coletiva. “A figura judaica clássica sobreviveu através do intelecto. Foi a sabedoria judaica, não o músculo judeu, que sustentou um povo frágil por séculos. Astúcia, retórica, adaptação a realidades em mudança. Essas eram nossas ferramentas. ”
E Burg prossegue: “Na sociedade israelense contemporânea, a palavra intelectual é quase um insulto. Significa esquerdista, distante, incapaz de ver o mundo como ele é. O pensamento é percebido como fraqueza. Dúvida como deslealdade. Complexidade como medo. ”
A conclusão: “As consequências são visíveis em Gaza e nos territórios ocupados. Somos Gigantes que continuam convencidos de que somos Davi. Uma divisão profunda dentro de si. Eterno e invencível, mas também perpetuamente à beira da aniquilação. Isso nos permite usar força imensa sem responsabilidade moral. ”
Para o “final dessa tragédia”, Avraham Burg recomenda ouvir os Salmos: “O cavalo de guerra é uma falsa esperança de salvação, e por sua grande força não pode nos resgatar. Só o poder não salva. Davi sabia disso quando escreveu essas palavras. Ele esqueceu quando se tornou rei. E nós também. Enquanto continuarmos acreditando nas histórias que contamos a nós mesmos, repetiremos o mesmo erro repetidas vezes até que a próxima pequena pedra bata, e talvez não haja mais ninguém para recontar a história. ”
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