
Papa Leão XIV
REUTERS/Guglielmo Mangiapane
Resumo
Papa Leão XIV manifestou preocupação sobre o avanço das armas tecnológicas baseadas em inteligência artificial em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, defendendo que humanos devem manter o controle absoluto sobre decisões de uso de força letal e condenando a automação da morte como moralmente inaceitável.
Manifesto da empresa Palantir defendeu a inevitabilidade do desenvolvimento de armas autônomas, priorizando o avanço tecnológico ocidental mesmo diante de questões éticas e exemplificando a fusão entre grandes empresas de tecnologia, interesses privados e militarização, enquanto especialistas alertam para a perda de barreiras entre setores e os riscos de decisões baseadas em perfis comportamentais algorítmicos.
Debate internacional sobre armas autônomas letais (LAWS) cresce impulsionado por denúncias de desumanização, exemplos como o projeto #NotABugSplat e o uso de IA em vigilância no Brasil, enquanto pesquisadores e o Vaticano alertam para o risco de internalização dessas tecnologias no controle social e para o agravamento de preconceitos e desigualdades por sistemas algorítmicos.
No dia 25 de maio de 2026, o Papa Leão XIV pronunciou-se de forma contundente a favor do travamento imediato da corrida ao armamento tecnológico global. Em sua primeira carta encíclica, intitulada Magnifica Humanitas, o Pontífice expressou profunda preocupação com o “desenvolvimento incessante dos sistemas de armas, em particular das armas relacionadas com a IA”.
O documento defende abertamente a urgência de que os seres humanos permaneçam como protagonistas absolutos na cadeia de decisão sobre o uso de força letal ou irreversível. Para a Santa Sé, a automação da morte é uma linha vermelha intransponível: “Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”.
A repercussão global no dia 25 diz respeito ao lançamento público e aos debates oficiais conduzidos no Vaticano. No entanto, a carta foi assinada dez dias antes, em 15 de maio. A data foi coincide com o aniversário de 135 anos da Rerum Novarum, encíclica de seu predecessor Leão XIII que, em 1891, redefiniu a postura social da Igreja diante dos impactos da Revolução Industrial. Agora, Leão XIV faz algo semelhante em relação à Revolução Digital.
O Manifesto da Palantir
Essa linha do tempo ganha contornos de um choque ideológico inevitável quando analisamos o que aconteceu no intervalo entre a assinatura e a divulgação da encíclica. No dia 18 de maio, a gigante de tecnologia Palantir publicou em sua conta oficial no X um manifesto chamado: “A República Tecnológica, em resumo”.

No texto, a empresa norte-americana defende a "inevitabilidade" do desenvolvimento de armas baseadas em inteligência artificial. A liderança da Palantir argumenta que as democracias ocidentais não devem paralisar suas pesquisas em função de debates éticos, uma vez que seus adversários geopolíticos avançarão com essas tecnologias de qualquer maneira. Para a corporação, o hard power do século XXI será obrigatoriamente construído sobre softwares.
Para Roberta da Silva Medina, doutoranda em Socio-legal Studies na York University (Toronto) e pesquisadora no LASInTec (Unifesp) e Politicrim (PUC-RS), o manifesto da Palantir é um documento sintomático. "Ele explicita completamente o rumo político dos nossos tempos: uma fusão absoluta entre as Big Techs, o poder das grandes empresas de capital privado, e a militarização da guerra. Não existe nenhuma barreira mais entre esses âmbitos público e privado", afirma a pesquisadora. Medina ressalta que o texto assume uma postura declaradamente supremacista e problemática, além de mercantilizar a IA como uma pretensa "via única" e um discurso de marketing civilizatório frente ao fantasma da destruição total por bombas atômicas.
A Automação Bélica e as Assinaturas Comportamentais
A pesquisadora adverte que a automação militar não nasceu com a atual corrida das Big Techs. O grande marco inicial dessa racionalidade de dados foi a Guerra do Golfo (1990-1991), momento em que o sistema GPS se transformou em uma ferramenta militar decisiva, inaugurando uma era focada em localizar, rastrear e processar informações do inimigo em tempo real. "O que está mudando agora é a velocidade e a profundidade disso: a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de apoio tático para assumir decisões diretas, como a escolha autônoma de alvos", explica Medina.
Roberta Medina relembra o filósofo Grégoire Chamayou e sua teoria do drone e explica que a possibilidade de vigilância em massa transformou o ato de monitorar e o ato de matar em uma mesma ação contínua. Sob essa nova lógica algorítmica, as forças armadas passam a rastrear as chamadas "assinaturas comportamentais". Isso significa que os indivíduos não são mais alvos por quem eles são nominalmente, mas porque seus hábitos e padrões de vida se encaixam estatisticamente dentro de um perfil considerado "suspeito" por um software de inteligência.
O que são as Armas Autônomas Letais (LAWS)?
O avanço defendido por corporações militares esbarra em um conceito técnico específico que hoje domina as buscas e os debates de segurança internacional: as LAWS (Lethal Autonomous Weapons Systems, ou Sistemas de Armas Letais Autônomas).
Diferente de sistemas amplos de IA que auxiliam na mira ou na logística (onde o humano ainda está no circuito), as LAWS referem-se a dispositivos que possuem autonomia total para selecionar, rastrear e executar alvos humanos sem qualquer validação ou intervenção posterior de um operador. Dados do Google Trends analisados pela Sala Digital apontam um crescimento expressivo de 150% nas buscas por LAWS no Google, refletindo o sinal de alerta emitido pela carta encíclica de Leão XIV.
A falácia do ataque cirúrgico: #NotABugSplat
Esse aumento vertical no interesse público está diretamente atrelado ao impacto de grandes campanhas humanitárias internacionais que tentam dar um rosto às estatísticas frias da automação bélica. Um dos maiores exemplos é o projeto #NotABugSplat, uma gigantesca instalação artística de solo criada na região de Khyber Pukhtoonkhwa, no Paquistão, área cronicamente castigada por bombardeios aéreos.

O nome do projeto confronta a gíria militar norte-americana. Nas salas de comando, os operadores de drones frequentemente referem-se às suas vítimas nas telas pixeladas como "bug splats" (insetos esmagados), devido à distância e à imagem granulada das transmissões que removem qualquer senso de humanidade.
Para quebrar essa dessensibilização, o coletivo de artistas colocou um pôster gigante com o rosto de uma criança órfã real que perdeu os pais e dois irmãos em um ataque aéreo. O retrato gigante, visível tanto pelas lentes de vigilância dos drones quanto por satélites, força os operadores a encararem um rosto humano na tela antes de decidirem apertar o gatilho, a intenção é gerar reflexão no operador.
Medina pontua que o caso dos drones no Paquistão e na Palestina deixa evidente que a presença de um humano na cadeia não elimina o viés de violência. "Mesmo quando as decisões de morte são estritamente humanas, há escolhas profundamente enviesadas por percepções racistas sobre determinados corpos e territórios", alerta.
Palantir e o Vaticano
Ao buscar por "Palantir" no Google Trends, existem dois assuntos que direcionam para entidades aparentemente distintas: a Big Tech norte-americana e o objeto ficcional da obra de fantasia O Senhor dos Anéis, escrita por J.R.R. Tolkien. A proximidade não é mera coincidência, o nome da empresa é baseado justamente no objeto ficcional do livro de Tolkien. Na mitologia literária, a palantir é uma pedra criada para enxergar através do tempo e do espaço, mas que acaba corrompida e controlada por Sauron, o Senhor do Escuro, para vigiar a Terra Média.

No livro que depois virou filme, o mago Saruman, se alia ao vilão Sauron e utiliza a palantir para coordenar guerras em regiões diferentes ao mesmo tempo. Gandalf, aprendiz de Saruman, se opõe ao uso da palantir como uma ferramenta de guerra e alerta seu mestre sobre o risco de quem poderia estar vigiando do outro lado.
Embora a cronologia impossibilite que a Magnifica Humanitas (assinada no dia 15) seja uma resposta direta ao manifesto da Palantir (lançado no dia 18), o Papa Leão XIV utilizou precisamente o universo de Tolkien para estruturar o seu contraponto ético. No ponto 213 do documento, o Pontífice evoca nominalmente o autor e uma fala de Gandalf:
“John Ronald Reuel Tolkien, um escritor católico do século XX, através das palavras de um protagonista dum seu romance, descreveu assim a nossa responsabilidade: «Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar». A civilização do amor não nasce dum gesto único e espetacular, mas duma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização.”
Como destaca Roberta Medina, a menção parece resgatar a postura de personagens como Gandalf, que compreendiam o perigo absoluto de tentar controlar e vigiar o mundo por meio da palantir. O consenso científico nas ciências sociais reforça essa perspectiva da não-neutralidade técnica. Mapeando os argumentos clássicos da matemática Cathy O'Neil em seu livro Weapons of Math Destruction (Algoritmos de Destruição em Massa), Medina lembra que algoritmos não criam a objetividade do nada, eles meramente espelham, automatizam e amplificam as desigualdades e os preconceitos racistas pré-existentes de seus programadores e das sociedades que os geraram.
O Efeito Bumerangue: A IA Militar e seu uso interno
O desfecho mais alarmante apontado pela pesquisadora do LASInTec diz respeito ao inevitável transbordamento doméstico dessas tecnologias bélicas. Na academia, esse fenômeno de importação e exportação cíclica de aparatos militares para o ambiente urbano interno é teorizado pelo geógrafo britânico Stephen Graham como o "Efeito Bumerangue".
"Não existe nenhuma garantia de que sistemas desenvolvidos para guerras externas não se tornem ferramentas de controle social interno. Pelo contrário, a tendência histórica é que isso aconteça de forma acelerada", adverte Roberta Medina. Em países com altos índices de militarização policial e letalidade estatal, como o Brasil, as consequências de uma governança por softwares são críticas.
A pesquisadora aponta que, mesmo sem robôs físicos patrulhando as ruas, a triagem e seleção de suspeitos por inteligência artificial já é uma realidade nas metrópoles brasileiras através de grandes redes de vigilância por reconhecimento facial em tempo real, a exemplo do programa Smart Sampa. Medina cita casos reais de pessoas presas injustamente dentro de unidades públicas de saúde e o emblemático erro do Smart Sampa que identificou equivocadamente um mesmo cidadão negro por quatro vezes consecutivas.
O recado de maio de 2026 desenha o nó cego da nossa era: enquanto o complexo corporativo e militar vende a ilusão de soluções algorítmicas cirúrgicas e infalíveis, a liderança do Vaticano e a pesquisa científica crítica correm para puxar o freio de mão ético, alertando que automatizar a distribuição da violência é o passo definitivo para a consolidação de uma profunda e irreversível desumanização social.
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