
Reprodução/NASA
Após registrar em 2025 alguns dos dias mais curtos já medidos desde o início das observações com relógios atômicos, cientistas preveem que a Terra pode voltar a acelerar sua rotação nos próximos anos. A projeção, acompanhada por órgãos federais e por redes internacionais de geodesia, dá continuidade a uma sequência inédita de variações na duração do dia, observadas desde 2020.
Entre julho e agosto deste ano, o planeta voltou a girar ligeiramente mais rápido que o habitual — um fenômeno que, embora imperceptível para a população, intriga a comunidade científica. Para os próximos anos, a expectativa é que eventos semelhantes se repitam e possam até se intensificar, dependendo de como evoluírem fatores climáticos e deslocamentos de massa na Terra.
“O intervalo de tempo para a Terra completar uma volta ficou menor do que a média, e isso é perfeitamente normal”, explica Leonardo Uieda, professor de geofísica da USP. “Variações assim ocorreram várias vezes no passado.”
Por que a Terra está girando mais rápido?
Segundo o Observatório Nacional, variações sazonais, movimentos do núcleo terrestre, deslocamentos de massas oceânicas e atmosféricas e grandes terremotos alteram temporariamente o momento de inércia da Terra, influenciando a velocidade de rotação.
A posição da Lua também é determinante: quando ela está mais distante do equador, o giro do planeta tende a acelerar. Em 2025, essa configuração coincidiu com episódios de rotação mais rápida — característica que pode ocorrer novamente em 2026.
Uieda compara o planeta a “um pião irregular”. “Se fosse homogêneo, giraria sempre igual. Mas montanhas, oceanos e até porções líquidas do núcleo funcionam como pequenas massas desequilibrando o movimento”, afirma.
Mudanças climáticas entram na equação
Fenômenos climáticos de grande escala também alteram a distribuição de massa na superfície. O derretimento de geleiras, por exemplo, transfere grandes volumes de água para os oceanos, afetando o giro do planeta.
“As mudanças climáticas causam redistribuição de massa, e toda redistribuição pode impactar a velocidade de rotação”, diz Uieda.
E os efeitos sobre o clima?
Para a meteorologista Andrea Ramos, a relação entre rotação e clima se manifesta por meio do efeito Coriolis, responsável por desviar ventos e correntes oceânicas e moldar padrões atmosféricos globais.
“A rotação influencia ventos predominantes, circulação atmosférica e até a formação de tempestades”, explica. “Uma rotação ligeiramente mais rápida intensifica o efeito Coriolis e pode favorecer episódios de instabilidade. Mas é importante destacar: essa influência é muito pequena comparada a fenômenos como El Niño e La Niña.”
Impactos no cotidiano são mínimos
Mesmo diante da sequência de dias mais curtos, cientistas reforçam que a população não precisa se preocupar. As diferenças são de milissegundos. “Para a maioria das pessoas, não há impacto algum. O dia a dia não muda”, diz Uieda.
Já sistemas de alta precisão — como GPS, aviação, agricultura automatizada e pesquisas geofísicas — dependem de ajustes constantes para acompanhar essas variações. “Os satélites não estão presos ao solo, então precisamos saber exatamente como a Terra está girando a cada instante”, afirma o geofísico.
Monitoramento continuará em 2026
A rotação da Terra continuará sob acompanhamento de redes internacionais, como a International Association of Geodesy, além de instituições brasileiras. As análises serão importantes para entender se a tendência de aceleração sazonal registrada nos últimos anos se repetirá — e com qual intensidade.
“Quando falamos de longo prazo, estamos falando de milhões de anos”, observa Uieda. “A Terra está em constante transformação, e a rotação acompanha essas mudanças.”
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