
A Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, localizada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, torna-se o primeiro território quilombola a receber o tombamento federal no país. O reconhecimento oficial ocorre nesta terça-feira (10), durante a 112ª Reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A medida inaugura o Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, afirma que a declaração representa um gesto fundamental de reparação histórica. Segundo Grass, o processo foi construído com a participação direta dos moradores, assegurando que as comunidades sejam as protagonistas da preservação de suas memórias. O dirigente antecipa que este é o primeiro de muitos territórios que devem receber o mesmo reconhecimento jurídico e cultural.
Resistência e legado de Tia Eva
Popularmente conhecida como Comunidade Tia Eva, o território foi fundado por Eva Maria de Jesus (1848–1929), uma benzedeira que conquistou a alforria e se estabeleceu no então sertão do Mato Grosso. Para o superintendente do Iphan no estado, João Henrique dos Santos, o tombamento valoriza a trajetória de uma mulher negra que constituiu uma comunidade rural hoje integrada ao contexto urbano de Campo Grande.
Rayssa Almeida Silva, arquiteta e moradora da comunidade, destaca que o reconhecimento é um legado para as futuras gerações e uma homenagem aos ancestrais. Ela participou ativamente dos estudos técnicos e ressalta a importância de despertar o interesse dos mais jovens pela história de resistência contra as batalhas da vida travadas por Tia Eva.
O processo administrativo teve início no começo de 2024, fundamentado na Portaria Iphan nº 135/2023, que regulamentou o tombamento de sítios detentores de memórias dos antigos quilombos.
A norma estabelece princípios como a autodeterminação e a consulta prévia às comunidades, além de fortalecer ações antirracistas na gestão do patrimônio nacional. Tataraneto da fundadora, Nilton dos Santos Silva manifesta a expectativa de que o título atraia investimentos em reformas e estimule o turismo histórico na região.
Com informações da Agência Brasil
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