
Irã e EUA
REUTERS/Dado Ruvic/Illustration
A paz está vencendo a guerra nas negociações entre Irã e Estados Unidos, que ganharam ontem, durante uma reunião de “última chance”, em Genebra, uma quarta rodada extra, na semana que vem, em Viena.
Se Teerã der o que Washington está exigindo, então o presidente Donald Trump poderá sair do impasse armado até os dentes que ele próprio se criou, e proclamar uma vitória diplomática. Não é difícil para o Irã aceitar as exigências, se realmente não estiver blefando sobre a desistência de criar uma bomba atômica.
A primeira delas: desmantelar as usinas nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan, que o presidente Trump diz ter “obliterado” em um ataque no último dos 12 dias de guerra com Israel, em junho passado. Os negociadores iranianos dizem que o aiatolá Al Kamenei promulgou uma “fatwa” (uma decisão baseada na lei islâmica) contra a bomba atômica.
A segunda condição: transferir os 400 quilos de urânio enriquecido a 60% para os EUA, e não para a Rússia, como estava sendo discutido.
A terceira: “zero enriquecimento de urânio”, com o Irã insistindo em refinar urânio a 1,5% para tratamentos médicos.
A quarta – essa uma condição iraniana: remoção total das sanções americanas. Os EUA propõem um mínimo de alívio inicialmente, com gradual aumento se o Irã cumprir com o acordo.
A terceira e “última” rodada de negociações de ontem, no consulado do sultanato de Omã em Genebra, na Suíça, foi desdobrada em duas, para permitir consultas a ambos os governos. Quando a segunda reunião do dia acabou, foi anunciado um novo encontro, na semana que vem, em Viena, sede do Instituto de Energia Nuclear, cujo diretor geral, Rafael Grossi, tem acompanhado as negociações.
No intervalo entre as duas reuniões, os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner participaram das negociações para o fim da guerra entre Ucrânia e Rússia, em Genebra. No intervalo, também, o mediador entre Irã e EUA, o ministro omani das Relações Exteriores, Al-Busaid, escreveu, na plataforma X, que testemunhou uma “criativa e positiva troca de ideias”, e acrescentou: “Esperamos obter mais progressos”.
O porta-voz da chancelaria iraniana, Ismail Baghaei, descreveu as conversas indiretas da manhã como “intensivas e sérias”. O conteúdo, acrescentou, foram “importantes propostas operacionais levantadas nas áreas nuclear e de suspensão das sanções”. E concluiu: um acordo é possível “se os EUA isolarem as questões nucleares de outras questões”.
Ao final da segunda reunião, o mediador Al-Busaidi voltou a escrever que houve “uma abertura sem precedentes para novas e criativas ideias e soluções, criando-se um ambiente de apoio para progressos e um justo acordo”.
O maior porta-aviões do mundo, o Gerald Ford, levantou âncora de Creta e zarpou para Haifa, em Israel, onde chega nesta sexta-feira à tarde. Ele completa a poderosa armada que os EUA montaram no Oriente Médio para um ataque ao Irã, desde que, em janeiro, mais de três mil manifestantes iranianos foram mortos pela repressão, enquanto protestavam pela carestia de vida e contra o regime teocrático da República do Islã. Ficou famosa a frase então dita por Trump: “Ajuda está a caminho”.
O otimismo nas negociações em Genebra é o pessimismo em Israel, que não confia em nenhum acordo com o Irã. “É duro para nós assistir os americanos recuarem”, disse uma fonte do governo ao jornal Yedioth Ahronoth. Além de uma bomba atômica iraniana, o que preocupa os militares israelenses são os mísseis balísticos que mataram 32 civis na Guerra de 12 Dias, além de acertar algumas bases aéreas secretas. Os mísseis estavam na pauta das exigências americanas, mas não foram mencionados no resumo das reuniões. A posição do Irã é clara, como disse seu chanceler Abbas Araghchi: “Não podemos abrir mão de uma arma de dissuasão”.
O secretário de Estado Marco Rubio disse que a recusa iraniana em discutir seu programa de mísseis “é um grande problema”. Mas acrescentou que “o presidente Trump quer uma solução diplomática”, indicando que os mísseis poderiam ser parte de outra negociação depois de concluído um primeiro acordo nuclear. O perigo é se, por alguma provocação, ou sem, Israel decida ir à guerra por conta própria.
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