
Celebração da Orixá Iemanjá
Fernando Frazão/Agência Brasil
Mais de 80% dos terreiros de religiões de matriz africana no Brasil sofreram algum tipo de racismo religioso nos últimos dois anos, segundo os dados da pesquisa "Respeite o meu terreiro", divulgada em 2025. O levantamento, que busca mapear a violência e as formas de resistência dessas comunidades , foi realizado a partir das respostas de religiosos de 511 casas e teve seus resultados apresentados em uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), na Suíça, na quinta-feira (4).
O conceito de racismo religioso é mais recente e visa ir além da intolerância religiosa, ao evidenciar o racismo como um componente central da violência contra as religiões afro-brasileiras.
Entre os relatos mais frequentes feitos pelos líderes religiosos estão:
- Agressão verbal.
- Xingamentos.
- Ataques diretos.
- Abordagem policial discriminatória.
Além disso, 76% das casas religiosas foram alvo de diversas formas de violência. Deste total, 74% foram ameaçadas, depredadas ou destruídas por racismo religioso.
Recentemente, em Aracaju (SE), o terreiro Ìlé Àṣé Ìyá Ọṣún foi invadido e depredado. Objetos como geladeira, fogão e máquina de costura foram furtados, e itens sagrados foram destruídos e profanados. Em novembro, uma escola pública em São Paulo foi intimidada por policiais armados após a queixa de um pai incomodado com um desenho infantil representando a orixá Iansã.
Violência online e baixa taxa de denúncias
A violência se manifesta também no ambiente digital. O estudo mostra que 52% dos terreiros sofreram assédio ou racismo religioso na internet. A maioria das casas religiosas mantém perfis em redes sociais como Facebook e Instagram para divulgar suas atividades.
Apesar da gravidade e da recorrência dos ataques, a pesquisa apontou que menos de três em cada dez líderes conseguiram registrar um boletim de ocorrência em delegacia.
O levantamento é uma iniciativa da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro) e do terreiro Ilê Omolu Oxum, em parceria com o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania. A responsável pela pesquisa, Mãe Nilce, afirma que, nas últimas décadas, terreiros continuaram sendo invadidos, destruídos, e pais e mães de santo foram assassinados, com fiéis sendo perseguidos apenas por pertencerem a uma religião não cristã.
Mãe Nilce destaca que, se no passado os algozes eram as autoridades policiais, atualmente as comunidades são vítimas de "uma campanha orquestrada por grupos religiosos, muitas vezes de origem pentecostal, que em alguns casos são associados ao narcotráfico e milícia".
Para os pesquisadores, são urgentes políticas públicas mais eficazes e maior conscientização social sobre o problema, como apontado pelos líderes religiosos. "Somente a partir do respeito dos modos destas comunidades, haverá garantia de direitos", concluem os responsáveis pelo estudo.
O racismo religioso é considerado crime no Brasil, punido com pena de prisão de dois a cinco anos ou multa, dependendo do caso. É possível acionar a Polícia Militar pelo 190, registrar boletim de ocorrência em qualquer delegacia ou denunciar anonimamente pelo Disque 100, um serviço do governo federal para violação de direitos humanos.
*Com informações da Agência Brasil.
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