Lula tem desde ontem um desafio que não estava no script dele: achar alguém para ocupar a vaga deixada por Luís Roberto Barroso, que anunciou a saída antecipada do Supremo Tribunal Federal.
E escolher um ministro do Supremo, vamos combinar, não é tipo escolher ministro da Pesca que não tem importância. É muito importante. E os observadores do universo jurídico lembram que o PT já indicou alguns nomes que decepcionaram o PT. Nomes que pareciam alinhados, mas que com o tempo se viu que não eram tão alinhados assim.
Joaquim Barbosa, escolhido por Lula, foi o relator do processo do Mensalão no Supremo. Condenou um monte de petista, petista graúdo, tipo José Dirceu. Luiz Fux, indicado por Dilma, sabatinado, aprovado, foi o único voto a favor da absolvição de Jair Bolsonaro nessa que teve agora.
De forma que tem um grande desafio que é achar um nome que agrade, não decepcione, vote com o governo nas matérias que interessam. Que perfil será? Quem será esse cara?
Mas tem um segundo desafio que é chegar a um nome que ajude o Palácio do Planalto a tirar proveito político com o meio empresarial, agronegócio, Câmara dos Deputados, entidades de classe, tal, Senado. Porque tem esse lado formal, que é a sabatina no Senado, mas tem uma construção social em torno daquele que é um dos cargos mais disputados da República.
Então agora Lula vai começar as consultas, tem a bolsa de apostas correndo solta que faz a lista crescer, ele vai diminuindo a lista, vai buscando alguns nomes que podem surpreender, até a hora que ele chegue num nome que interessa para ele e passe esse nome por um teste de esforço, submetendo a integrantes do Supremo, informalmente, a interlocutores estratégicos. Até porque, você sabe, presidente da República não indica um nome achando que ele vai ser reprovado no Senado. Tem que construir para saber que vai ser aprovado. Todos foram até agora na história recente, não tem caso algum.
E, vamos falar, Lula não estava esperando mesmo essa vaga. Até porque muitos ministros do Supremo anunciam que vão sair, já aconteceu várias vezes, mas na hora H eles ficam. Barroso não, surpreendeu. Falou que ia sair e... e saiu. Então ele não esperava. Não esperava, mas óbvio que os presidentes preferem nomear o ministro do Supremo em vez de ver os outros nomeando, né?
Mas, na prática, na prática, a saída do Barroso não vai mudar a equação interna do Supremo. Se a gente pegar Lula e Dilma, que são dois presidentes da República do PT, os dois juntos têm sete ministros do Supremo. Quatro do Lula: Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Três da Dilma: Barroso, Luiz Fux e Edson Fachin, atual presidente. Então, você pega, além desses, quatro que sobram, né? Dois do Jair Bolsonaro, Nunes Marques e André Mendonça. Um do Fernando Henrique, que é o Gilmar Mendes, o decano, e um de Michel Temer, que é o Alexandre de Moraes.
Então, com a saída de Barroso, Dilma perde um nome, fica com dois. Lula ganha um nome, fica com cinco. Ou seja, o PT, que tinha sete, fica com sete. Não ampliou o espaço no tribunal, que já é enorme.
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