
SAMU 192
Divulgação
A sirene do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192) toca, indicando que uma vida está em risco e que o tempo é um recurso escasso. No entanto, por trás dessa urgência visível, existe uma "fila invisível" de chamadas que, diariamente, é sabotada por trotes e solicitações indevidas.
Dados da Sala Digital revelam que o interesse de buscas por “SAMU” no Google atingiu recordes consecutivos nos últimos quatro anos. O dado sugere que, diante de uma emergência, o primeiro impulso de muitas pessoas é recorrer ao Google para descobrir qual número ligar — um sinal claro de desconhecimento básico e, de forma indireta, da banalização do serviço.
Em vez de o 192 estar automaticamente associado a situações de risco de vida, ele passou a disputar espaço com dúvidas elementares em momentos críticos.
A banalização que ameaça a saúde pública
Essa banalização não é um problema administrativo. É uma ameaça concreta à saúde pública. Cada ligação indevida consome tempo, equipe, linha telefônica e, em alguns casos, mobiliza ambulâncias que deixam de atender ocorrências reais. O impacto é direto: atrasos no socorro, decisões mais restritivas na regulação e maior risco para quem está, de fato, em situação de vida ou morte.
Hoje, o SAMU 192 cobre mais de 88% da população brasileira e é o principal serviço de atendimento pré-hospitalar (APH) do país, atuando em emergências clínicas, traumáticas, obstétricas e psiquiátricas. Ainda assim, a sobrecarga causada pelo uso inadequado segue como um desafio estrutural.
Os números por trás do desperdício
Os números ajudam a dimensionar o problema. Em Alagoas, apenas em 2024, o SAMU recebeu 253.412 ligações. Destas, 55.534 foram trotes — uma média de 154 por dia. Outras 51.408 chamadas foram classificadas como indevidas, incluindo pedidos de informação, solicitações de telefones de hospitais ou enganos.
No Distrito Federal, a situação é histórica: a taxa de ligações desnecessárias saltou de 33,63% em 2009 para 71,98% em 2014. Cada chamada sem caráter emergencial ocupa a Central de Regulação, gera custos operacionais e pode impedir que uma ocorrência grave seja atendida a tempo.
Parte desse comportamento está ligada à percepção de que acionar o SAMU é mais rápido e resolutivo do que buscar a Atenção Primária à Saúde (APS). Na prática, isso transforma o serviço de emergência em substituto de consultas, orientações médicas ou transporte, distorcendo completamente sua função.
Como funciona a regulação do SAMU
Quando alguém liga para o 192, a chamada é atendida por um Técnico Auxiliar de Regulação Médica (TARM), que coleta as informações iniciais e repassa o caso a um Médico Regulador. Cabe a ele avaliar a gravidade, orientar o solicitante e decidir se há necessidade de envio de ambulância — seja uma Unidade de Suporte Básico (USB) ou uma Unidade de Suporte Avançado (USA), equipada como UTI móvel.
Em um sistema pressionado por chamadas indevidas, essa decisão se torna ainda mais crítica e restritiva.
Quando ligar para o SAMU 192
O SAMU deve ser acionado exclusivamente em situações de urgência e emergência, quando há risco iminente de morte, de sequelas graves ou de sofrimento intenso. Em caso de dúvida real sobre risco de vida, a orientação é ligar para o 192 e seguir rigorosamente as instruções do Médico Regulador.
Entre as principais situações que exigem acionamento imediato estão emergências clínicas de alto risco, como parada cardiorrespiratória, falta de ar intensa, suspeita de infarto (com dor no peito súbita, opressiva, irradiada para braço, pescoço ou mandíbula) e sinais de acidente vascular cerebral, como dificuldade na fala, perda de força em um lado do corpo ou desvio da boca. Nesses casos, o tempo é decisivo para reduzir sequelas e salvar vidas.
Também demandam atendimento imediato as emergências traumáticas: acidentes de trânsito com vítimas, atropelamentos, quedas de altura, ferimentos por arma de fogo ou arma branca, queimaduras graves, afogamentos, soterramentos e choques elétricos. Em cidades como Ilhéus, por exemplo, acidentes de trânsito representam o principal mecanismo de trauma, com predominância de motocicletas e maior incidência nos fins de semana e à noite.
O SAMU também integra a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e atua em crises psiquiátricas graves, como tentativas de suicídio, surtos psicóticos ou crises intensas com risco para o próprio paciente ou para terceiros. Em 2024, só no Distrito Federal, foram mais de 7,5 mil acionamentos relacionados à saúde mental. Emergências obstétricas com risco para a mãe ou para o feto também justificam o acionamento.
Quando não ligar: o custo coletivo da chamada errada
Por outro lado, ligar para o 192 em situações não urgentes tem um custo coletivo elevado. Sintomas leves ou crônicos — como febre baixa, dores antigas, dor de dente, vômitos e diarreias sem sinais de gravidade — devem ser atendidos na Atenção Primária ou em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
Cortes pequenos, entorses, pedidos de informação, transporte para consultas, exames ou transferências de pacientes estáveis não são atribuições do SAMU.
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