Band Jornalismo

Tenente-coronel réu por feminicídio intimidou PMs e tentou culpá-los

Registros mostram contradições na versão do oficial e levantam suspeitas sobre possível tentativa de interferência e fraude na cena do crime

Da redação
DA REDAÇÃO

21/03/2026 • 08:26 • Atualizado em 21/03/2026 • 08:36

Geraldo Leite Rosa Neto, tenente-coronel da PM, foi preso suspeito de matar a mulher, a PM Gisele

Geraldo Leite Rosa Neto, tenente-coronel da PM, foi preso suspeito de matar a mulher, a PM Gisele

Kakaroto Tviate/TheNews2/Estadão Conteúdo

Imagens de câmeras corporais dos policiais que atenderam à ocorrência envolvendo a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, morta em 18 de fevereiro, registraram uma postura considerada agressiva e autoritária do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos. Durante a ação, ele chegou a responsabilizar os próprios PMs por suposta alteração da cena do crime.

Compartilhar

Os agentes foram acionados pelo próprio oficial, que alegou inicialmente tratar-se de suicídio — versão que ele manteve durante a audiência de custódia. Mais de 30 dias após a morte de Gisele, o militar segue preso, suspeito de feminicídio e fraude processual. Ele nega as acusações.

Segundo as investigações, os diálogos registrados indicam que os policiais passaram a desconfiar da conduta de Geraldo Neto ainda no local. De acordo com o inquérito, o oficial desrespeitou orientações da equipe e chegou a telefonar para um desembargador, amigo pessoal, para acompanhar a ocorrência.

As imagens também mostram momentos de tensão, como quando o tenente-coronel tenta entrar no apartamento e questiona alterações no ambiente. Um dos policiais informa que o local estava preservado para perícia, mas autoriza a entrada. Ao notar mudanças, Geraldo questiona quem teria modificado a cena, sendo advertido de que toda a ocorrência estava sendo filmada.

Outro ponto considerado relevante pela investigação foi a insistência do militar em tomar banho antes de se apresentar à delegacia — atitude que poderia comprometer a coleta de provas, como resíduos de pólvora. Policiais tentaram impedi-lo, mas, segundo o relatório, ele reagiu de forma ríspida e afirmou que não fugiria.

Durante esse momento, os agentes também identificaram contradições na versão apresentada. O próprio oficial havia dito anteriormente que estava no banho quando a vítima teria atentado contra a própria vida, mas depois afirmou que mal havia iniciado o banho quando ouviu um barulho.

Para a Polícia Civil, essa inconsistência representou um ponto-chave na apuração, ao indicar fragilidades no relato do investigado.

As imagens ainda mostram o incômodo dos policiais com a situação. Em um dos trechos, um cabo alerta um superior sobre o risco de perda de provas caso o banho fosse permitido, destacando a importância do exame residuográfico.

Além disso, um tenente relatou “fortes desconfianças” sobre o comportamento de Geraldo Neto, apontando como incomum o fato de ele não apresentar vestígios de sangue, apesar de alegar ter prestado socorro à vítima. O oficial também considerou estranho que a primeira atitude do tenente-coronel tenha sido acionar um desembargador.

O magistrado citado é Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, que confirmou em depoimento ser amigo pessoal do investigado. Segundo a Polícia Civil, o relato foi considerado consistente e não indicou tentativa de interferência nas investigações, sendo atribuído a um gesto de lealdade pessoal.

*Com informações do Estadão Conteúdo.