
Avião da Voepass caiu em Vinhedo-SP, há um ano
Paulo Pinto/Agência Brasil
Um ano após a queda do voo 2Z2283 da Voepass (um ATR-72 com prefixo PS-VPB), o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), que apura as causas da tragédia aérea em Vinhedo (SP), ainda não tem o relatório final sobre as causas da tragédia que matou 62 pessoas. No entanto, a empresa está sem poder voar desde junho deste ano.
Relembre o acidente
Em 9 de agosto de 2024, o voo 2Z2283 da Voepass (um ATR-72 com prefixo PS-VPB) decolou de Cascavel (PR) rumo a Guarulhos (SP) e caiu às 13h22 em um condomínio residencial de Vinhedo, no interior paulista. Todas as 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e 4 tripulantes — morreram. Não houve vítimas em solo.
O acidente é o quinto maior em número de vítimas já registrado no espaço aéreo do Brasil e o maior desde que um avião da TAM bateu num galpão ao tentar aterrissar em Congonhas, em 2007, deixando 199 mortos.
Vídeos registrados por moradores mostraram a aeronave em queda livre antes de atingir o solo, num movimento conhecido como "parafuso chato”, usado para descrever quando um avião entra em rotação em torno de seu eixo vertical enquanto despenca. Esse movimento indica que o turboélice ficou em estol – quando uma aeronave perde a sustentação que lhe permite voar.
Segundo o site Flight Aware, que monitora voos em tempo real ao redor do mundo, o avião da Voepass perdeu 3.300 metros de altitude em menos de um minuto. O voo decolou às 11h59 e caiu por volta das 13h22.
Fotografias tiradas no local da queda mostraram a aeronave completamente destruída e em chamas. O turboélice atingiu duas casas do Condomínio Recanto Florido, no bairro Capela. Não houve registro de vítimas em solo.
Aeronave havia sofrido danos
Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o turboélice ATR-72 operado pela Voepass foi fabricado pela companhia franco-italiana Avions de Transport Régional (ATR) em 2010 e se encontrava em condição regular para operar, com certificados de matrícula e de aeronavegabilidade válidos. Os quatro tripulantes a bordo estavam devidamente licenciados e com as habilitações válidas, afirmou a agência.
No dia 10 de agosto de 2025, o programa Fantástico, da Rede Globo, revelou que o avião havia sofrido danos em sua cauda durante um pouso em 11 de março deste ano, após uma viagem entre Recife e Salvador.
O avião passou por reparos até julho, quando voltou a operar regularmente. Segundo parecer do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da Força Aérea Brasileira (FAB), os danos sofridos pelo avião foram leves.
Uma funcionária da Voepass ouvida pelo Fantástico relatou que um dos pneus estourou no momento da decolagem, os pedaços de borracha danificaram o sistema hidráulico e isso atrapalhou o pouso, fazendo com que a cauda do avião colidisse com o solo.
Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo afirmam que não é possível estabelecer uma relação entre o ocorrido em março e o acidente da última sexta-feira.
A Voepass afirmou que o avião passou por manutenção de rotina na noite anterior ao acidente.
Quem eram as vítimas?
A bordo havia perfis muito diversos: famílias, executivos, representantes comerciais e moradores de diferentes estados. Técnicos do Instituto Médico Legal (IML) concluíram que a causa da morte das vítimas foi politraumatismo, ou seja, todos os ocupantes morreram quando a aeronave atingiu o solo.

Acidente com avião da Voepass matou 62 pessoas em Vinhedo, interior de São Paulo
Segundo os profissionais do IML, a carbonização dos corpos foi provocada pela explosão seguida de incêndio após a queda, posterior aos óbitos.
Veja a lista de passageiros:
- ROSANGELA SOUZA
- ELIANE ANDRADE FREIRE
- LUCIANI CAVALCANTI
- JOSE FER
- DENILDA ACORDI
- MARIA AUXILIADORA VAZ DE ARRUDA
- JOSE CLOVES ARRUDA
- NELVIO JOSE HUBNER
- GRACINDA MARINA CASTELO DA SILVA
- RONALDO CAVALIERE
- SILVIA CRISTINA OSAKI
- WLISSES OLIVEIRA
- HIALE SCARPINE FODRA
- DANIELA SCHULZ FODRA
- REGICLAUDIO FREITAS
- SIMONE MIRIAN RIZENTAL
- JOSGLEIDYS GONZALEZ
- MARIA PARRA
- JOSLAN PEREZ
- MAURO BEDIN
- ROSANGELAMARIA DE OLIVEIRA
- ANTONIO DEOCLIDES ZINIJUNIOR
- KHARINE GAVLIK PESSOA ZINI
- MAURO SGUARIZI
- LEONARDO HENRIQUE DA SILVA
- MARIA VALDETE BARTNIK
- RENATO BARTNIK
- HADASSAMARIA DASILVA
- RAPHAEL BOHNE
- RENATO LIMA
- RAFAEL ALVES
- LUCAS FELIPE COSTA CAMARGO
- ADRIELLE COSTA
- LAIANA VASATTA
- ANA CAROLINE REDIVO
- JOSECARLOS COPETTI
- ANDRE MICHEL
- SARAH SELLALANGER
- EDILSON HOBOLD
- RAFAELFERNANDO DOSSANTOS
- LIZIBBA DOSSANTOS
- PAULO ALVES
- PEDRO GUSSONDONASCIMENTO
- ROSANA SANTOSXAVIER
- THIAGO ALMEIDAPAULA
- ADRIANA SANTOS
- DEONIR SECCO
- ALIPIO SANTOS NETO
- RAQUEL RIBEIROMOREIRA
- ADRIANO DALUCABUENO
- MIGUEL ARCANJO RODRIDUES JUNIOR
- DIOGO AVILA
- LUCIANO TRINDADE ALVES
- ISABELLA SANTANA POZZUOLI
- TIAGO AZEVEDO
- MARIANA BELIM
- ARIANNE RISSO
- CONSTANTINO THÉ MAIA
Veja a lista de tripulantes:
- DEBORA SOPER AVILA
- RUBIA SILVA DE LIMA
- HUMBERTO DE CAMPOS ALENCAR E SILVA
- DANILO SANTOS ROMANO
O que se sabe sobre as causas
A investigação do CENIPA é complexa e multifatorial. Especialistas em aviação afirmam haver a possibilidade de que a queda do avião tenha sido provocada pela formação de gelo nas asas, levando em conta as condições meteorológicas e um acidente parecido ocorrido nos EUA.
A Voepass não descartou essa hipótese, mas não há confirmação até o momento de que os sistemas antigelo do turboélice tenham falhado. Segundo a empresa, a tripulação do voo 2283 sabia que enfrentaria gelo na viagem.
Investigadores também não descartaram a possibilidade, mas afirmam que ainda é cedo para determinar as causas da tragédia.
Voepass não pode mais voar
A ANAC intensificou as ações de fiscalização após o desastre. Em 11 de março de 2025, a agência suspendeu cautelarmente as operações da Voepass por descumprimento de exigências e degradação do sistema de gestão de segurança. A medida acionou uma operação de proteção ao consumidor (Procon-SP) e reacomodações por companhias parceiras.
Em 24 de junho de 2025, após novas auditorias e persistência de falhas, a ANAC cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da Voepass — na prática, o “descredenciamento” definitivo para voos comerciais. A cassação consolidou o encerramento operacional da empresa e atualmente ela não pode mais voar.
A suspensão e a posterior cassação afetaram malhas regionais, slots e milhares de bilhetes — com remarcações e reembolsos viabilizados por meio de acordos com parceiras, sobretudo a Latam (codeshare). A Agência Brasil e a Exame registraram ações para mitigar efeitos em destinos sensíveis, como Fernando de Noronha, além de autorizações emergenciais para resgatar passageiros.
Recuperação judicial
Sob pressão financeira após a suspensão da ANAC, a Voepass pediu recuperação judicial em abril de 2025; decisões judiciais limitaram o alcance do pedido às empresas não operacionais do grupo. Em paralelo, houve determinações trabalhistas de pensão a familiares de tripulantes e reportagens sobre demissões na companhia.
Homenagens às vítimas
Um ano após a tragédia, familiares inauguraram um memorial em Vinhedo e reforçaram a atuação da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283. A mobilização foi criada para cobrar respostas e padrões mais rígidos de segurança.
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