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Menina de 12 anos conta como sobreviveu por 32 h sob escombros na Venezuela

Fabiana Blanco, de 12 anos, sobreviveu ao desabamento de prédio em Caraballeda e descreveu à BBC como manteve a calma até o resgate

Da redação
DA REDAÇÃO

06/07/2026 • 13:28 • Atualizado em 06/07/2026 • 13:28

Fabiana Blanco, de 12 anos, sobrevivente da tragédia na Venezuela

Fabiana Blanco, de 12 anos, sobrevivente da tragédia na Venezuela

Leonardo Fernandez Viloria/Reuters

A adolescente venezuelana Fabiana Blanco, de 12 anos, passou cerca de 32 horas presa sob os escombros do prédio onde morava em Caraballeda, no Estado de La Guaira, após os terremotos de 24 de junho na Venezuela, e contou à BBC como sobreviveu ao desabamento e reencontrou a mãe, Karina.

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Desabamento em segundos

Na tarde de 24 de junho, Fabiana estava sozinha no apartamento da família, no primeiro andar de um edifício de dez andares, enquanto Karina ministrava uma aula de spinning em outra região. A mãe relatou à emissora que interrompeu a atividade assim que sentiu a terra tremer, entrou no carro e dirigiu "o mais rápido" que pôde em direção ao condomínio, gritando pela filha.

Dentro do apartamento, Fabiana percebeu que os tremores aumentavam, saiu do quarto e correu para a cozinha, onde se segurou em uma bancada. Poucos segundos depois, o prédio começou a desabar. "Eu vi tudo tremendo, caindo, quebrando. Naquele momento, pensei: vou morrer, não vou sobreviver a isso, ninguém vai me resgatar", lembrou a adolescente.

Ela ficou presa sob toneladas de concreto, cercada por destroços e com o teto a poucos centímetros do rosto. Apesar de sofrer de ansiedade e claustrofobia, disse ter sentido uma tranquilidade inesperada naquele momento. "Não sei por quê, uma estranha calma me invadiu. Talvez minha mente estivesse em choque", afirmou.

Mãe acreditou que filha havia morrido

Ao chegar ao condomínio, Karina encontrou uma paisagem que descreveu como inacreditável. Ela contou à BBC que enxergava um prédio, depois um espaço vazio onde ficava o edifício da família, e então outro prédio. Em meio aos escombros, viu parte da cama da filha e concluiu que Fabiana havia morrido.

A mãe relatou que corria de um lado para o outro gritando que a filha estava morta e sem saber como agir. Enquanto isso, sob os destroços, Fabiana permanecia viva. Uma enfermeira que também havia ficado presa começou a chamar por sobreviventes e, ao ouvir a voz da menina, pediu que ela se mantivesse calma.

Cerca de seis horas após o desabamento, a enfermeira foi resgatada e informou às equipes que havia uma adolescente chamada Fabiana naquele ponto dos escombros. Karina disse que, naquele momento, já tentava aceitar a perda da filha e havia se "entregado a Deus" quando ouviu de alguém: "sua filha está viva".

Estratégias para resistir sob os escombros

Enquanto aguardava o resgate, Fabiana buscou formas de resistir. Em determinado momento, encontrou o celular entre os destroços. Sem sinal de telefonia, decidiu gravar um vídeo informando o endereço onde estava presa e pedindo ajuda, na esperança de que a mensagem fosse enviada quando a rede voltasse a funcionar.

A adolescente conseguiu mover parte dos escombros para aliviar a posição de uma das pernas, que estava dobrada de forma dolorosa. Ao fazer isso, encontrou um frasco de ketchup e um pouco de queijo ralado. Segundo contou à emissora, aqueles alimentos a ajudaram a permanecer consciente durante as longas horas de espera. "Por algum motivo, eu tinha esperança e fé", disse.

Resgate mobilizou voluntários e vizinhos

As primeiras equipes de bombeiros que chegaram ao local não conseguiram localizar Fabiana. A situação mudou quando um voluntário chamado Viktor subiu sobre os escombros e passou a chamar a menina pelo nome. Desta vez, ela respondeu, e a confirmação de que estava viva levou Karina a gritar para todos ao redor.

Moradores e voluntários passaram a levar ferramentas para ajudar nas buscas, mas bombeiros que participavam da operação afirmaram que seria impossível alcançá-la. Mais tarde, outra equipe de resgate assumiu os trabalhos e, como já era noite, vizinhos improvisaram uma iluminação com os faróis de carros e motocicletas.

Aos poucos, socorristas removeram os destroços até abrir uma pequena passagem. O momento em que Fabiana apareceu sorrindo pela abertura foi registrado em vídeo e viralizou na Venezuela. "Depois de tantas horas confinada, fiquei cheia de alegria quando os vi. Percebi que seria resgatada", relatou.

Por volta das 2h da manhã de sexta-feira, cerca de 32 horas após os terremotos, os socorristas conseguiram abrir um túnel estreito e retirar a adolescente. "Quando saí, vi minha família e o prédio completamente destruído. Parecia que nada daquilo era real, como se fosse uma série de TV", afirmou.

Trauma e luto após a tragédia

Fabiana sofreu uma fratura no pé esquerdo, além de cortes e hematomas, e hoje vive com a avó enquanto enfrenta as consequências emocionais da tragédia. "No início eu tinha medo de me deitar, especialmente de costas, porque me lembrava do tempo que passei nos escombros", contou.

Karina relatou que, das quase 50 pessoas que moravam no edifício, apenas três sobreviveram. Segundo as autoridades venezuelanas, mais de 3,3 mil pessoas morreram nos terremotos, e dezenas de milhares seguem desaparecidas.

Apesar das perdas, a mãe afirma que tenta seguir em frente. Ela diz sentir "muita dor" ao pensar nos vizinhos e amigos, mas destaca que a sobrevivência da filha é o que lhe permite continuar. "Vamos levar algum tempo para nos recuperar. Mas seguiremos em frente. O que mais uma mãe poderia querer? Minha filha está viva", declarou à BBC.