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Voepass: Cenipa aponta fragilidades na manutenção de aviões e informalidade

"A cultura era não reportar falhas para que as aeronaves pudessem voar", diz chefe de investigação da aeronáutica

Matheus Christov
MATHEUS CHRISTOV

23/07/2026 • 19:40 • Atualizado em 23/07/2026 • 19:40

Destroços do avião da Voepass

Destroços do avião da Voepass

Reprodução

O relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), concluiu que a companhia apresentava uma cultura organizacional marcada pela normalização de desvios de procedimentos, com falhas recorrentes que deixavam de ser registradas oficialmente para permitir a continuidade das operações dos aviões.

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Segundo a investigação, entrevistas com mecânicos revelaram que panes identificadas durante os voos eram, em alguns casos, comunicadas apenas de forma verbal, sem o devido registro no diário de bordo da aeronave. O procedimento contrariava as práticas previstas pelo fabricante e comprometia o acompanhamento das falhas pelo setor de manutenção da empresa.

Os investigadores verificaram que problemas registrados nos voos que antecederam o acidente, como falhas no sistema de degelo, deixaram de ser anotados oficialmente pelas tripulações, mesmo após a ocorrência de alertas em voo. Sem esses registros, a manutenção não era formalmente acionada para avaliar a pane e definir as correções previstas nos manuais.

O Cenipa também identificou fragilidades no controle da manutenção da empresa. Entre elas, estão deficiências no sistema de reporte de panes, liberações técnicas irregulares de aeronaves, danos recorrentes nos equipamentos do sistema de degelo e falhas na supervisão das atividades de manutenção.

"A cultura era não reportar falhas para que as aeronaves pudessem voar", disse o Tenente-Coronel Aviador Paulo Mendes Fróes, chefe da Seção de Investigação do Cenipa.

Outro ponto destacado pela investigação envolve o gerenciamento da Lista de Equipamentos Mínimos (do inglês MEL - minimum equipment list), documento que estabelece em quais condições uma aeronave pode continuar operando com determinados equipamentos inoperantes.

Segundo o relatório, quando aviões pernoitavam em bases secundárias da Voepass, fora de Ribeirão Preto (SP), com frequência chegavam ao último dia do prazo permitido para reparo da falha.

Em alguns casos, um novo registro de falha era feito pelas tripulações para que o prazo de operação em condições mínimas fosse renovado, permitindo que a aeronave continuasse voando por mais alguns dias.

Durante as entrevistas ao Cenipa, mecânicos também relataram que componentes defeituosos eram, por vezes, substituídos por peças provenientes de outras aeronaves que já apresentavam falhas conhecidas.

Ao apresentar as conclusões do relatório, o Cenipa afirmou que identificou uma cultura organizacional caracterizada pela informalidade nos registros, fragilidades no controle da manutenção e pela prática de não reportar determinadas falhas para manter as aeronaves em operação.

O relatório da aeronáutica tem como principal finalidade a prevenção de novos acidentes. No entanto, no âmbito da investigação da Polícia Federal, que ainda está em andamento, os responsáveis pelas irregularidades poderão ser indiciados e responder criminalmente.