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Vorcaro determinou atos de intimidação contra ex-empregados e jornalistas

Em um grupo denominado 'A Turma', Vorcaro chegou a escrever que queria 'mandar dar um pau' em Lauro Jardim, jornalista de "O Globo"

PEDRO TEIXEIRA

04/03/2026 • 09:01 • Atualizado em 04/03/2026 • 09:01

Bastidores de Brasília

A Polícia Federal (PF) identificou emissão de ordens de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para que fossem praticados atos de intimidação de pessoas, como concorrentes, empresariais, ex-empregados e jornalistas.

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Daniel Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal, em nova fase da operação Compliance Zero, por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

Segundo a decisão do ministro do STF, que embasou a prisão de Vorcaro, os alvos dos atos de intimidação seriam vistos como “prejudiciais aos interesses da organização, e com vistas à obstrução da justiça”.

"Quanto a esse último aspecto, foram identificados registros indicando que Daniel Bueno Vorcaro teve acesso prévio a informações relacionadas à realização de diligências investigativas, tendo realizado anotações e comunicações relativas a autoridades e procedimentos associados às investigações em andamento”, diz o documento.

Entenda o núcleo

Segundo a Polícia Federal, havia um núcleo denominado “A Turma” de intimidação e obstrução de justiça, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e também de autoridades.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado nas mensagens como 'Felipe Mourão” e apelidado de “Sicário”, mantinha relação direta de prestação de serviços com Vorcaro, “atuando como responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”.

Conforme a investigação, Luiz Phillipi exercia papel central na coordenação do grupo “A Turma”, estrutura utilizada para realizar atividades de vigilância, coleta de informações e monitoramento de indivíduos considerados adversários do grupo.

Nesse contexto, ele organizava e executava diligências destinadas à identificação, localização e acompanhamento de pessoas que mantinham relação com investigações ou com críticas às atividades do grupo econômico ligado ao Banco Master.

Conforme o documento, as investigações apontam que Luiz Phillipi realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo bases de dados utilizadas por instituições de segurança pública e investigação policial.

Os acessos teriam ocorrido mediante utilização de credenciais funcionais pertencentes a terceiros, permitindo a obtenção de informações protegidas por sigilo institucional.

“A partir dessa metodologia, de acordo com a autoridade policial, o investigado teria obtido acesso indevido aos sistemas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal, e até mesmo de organismos internacionais, tais como FBI e Interpol”.

Também foi identificado que o investigado participava de tratativas destinadas à obtenção de dados pessoais e institucionais de autoridades, jornalistas e outros indivíduos considerados de interesse da organização, repassando tais informações a integrantes do grupo responsável pela tomada de decisões estratégicas.

"Quebrar todos os dentes num assalto"

Há indícios de que Luiz Phillipi recebia R$ 1 milhão por mês de Daniel Vorcaro por intermédio de Fabiano Zettel, como forma de remuneração por serviços ilícitos. Nas mensagens trocadas entre Luiz Phillipi e Vorcaro, o primeiro explica os detalhes dos pagamentos feitos em nome do dono do Banco Master.

Em mensagens entre Mourão e Vorcaro, foi identificado o animus de agressão a determinado jornalista, diante da informação de que referido profissional havia divulgado na imprensa notícia contrária aos interesses de Vorcaro. Veja o teor:

  • Mourão: Esse Lauro Jardim bate cartão todo domingo? hrs hein Lanço uma nova sua? Positiva
  • DV: Sim Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Para pegar tudo dele.
  • Mourão: Vou fazer isto.

Em outra troca de mensagens entre eles, o tema alusivo ao mesmo jornalista se repete:

  • DV: Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto

Entidades repudiam ameaças a jornalistas

O Globo

Mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no celular de Daniel Vorcaro revelam que o banqueiro participava de um grupo de WhatsApp no qual foi discutida uma estratégia para simular um assalto e atacar o jornalista Lauro Jardim. O GLOBO repudia veementemente as iniciativas criminosas planejadas contra o colunista.

Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo)

A Abraji repudia com veemência as informações tornadas públicas na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que apontam que o banqueiro Daniel Vorcaro tentou silenciar jornalistas com o uso da intimidação e da violência. É estarrecedora a revelação de que ele cogitou arquitetar um assalto violento, ou que simulasse cenário semelhante, contra o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, para intimidá-lo, “prejudicar violentamente” e “quebrar todos os dentes".

Outros jornalistas também foram ameaçados nas redes sociais por reportar sobre o esquema de corrupção, fraude, lavagem de dinheiro e danos ao sistema financeiro, correntistas e erário público comandado por Vorcaro, preso mais uma vez nesta quarta-feira, 4 de março.

As condutas descritas representam grave atentado à liberdade de imprensa, à integridade física de profissionais de comunicação e ao próprio Estado Democrático de Direito.

A Abraji ressalta que ameaças, intimidações ou tentativas de constranger jornalistas em razão de seu trabalho não podem ser toleradas em nenhuma hipótese. O exercício do jornalismo é protegido pela Constituição e constitui pilar essencial da democracia.

A associação espera que Vorcaro e os demais nomes envolvidos sejam punidos também pelo crime contra a imprensa e a democracia, que se faz com o direito de informar e de ser informado.

A entidade manifesta solidariedade a Lauro Jardim e outros colegas ameaçados, e reafirma que acompanhará com atenção o desenrolar das investigações, cobrando a rigorosa apuração dos fatos e a responsabilização de todos os envolvidos, na forma da lei.

Repórteres Sem Fronteiras

“As conversas reveladas hoje, no âmbito das investigações sobre o caso do Banco Master, evidenciam que o empresário Daniel Vorcaro planejou uma agressão contra o colunista do O Globo, Lauro Jardim, um dos jornalistas mais reconhecidos do país, por se sentir incomodado com a cobertura da imprensa. É uma clara tentativa de intimidar e calar o jornalismo.

Para a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o episódio é pedagógico sobre como comportamentos tipicamente mafiosos operam quando pessoas influentes e poderosas são confrontadas pelo jornalismo de interesse público. Felizmente, o caso veio à tona. Pedimos que a resposta da Justiça seja exemplar, com o esclarecimento completo do alcance desse planejamento, em que medida ele chegou a ser colocado em prática, e com a responsabilização de todos os envolvidos. Infelizmente, apesar das características que tornam este caso singular, ele não é um episódio isolado. Jornalistas no Brasil convivem regularmente com tentativas de intimidação e silenciamento por parte daqueles que querem manter atividades espúrias longe do escrutínio público.”

Associação Brasileira de Imprensa

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) vem a público manifestar seu mais profundo e veemente repúdio às estarrecedoras revelações trazidas pela Polícia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da "Operação Compliance Zero". Segundo as investigações, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, planejou um ataque físico covarde e criminoso contra o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo.

​Os detalhes contidos no relatório da PF são de uma barbárie incompatível com o Estado Democrático de Direito. A intenção de simular um assalto para agredir o jornalista, com ordens explícitas de "quebrar todos os dentes" do profissional, revela um método de gangsterismo que tenta silenciar a imprensa por meio do terror e da violência física.

​Este episódio não é apenas um ataque a um indivíduo, mas uma agressão brutal a toda a categoria dos jornalistas e ao direito da sociedade de ser informada. Quando o poder econômico se sente no direito de encomendar atentados contra quem exerce a função crítica de informar, a própria democracia está sob ameaça.

​A ABI manifesta também seu apoio à atuação rigorosa do Poder Judiciário, e da Polícia Federal, cujas investigações impediram que essa atrocidade fosse consumada. Reafirmamos que a liberdade de expressão e o livre exercício profissional são pilares inegociáveis.

​Não toleraremos que métodos de milícia ou de organizações criminosas sejam utilizados para intimidar a imprensa brasileira. A ABI acompanhará de perto os desdobramentos judiciais deste caso, exigindo que todos os responsáveis por este plano nefasto sejam punidos com o rigor máximo da lei.

​Ao colega Lauro Jardim, manifestamos nossa total solidariedade e apoio irrestrito. A caneta não será calada pelo medo.

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