
Dívidas
Marcello Casal Jr/Agência Brasil
O Brasil vive uma "tragédia social" silenciosa, marcada por um recorde de 81 milhões de pessoas com contas atrasadas, segundo dados da Serasa. A análise é do ex-ministro Aldo Rebelo, que, em entrevista ao Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes, alertou para as graves consequências econômicas e morais de um país paralisado pelo endividamento em massa. Segundo ele, o governo parece não perceber que "está rodando em torno de um vulcão".
Rebelo destacou que o fenômeno vai muito além dos números, afetando diretamente a capacidade produtiva e o bem-estar da população. "A primeira consequência econômica é que essas pessoas saem do mercado, o endividado reduz o seu nível de consumo", explicou. "A segunda é que ele perde o acesso ao crédito". Para o ex-ministro, essa situação prejudica toda a economia e se manifesta de forma ainda mais dramática no campo. Ele citou o elevado número de suicídios entre pequenos agricultores no Rio Grande do Sul, que, pressionados por dívidas impagáveis após perdas de safras, chegam a um nível de "desespero insuportável".
O problema, segundo Aldo Rebelo, é agravado por uma combinação de juros altos, salários baixos e a inflação crescente. Ele critica a lógica do sistema financeiro, onde os próprios bancos preferem investir em títulos do governo a emprestar para o cidadão comum, pois obtêm juros altos sem o risco de calote. "Por que é que o banco vai emprestar dinheiro a juros para o cidadão, se ele pode retirar o juro que não tem calote, que não tem inadimplência do próprio governo?", questionou.
O ex-ministro também abordou a distinção entre o "Brasil real e o Brasil oficial". Enquanto o Brasil real é o dos 81 milhões de endividados, o Brasil oficial se distrai com escândalos políticos e mantém privilégios, como salários de até R$ 78 mil no Judiciário, incompatíveis com a realidade da maioria.
Rebelo afirmou ainda que o país enfrenta uma profunda "crise de valores", onde o trabalho é desvalorizado em detrimento de atalhos e da dependência de programas sociais. Ele citou o caso do Amapá, onde 73% da população vive do Bolsa Família em um estado com enorme potencial econômico bloqueado. Para ele, essa dinâmica cria uma sociedade subvertida: "Quem não trabalha é quem manda em quem trabalha. Quem não produz é quem manda em quem produz. Quem não paga imposto é quem manda em quem paga", concluiu. Essa inversão, em sua visão, mina a crença no esforço e no sacrifício, fundamentais para o progresso de qualquer nação.
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