Saúde

Brasil muda padrão de atividade física e reduz 'atletas de fim de semana'

Série histórica com 643 mil adultos mostra avanço de rotinas frequentes e pior perfil metabólico em grupo específico

Da redação
DA REDAÇÃO

11/02/2026 • 13:16 • Atualizado em 11/02/2026 • 13:16

Pesquisa acompanha mudanças no comportamento de exercício entre 2009 e 2023

Pesquisa acompanha mudanças no comportamento de exercício entre 2009 e 2023

Freepik

O número de brasileiros que concentram exercícios em apenas um ou dois dias por semana --os chamados “atletas de fim de semana”-- diminuiu nos últimos anos, enquanto cresce a parcela da população que pratica atividades físicas com maior regularidade ao longo da semana.

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A mudança no padrão de comportamento, porém, não elimina sinais de alerta: quem mantém a rotina concentrada segue com indicadores mais desfavoráveis de saúde e hábitos de risco. Os dados são de um estudo de série temporal com 643.196 adultos brasileiros, publicado no periódico científico Journal of Physical Activity and Health.

A pesquisa, intitulada “Time Trends in Weekend Warriors and Other Leisure-Time Physical Activity Patterns in Brazilian Adults, 2009–2023”, foi conduzida por Maurício dos Santos e colaboradores, com participação de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de instituições acadêmicas do Chile.

O trabalho analisou informações do sistema Vigitel, inquérito telefônico anual do Ministério da Saúde que monitora fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais brasileiras. Entre 2009 e 2023, a proporção de adultos que atingem as recomendações mínimas semanais de exercício --ao menos 150 minutos de atividade moderada ou 75 minutos de atividade intensa-- subiu de 30,3% para 40,6%.

No mesmo período, a participação dos chamados “atletas de fim de semana” caiu de 5,9% para 3,1%, sobretudo entre homens. Em contrapartida, aumentaram tanto os níveis intermediários de prática (de 11,3% para 17,4%) quanto os de alta frequência semanal (de 13% para 20,1%).

"Atletas de fim de semana" acumulam mais fatores de risco

Apesar de cumprirem o volume mínimo recomendado de exercícios, pessoas que concentram a prática em poucas sessões mantiveram indicadores menos favoráveis ao longo dos anos analisados.

Entre esse grupo, os pesquisadores observaram:

  • prevalência mais alta de tabagismo e consumo excessivo de álcool;
  • dobro da taxa de obesidade no período analisado;
  • aumento da ocorrência de hipertensão;
  • estabilidade nos níveis de diabetes.

Os autores destacam que, embora a literatura indique benefícios do exercício mesmo quando concentrado em poucos dias, o padrão comportamental desse grupo tende a coexistir com outros fatores associados a maior risco cardiometabólico.

Tendência acompanha diferenças sociais e demográficas

O avanço geral da prática de exercícios foi mais evidente entre homens, adultos mais jovens e pessoas com maior escolaridade, ao menos 12 anos de estudo.

Segundo os pesquisadores, acompanhar não apenas o volume total de atividade, mas também a forma como ela se distribui ao longo da semana, ajuda a compreender melhor os impactos na saúde e a orientar políticas públicas de promoção de hábitos mais consistentes.

Avanço da atividade no lazer reforça tendência nacional

A mudança identificada na série histórica também dialoga com análises institucionais recentes da Universidade Federal de São Paulo. Em divulgação científica publicada no portal da universidade, pesquisadores destacam que a prática de atividade física no tempo livre vem crescendo no país, indicando transformação gradual no comportamento da população em relação ao exercício.

Segundo essa avaliação, a ampliação do acesso a informações sobre saúde, a expansão de políticas públicas de promoção da atividade física e mudanças culturais associadas ao bem-estar contribuem para o aumento da prática regular, especialmente fora do ambiente de trabalho ou do deslocamento diário.

O resultado é um cenário em que mais brasileiros incorporam o exercício como hábito contínuo, ainda que persistam desigualdades sociais e diferenças regionais no acesso e na frequência da prática.

Para o pesquisador Leandro Rezende, orientador do estudo, os dados reforçam que não basta atingir o volume mínimo semanal se a prática não for distribuída de forma mais regular.

“Os resultados indicam que concentrar toda a atividade física em poucos dias pode não ser suficiente para compensar outros comportamentos de risco. A regularidade ao longo da semana parece ter um papel importante não apenas na prática em si, mas na adoção de um conjunto mais amplo de hábitos saudáveis”, explica o docente.

Implicações para políticas de saúde

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou entre 75 e 150 minutos em intensidade vigorosa. Embora mais brasileiros estejam atingindo esses níveis, o estudo indica que a regularidade da prática e o contexto comportamental continuam relevantes para a prevenção de doenças crônicas.

Para os autores, monitorar padrões de exercício em países de renda média, como o Brasil, é essencial para direcionar estratégias de prevenção mais eficazes, especialmente entre grupos que, apesar de ativos, mantêm outros fatores de risco elevados.

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