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O câncer de colo do útero, um dos poucos tipos de câncer que podem ser prevenidos por vacina, ainda provoca a morte de cerca de 20 mulheres por dia no Brasil. A estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta para mais de 19 mil novos casos anuais no triênio de 2026 a 2028 — um aumento de 14% em relação ao período anterior, entre 2022 e 2025.
Atualmente, a doença é o terceiro câncer mais comum entre mulheres brasileiras, o mais letal até os 35 anos e o segundo que mais mata na faixa etária até 60 anos. Apesar de contar com vacina disponível gratuitamente no sistema público de saúde, os índices de cobertura ainda estão abaixo do ideal.
Quase todos os casos — cerca de 99% — estão relacionados à infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), vírus sexualmente transmissível que pode permanecer assintomático por anos.
“É um vírus transmitido pelo atrito das partes genitais, podendo ocorrer também contato orogenital ou anogenital. Existem tipos oncogênicos que alteram o controle celular, geram lesões pré-malignas e, se não tratadas, podem evoluir para o câncer”, explica a ginecologista Suzana Aidé, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Vacinação é estratégia central
A vacina contra o HPV integra o Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2014. No Sistema Único de Saúde (SUS), a versão quadrivalente está disponível para:
- meninas e meninos de 9 a 14 anos (com estratégia temporária de ampliação até 19 anos);
- pessoas vivendo com HIV/Aids até 45 anos;
- transplantados de órgãos sólidos e medula óssea até 45 anos;
- usuários de PrEP de 15 a 45 anos;
- vítimas de violência sexual de 15 a 45 anos;
- pacientes oncológicos até 45 anos.
Na rede privada, há ainda a vacina nonavalente para homens e mulheres entre 9 e 45 anos.
Estima-se que oito em cada dez pessoas sexualmente ativas terão contato com o HPV ao longo da vida. Como o vírus é transmitido pelo contato direto entre pele e mucosas — inclusive em áreas não cobertas pelo preservativo — a camisinha reduz, mas não elimina totalmente o risco de infecção. Por isso, especialistas reforçam que a vacinação é a forma mais eficaz de prevenção, associada à realização periódica do exame Papanicolau e, quando indicado, ao teste de DNA do HPV.
Risco não se limita aos jovens
Embora a vacinação priorize adolescentes, estudos internacionais mostram que a infecção pelo HPV não é restrita à juventude. Uma meta-análise com mais de um milhão de mulheres identificou dois picos de prevalência: um entre até 25 anos, com taxa de 24%, e outro após os 45 anos, quando a prevalência chega a 10%.
Os dados reforçam que o rastreamento deve continuar ao longo da vida. O câncer de colo do útero pode levar décadas para se manifestar após a infecção inicial, o que amplia as chances de prevenção quando há acompanhamento regular.
Meta global de eliminação
Diante da forte associação entre HPV e câncer de colo do útero, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu metas para eliminar a doença como problema de saúde pública: vacinar 90% das meninas até os 15 anos, garantir que 70% das mulheres realizem exames de rastreamento aos 35 e 45 anos e assegurar que 90% das diagnosticadas recebam tratamento adequado.
No Brasil, além do desafio da cobertura vacinal, especialistas apontam a desinformação como obstáculo. Levantamentos indicam que parte significativa da população desconhece a relação direta entre o HPV e o câncer de colo do útero, o que dificulta a adesão à imunização e aos exames preventivos.
Em meio ao aumento projetado de casos até 2028, a ampliação do acesso à vacina e ao diagnóstico precoce é considerada fundamental para reduzir as mortes e evitar que um câncer prevenível continue fazendo vítimas diariamente no país.

