Resumo
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na The Lancet Healthy Longevity analisou dados de mais de 1 milhão de mulheres e concluiu que a terapia hormonal da menopausa não reduz nem aumenta, de forma consistente, o risco de demência ou comprometimento cognitivo leve em mulheres pós-menopáusicas.
O estudo avaliou diferentes tipos de terapia hormonal, idades de início, duração do uso e desfechos como demência e Alzheimer, não encontrando associação estatisticamente significativa entre o tratamento e proteção ou risco cognitivo, sendo as decisões clínicas recomendadas apenas para alívio dos sintomas da menopausa.
Os autores destacam a falta de evidências sólidas para mulheres com menopausa precoce, reconhecem limitações metodológicas nos estudos existentes e reforçam que a terapia hormonal deve ser indicada individualmente para sintomas e qualidade de vida, e não como prevenção de doenças neurodegenerativas.
Um dos debates mais persistentes sobre a saúde da mulher acaba de ganhar uma resposta mais robusta da ciência. Uma ampla revisão sistemática com meta-análise, publicada na revista The Lancet Healthy Longevity, concluiu que a terapia hormonal da menopausa (MHT, na sigla em inglês) não reduz nem aumenta, de forma consistente, o risco de demência ou comprometimento cognitivo leve em mulheres pós-menopáusicas.
O estudo reuniu dados de mais de 1 milhão de mulheres acompanhadas em diferentes países e analisou evidências produzidas ao longo de 25 anos. O resultado reforça recomendações clínicas atuais: a terapia hormonal deve ser indicada para aliviar sintomas da menopausa — como ondas de calor, distúrbios do sono e alterações de humor — e não como estratégia de prevenção de doenças neurodegenerativas.
O que a pesquisa analisou
Os pesquisadores avaliaram dez estudos considerados elegíveis, incluindo um ensaio clínico randomizado e nove estudos observacionais prospectivos, com acompanhamento de até 20 anos. Foram comparadas mulheres que utilizaram terapia hormonal — tanto estrogênio isolado quanto terapia combinada (estrogênio e progesterona) — com aquelas que nunca fizeram uso do tratamento.
A análise investigou diferentes cenários: tipo de terapia, idade de início, duração do uso e desfechos como demência em geral, doença de Alzheimer e comprometimento cognitivo leve. Em nenhum desses recortes foi identificada associação estatisticamente significativa que indicasse proteção cognitiva ou aumento claro do risco.
Sem efeito protetor — nem vilão
De forma objetiva, a revisão conclui que não há evidência de que a terapia hormonal previna demência, independentemente do momento em que seja iniciada — seja na transição da menopausa ou após os 60 anos. Também não foi possível afirmar que o tratamento cause aumento relevante do risco, embora alguns estudos antigos tenham sugerido essa possibilidade em mulheres que iniciaram a terapia tardiamente.
Segundo os autores, mesmo nos poucos casos em que surgem sinais de aumento ou redução do risco, os efeitos absolutos são pequenos e a qualidade das evidências varia de moderada a muito baixa, principalmente devido a vieses nos estudos observacionais.
Impacto para mulheres com menopausa precoce
Um dos pontos mais relevantes do trabalho é a constatação de que faltam dados sólidos sobre mulheres com menopausa precoce ou insuficiência ovariana prematura — grupos frequentemente citados em diretrizes clínicas como potenciais beneficiários da terapia hormonal para proteção neurológica.
A revisão não encontrou estudos de qualidade que comprovem esse benefício, contrariando algumas recomendações anteriores. Os autores destacam a necessidade urgente de pesquisas específicas para essas populações.
O que muda na prática clínica
A principal mensagem é de cautela e alinhamento com diretrizes atuais. A terapia hormonal continua sendo considerada eficaz e segura, quando bem indicada, para controle dos sintomas da menopausa e melhora da qualidade de vida. No entanto, não deve ser prescrita com o objetivo de prevenir demência ou declínio cognitivo.
O estudo também reforça a importância de decisões individualizadas, levando em conta riscos conhecidos — como câncer de mama e eventos cardiovasculares — e benefícios não cognitivos.
Lacunas ainda abertas
Apesar do tamanho da amostra, os próprios autores reconhecem limitações importantes. A maioria dos dados vem de estudos observacionais, sujeitos a vieses e confusão de fatores. Além disso, há escassez de pesquisas de longo prazo iniciadas em mulheres mais jovens, com avaliação detalhada de dose, via de administração e duração da terapia.
Outro ponto crítico é a ausência total de estudos sobre o uso de testosterona na menopausa e seus possíveis efeitos cognitivos.
A revisão mais abrangente já feita sobre o tema deixa claro: a terapia hormonal da menopausa não deve ser vista como ferramenta de prevenção da demência. A ciência, por ora, não sustenta nem o medo generalizado nem a promessa de proteção cerebral associada ao tratamento.
Para especialistas e pacientes, o recado é direto: o uso da terapia hormonal deve ser guiado por sintomas, qualidade de vida e avaliação individual de riscos — e não por expectativas de proteção cognitiva futura.

