
Mulheres adultas também podem se beneficiar da vacina contra o HPV
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Abordar a vacinação contra o HPV logo no primeiro mês do ano é uma estratégia fundamental de saúde pública. Esse é o período em que famílias reorganizam rotinas, escolas retomam atividades e campanhas de prevenção conseguem alcançar com mais eficácia pais, responsáveis, meninos e meninas na faixa etária indicada.
Antecipar essa conversa amplia as chances de adesão à vacina no momento mais adequado da vida, antes do início da atividade sexual, quando o benefício é maior, e contribui de forma direta para a redução futura de cânceres evitáveis. Ainda assim, adultos não vacinados também podem se beneficiar, já que podem não ter tido contato com todos os tipos de HPV incluídos nas vacinas disponíveis.
Os limites de idade para a vacinação variam de acordo com o contexto e a indicação. Na rede privada, a vacina nonavalente tem indicação em bula até os 45 anos. Já no Sistema Único de Saúde, a vacinação de rotina é indicada para meninas e meninos de 9 a 14 anos e, desde 2024, passou a ser realizada em dose única. Pelo menos até o primeiro semestre de 2026, a imunização foi ampliada até os 19 anos para resgatar adolescentes que não se vacinaram anteriormente. O SUS também contempla situações especiais, como pessoas vivendo com HIV, transplantados e pacientes oncológicos, na faixa etária de 9 a 45 anos.
A adoção do esquema de dose única no Brasil foi baseada em evidências científicas recentes que demonstram que uma única aplicação da vacina contra o HPV é capaz de oferecer proteção eficaz e duradoura. Estudos internacionais, incluindo pesquisas conduzidas pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), indicam que uma dose apresenta eficácia semelhante à de esquemas com duas ou três doses na prevenção da infecção persistente pelos principais tipos de HPV associados ao câncer do colo do útero. Esses achados reforçam as recomendações da Organização Mundial da Saúde e têm potencial para ampliar a cobertura vacinal, especialmente em países com desafios logísticos e de adesão.
Mesmo pessoas que já tiveram contato com o HPV podem se beneficiar da vacinação. A vacina não trata infecções existentes nem elimina o vírus em quem já está infectado, mas pode proteger contra outros tipos de HPV aos quais o indivíduo ainda não foi exposto.
Isso é especialmente relevante porque a exposição prévia geralmente não envolve todos os tipos contemplados nas vacinas. Na prática clínica, essa decisão deve ser compartilhada, levando em conta idade, histórico sexual, risco de novas exposições e a preferência do paciente, sempre com o esclarecimento de que o objetivo da vacina é prevenir novas infecções, e não tratar doenças já instaladas.
Há também diferenças importantes entre as vacinas disponíveis, principalmente em relação ao número de tipos de HPV cobertos. No SUS, é utilizada predominantemente a vacina quadrivalente, que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18. Os tipos 6 e 11 estão associados às verrugas genitais, enquanto os tipos 16 e 18 respondem por cerca de 70% dos casos de câncer do colo do útero.
Na rede privada, está disponível a vacina nonavalente, que inclui esses quatro tipos e acrescenta mais cinco, ampliando a proteção contra tipos oncogênicos e podendo alcançar até 90% dos casos desse câncer. Do ponto de vista individual, a vacina nonavalente oferece cobertura mais ampla; do ponto de vista de saúde pública, o mais importante é garantir que meninas e meninos sejam vacinados, especialmente na faixa etária de 9 a 14 anos.
Os benefícios da vacinação contra o HPV vão além da prevenção do câncer do colo do útero. A imunização reduz a infecção persistente por tipos de alto risco, diminui a ocorrência de lesões pré-cancerosas, reduz verrugas genitais e também protege contra outros cânceres associados ao HPV, como os de orofaringe, vulva, vagina, canal anal e pênis.
É fundamental reforçar que a vacina não substitui o rastreamento. Exames como o Papanicolau e o teste DNA-HPV continuam sendo indispensáveis, já que a vacina não cobre todos os tipos oncogênicos e muitas pessoas adultas já tiveram algum grau de exposição ao vírus antes da vacinação.
Os dados mostram a dimensão do desafio no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, são estimados cerca de 17 mil novos casos de câncer do colo do útero por ano. A carga da doença é proporcionalmente maior nas regiões Norte e Nordeste.
Desde a introdução da vacina em 2014, era esperado que os primeiros efeitos aparecessem inicialmente na redução de infecções e de lesões precursoras e, apenas com o passar dos anos, na queda do câncer invasivo, devido ao longo intervalo entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento da doença.
Estudos nacionais já apontam sinais positivos em mulheres mais jovens, compatíveis com o impacto da vacinação. Ainda assim, o país enfrenta desafios importantes relacionados à cobertura vacinal e ao acesso ao rastreamento. Para mudar esse cenário de forma sustentada, é indispensável combinar as duas estratégias: ampliar a vacinação contra o HPV e fortalecer o rastreamento do câncer do colo do útero.
Débora Dornellas é oncologista no Einstein Hospital Israelita e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer

