Saúde

Mounjaro para crianças: liberação da Anvisa alerta sobre uso desenfreado

Especialistas alertam para riscos, uso indevido e falta de dados de longo prazo após liberação para crianças com diabetes tipo 2

GABRIELLE PEDRO

23/04/2026 • 15:57 • Atualizado em 23/04/2026 • 15:57

Resumo

A ampliação do uso do Mounjaro pela Anvisa para crianças e adolescentes com diabetes tipo 2 ocorre diante do aumento precoce da doença, impulsionado pelo crescimento da obesidade infantil e do sedentarismo, com mais de 200 mil adolescentes brasileiros diagnosticados e cerca de 1,4 milhão em pré-diabetes.

A tirzepatida, princípio ativo do medicamento, atua no controle glicêmico e redução de peso ao estimular a produção de insulina, reduzir o glucagon e retardar o esvaziamento gástrico, sendo considerada uma ferramenta relevante para casos complexos, mas sempre como complemento às mudanças no estilo de vida e com acompanhamento rigoroso.

O uso em jovens exige avaliação criteriosa e monitoramento constante, pois há riscos de efeitos colaterais gastrointestinais, hipoglicemia, complicações renais e nutricionais, além de preocupações sobre uso inadequado para emagrecimento sem indicação clínica; especialistas reforçam a importância de abordagem ampla e responsabilidade no tratamento.

A decisão da Anvisa de ampliar o uso do Mounjaro para crianças e adolescentes a partir de 10 anos com diabetes tipo 2 ocorre em um momento de mudança no perfil da doença: cada vez mais precoce e associada ao avanço da obesidade infantil.

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Embora historicamente mais comum após os 40 anos, o diabetes tipo 2 tem crescido entre jovens no Brasil e no mundo. Estudos apontam aumento expressivo da incidência nas últimas décadas, impulsionado principalmente pelo sedentarismo e pelo excesso de peso.

Dados globais indicam que a taxa da doença entre pessoas de 15 a 39 anos cresceu 56% entre 1990 e 2019. No Brasil, estimativas sugerem que mais de 200 mil adolescentes convivam com o diagnóstico, enquanto cerca de 1,4 milhão apresentem pré-diabetes.

Esse cenário ajuda a explicar a ampliação do arsenal terapêutico. Ainda assim, especialistas alertam que o uso da chamada “caneta” deve ser cercado de critérios rigorosos, sobretudo na população pediátrica.

Doença mais precoce e mais agressiva

O avanço entre jovens não é apenas numérico — ele também muda o comportamento da doença. Segundo o endocrinologista Fernando Valente, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), o diabetes tipo 2 diagnosticado precocemente tende a ser mais agressivo e com maior impacto ao longo da vida.

Sem tratamento adequado, pode levar a complicações graves como problemas renais, perda de visão, amputações, infarto e AVC. Em adolescentes, esse risco aparece mais cedo: cerca de 10 anos após o diagnóstico, metade dos pacientes já apresenta alguma complicação crônica.

“O diabetes tipo 2 é uma doença séria, que não pode ser subestimada. Quanto mais cedo aparece, maior o impacto na expectativa de vida”, afirma.

Nesse contexto, novas opções terapêuticas passam a ser vistas como ferramentas importantes para conter a progressão da doença.

Como o medicamento atua

A tirzepatida pertence a uma classe mais recente de medicamentos que atua em múltiplos mecanismos do organismo. Ela melhora o controle da glicose ao estimular o pâncreas a liberar insulina de forma mais eficiente quando os níveis de açúcar no sangue estão elevados e, ao mesmo tempo, reduz a liberação de glucagon — hormônio que contribui para o aumento da glicemia.

Outro efeito importante é o retardo do esvaziamento gástrico, o que prolonga a sensação de saciedade e leva à redução da ingestão alimentar. Esse mecanismo ajuda não apenas no controle glicêmico, mas também no manejo do peso corporal.

Como explica o médico Levimar Araújo, do departamento de diabetes Tipo 1 em crianças e adolescentes da SBD, essas medicações também atuam no controle da glicose após as refeições, reduzindo picos glicêmicos e facilitando a ação da insulina — um ponto central no tratamento de pacientes com resistência insulínica.

Esse conjunto de ações faz com que o medicamento atue de forma integrada sobre dois dos principais pilares do diabetes tipo 2: a resistência à insulina e o excesso de peso. Como entre 80% e 90% dos pacientes com a doença apresentam sobrepeso ou obesidade, a perda de peso tende a melhorar significativamente a resposta do organismo à insulina.

Além disso, especialistas apontam que o uso da medicação pode contribuir para a redução do risco de complicações associadas ao diabetes, como doenças cardiovasculares e renais, especialmente quando integrado a um plano de tratamento mais amplo.

Por isso, o medicamento é considerado uma ferramenta relevante no controle da doença — sobretudo em casos mais complexos —, mas sempre como complemento às mudanças no estilo de vida, e não como substituto.

Riscos e efeitos colaterais

Apesar dos benefícios, o uso em crianças e adolescentes exige cautela. O nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, destaca que os efeitos colaterais mais comuns são gastrointestinais.

“São frequentes náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e constipação. Em crianças, há maior incidência de vômitos, dor abdominal e episódios de hipoglicemia em relação aos adultos”, afirma.

Há também riscos menos comuns, mas potencialmente graves, como pancreatite aguda, desidratação com lesão renal, problemas na vesícula biliar e reações alérgicas.

Levimar Araújo acrescenta que o controle da dose é fundamental, especialmente em crianças. Doses inadequadas podem reduzir excessivamente o apetite, levando à ingestão insuficiente de nutrientes — o que pode impactar o metabolismo e até o desenvolvimento.

Outro ponto de atenção é a formação de cálculos biliares em casos de perda de peso muito rápida, além da necessidade de acompanhamento oftalmológico em pacientes com retinopatia.

Crescimento e desenvolvimento ainda em observação

Ainda não há evidências de que o medicamento afete crescimento, puberdade ou desenvolvimento hormonal. No entanto, os dados disponíveis são limitados no longo prazo.

Os estudos que embasaram a aprovação acompanharam pacientes por cerca de um ano — período considerado insuficiente para avaliar efeitos tardios em fases críticas do desenvolvimento.

Por isso, especialistas recomendam monitoramento contínuo da curva de crescimento, do estado nutricional e do desenvolvimento puberal.

Avaliação antes do uso

A indicação do medicamento deve ser criteriosa. Ele é recomendado apenas para crianças e adolescentes com diagnóstico confirmado de diabetes tipo 2, geralmente associado ao excesso de peso e à resistência à insulina.

Antes de iniciar o tratamento, é necessária uma avaliação completa, incluindo histórico familiar, exames laboratoriais e análise de possíveis comorbidades.

Também é essencial avaliar o contexto do paciente, como hábitos alimentares, nível de atividade física e apoio familiar — fatores que influenciam diretamente no sucesso do tratamento.

Uso indevido preocupa

A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” levanta preocupações adicionais. Especialistas alertam para o risco de uso inadequado do medicamento por jovens sem indicação clínica, motivados por pressão estética.

“O maior perigo é banalizar um tratamento sério”, afirma Ribas Filho.

Entre os riscos do uso indevido estão desidratação, perda de massa muscular, carências nutricionais e alterações no comportamento alimentar — além de impactos emocionais, especialmente em uma fase sensível como a adolescência.

Tratamento exige abordagem ampla

Apesar da eficácia, o medicamento não substitui mudanças no estilo de vida. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono adequado e acompanhamento multidisciplinar continuam sendo fundamentais.

“O remédio é uma ferramenta, mas não resolve sozinho. O tratamento precisa envolver a família e mudanças consistentes na rotina”, reforçam os especialistas.

A ampliação do uso do Mounjaro representa um avanço importante diante do crescimento do diabetes tipo 2 entre jovens. Para especialistas, a medida amplia as possibilidades de tratamento e pode ajudar a reduzir complicações futuras.

Ao mesmo tempo, o consenso é que o uso deve ser feito com responsabilidade, dentro das indicações médicas e com acompanhamento contínuo.

Em um cenário de aumento da obesidade infantil e pressão por soluções rápidas, o desafio será equilibrar acesso à inovação com o uso seguro — evitando que uma ferramenta importante se transforme em risco à saúde.

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