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Juros altos e mudanças climáticas: entenda como o agro se endividou

Agricultores brasileiros sofrem com juros altos, quebra de safra e desvalorização das commodities; com Rio Grande do Sul em alerta crítico de insolvência

VIVIANE TAGUCHI

15/07/2026 • 20:55 • Atualizado em 15/07/2026 • 20:55

O Congresso Nacional chegou a um acordo, nesta quarta-feira (15), para a renegociação das dívidas dos produtores rurais brasileiros. As medidas envolvem cerca de R$ 100 bilhões e oferece condições especiais para os agricultores pagarem as dívidas, acumuladas ao longo dos últimos anos. Mas, se o agronegócio é um dos setores mais fortes da economia nacional, por quê o setor chegou a um nível tão alto de endividamento?

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O endividamento no agro atingiu um patamar alarmante neste ano, impulsionado por uma convergência de fatores econômicos e climáticos. A combinação de taxas de juros elevadas, a retração na oferta de crédito oficial e a queda na rentabilidade das lavouras — pressionada pela desvalorização das commodities agrícolas — sufocaram o fluxo de caixa do agricultor.

Para os produtores rurais do Rio Grande do Sul, o cenário é ainda pior, já que nas últimas quatro safras, o clima devastou a produção agrícola com uma sequência de enchentes e secas.

O cenário de "crise de crédito" no campo

A raiz do problema reside na dificuldade de acesso ao financiamento sustentável. Segundo dados da Serasa Experian, o crédito rural oficial encolheu R$ 36,8 bilhões em 2025. Sem o suporte estatal, muitos produtores foram forçados a recorrer a linhas de crédito privadas, com juros que frequentemente ultrapassam os 16% ao ano, tornando o serviço das dívidas antigas, contraídas para investimentos em maquinário e infraestrutura, insustentável diante da atual margem de lucro.

A inadimplência rural nacional atingiu o recorde de 8,8% no primeiro trimestre de 2026. Esse indicador reflete uma mudança de comportamento no campo: muitos agricultores estão optando por reduzir drasticamente os investimentos em tecnologia e fertilizantes, ou até mesmo colocando maquinários à venda, para tentar quitar passivos imediatos e evitar a execução de garantias.

Clima no Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul tornou-se o epicentro da crise, agravado por uma sequência de eventos climáticos extremos, como estiagens prolongadas e enchentes, que devastaram a capacidade produtiva local. A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) emitiu alertas recentes de que a dívida rural gaúcha pode dobrar caso não ocorram intervenções federais imediatas.

O consenso entre especialistas e representantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) é de que a situação ultrapassou o nível de dificuldades sazonais. O setor enfrenta uma "crise de crédito" onde investimentos feitos há dois ou três anos, que agora iniciam o período de amortização sem a carência necessária, estão consumindo a liquidez das propriedades. Além disso, a inflação de insumos, pressionada sistemicamente por tensões geopolíticas globais, mantém os custos de produção em níveis elevados, enquanto o preço das commodities segue em trajetória de baixa, comprimindo a margem de lucro do produtor e limitando qualquer capacidade de reação financeira imediata.