
Percevejos atacam planta de soja e causam prejuízos
João Deluca/Fapesp
Pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma solução tecnológica para combater o percevejo-marrom (Euschistus heros), uma das principais pragas que atingem as lavouras de soja no Brasil. A inovação utiliza o mecanismo de RNA de interferência (RNAi) para promover o silenciamento gênico do inseto, atacando a praga de forma específica e sustentável, sem necessidade de modificação genética nas plantas.
A soja lidera a pauta de exportações do agronegócio brasileiro, mercado em que o País ocupa a posição de maior produtor e exportador mundial em grão. No entanto, a incidência de percevejos causa prejuízos bilionários todos os anos aos produtores rurais. "Levando em consideração que o Brasil é um país tropical e muito quente, existem muitas pragas que podem afetar o cultivo de soja, mas o percevejo é o mais danoso a essa cultura", explica o professor Henrique Marques de Souza, coordenador da pesquisa no Instituto de Biologia da Unicamp.
Como funciona a tecnologia por RNAi
A invenção baseia-se em um mecanismo natural de defesa celular. No processo biológico padrão das células, o DNA gera RNA, que por sua vez gera proteínas. Quando um vírus ataca um organismo, ele insere RNA de fita dupla. As células vegetais e animais desenvolveram uma defesa natural que reconhece essa estrutura e destrói qualquer sequência genética semelhante para impedir a infecção.
Os cientistas da Unicamp mapearam os genes vitais do percevejo e sintetizaram, em laboratório, uma molécula de RNA de fita dupla correspondente a essas sequências essenciais. Ao ingerir a molécula, o próprio organismo do percevejo interpreta o material como uma ameaça e elimina o gene-alvo. Sem a proteína essencial, o inseto morre ou perde a capacidade de se alimentar e de se reproduzir.
"Estudamos a biologia de uma praga, no caso o percevejo, e identificamos qual gene, se removido, o levará à morte, a parar de se alimentar, ou de procriar. Podemos desenhar a fita dupla de acordo com o que é identificado como vital para o inseto", detalha Souza.
Precisão e sustentabilidade no campo
O diferencial da aplicação de RNAi em relação aos defensivos químicos convencionais é a alta especificidade. Enquanto os inseticidas tradicionais atingem diversos organismos indistintamente, a molécula desenvolvida pela Unicamp é desenhada para afetar exclusivamente a espécie Euschistus heros. Dessa forma, insetos benéficos para a lavoura, como polinizadores e predadores naturais da praga, são preservados. Por se tratar de uma molécula biológica, a solução também é biodegradável.
Os pesquisadores ressaltam que a tecnologia não atua por efeito de choque imediato, pois depende do tempo biológico do silenciamento gênico até a neutralização do inseto. A recomendação técnica é a integração da ferramenta ao manejo integrado de pragas (MIP), associada a outras práticas de controle agronômico.
A pesquisa durou quatro anos e envolveu uma equipe de 15 profissionais entre alunos de pós-graduação, iniciação científica e pós-doutorandos. A tecnologia foi desenvolvida por meio de um acordo de pesquisa e desenvolvimento (PD&I) com a empresa TMG Tropical Melhoramento e Genética S.A., cotitular da patente e licenciada da inovação. Todo o processo de proteção intelectual e submissão da patente contou com o suporte da Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp) e a interveniência da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp).
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