
Márcia conta sua história no Quem Ama Não Esquece
Band FM
A vida de Márcia foi dividida em duas fases: a primeira, marcada pela fuga da violência paterna, e a segunda, um verdadeiro inferno de sequestro, abandono e abusos. Longe da mãe e entregue à própria sorte, ela enfrentou fome, medo e a dor de ser tratada como um objeto, mas encontrou dentro de si uma força inimaginável para perdoar e recomeçar, mesmo quando os homens que amou a traíram da pior forma. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta segunda-feira (25).

Márcia e a filha (Foto: Band FM)
Às vezes a vida derruba a gente de todas as formas possíveis, mas a força para seguir sempre existe dentro de nós. Porque sofrer pode ser inevitável, mas continuar é uma escolha... e mesmo nos momentos mais difíceis, sempre tem uma saída para continuar.
A minha vida eu divido em duas fases. Na primeira, eu tinha só sete anos e cresci vendo meu pai bater na minha mãe. A gente morava no Paraguai e, um dia, ele chegou bêbado, bateu nela de novo e foi deitar daquele jeito, todo sujo. Foi aí que minha mãe tomou coragem, juntou eu e meus irmãos, pegou um ônibus e voltou pro Brasil.
Os meus avós tinham uma casinha simples, e a gente ficou lá por um tempo. Ali tudo foi melhorando. A gente podia ser criança de verdade, brincar na rua, estudar e parecia que a vida ia entrar nos eixos... Mas isso não durou muito.
O início do inferno
Um dia, eu tava na escola esperando alguém me buscar e, do nada, aparece meu pai. Eu estranhei, mas achei que ele e minha mãe tinham feito as pazes. Ele pegou eu e minha irmã com todas as nossas coisas e, quando eu percebi... quando eu percebi nós já estávamos indo de volta para o Paraguai. Só depois, já adulta, eu descobri que naquele dia, ele se juntou com uma tia que não gostava muito da gente, para pegar nossas coisas e levar a gente embora sem a minha mãe saber. E foi então que começou a segunda parte da minha vida... O verdadeiro inferno.
Chegando no Paraguai, ele entregou a minha irmã para uma família qualquer e eu fiquei com ele. Eu era só uma criança, mas já sabia o que era sentir fome, medo e abandono.
Ele bebia o tempo todo e não cuidava de mim. Ele me obrigava a vender coisas na rua e dizia que se eu não vendesse, eu não ia comer. Muitas vezes eu ia dormir com o estômago vazio e me perguntando onde estava a minha mãe e se um dia, ela ia me buscar. Ela sabia quem tinha me levado embora. Ela sabia para onde. Então... então por que ela não vinha logo atrás de mim?
Eu já estava no inferno, mas descobri que ainda podia piorar. O meu pai começou a me largar nas casas dos outros como se eu fosse um objeto qualquer. Eu passava dois dias em uma, uma semana em outra. Muitas vezes, ele nem conhecia direito aquelas pessoas e foi justamente em uma dessas casas que vivi o pior... eu... eu... bom, eu sofri o que eu não desejo a ninguém. Eu implorei para que o meu pai me levasse de volta, mas aos 11 anos de idade, ele preferiu me dar para outra família e eu me tornei escrava deles.
Lá eu realmente deixei de ser criança. Eu não podia estudar, não podia comer sem pedir, não podia fazer barulho. Eles até escondiam a comida de mim. Minha vida era limpar, trabalhar e obedecer. Depois de algum tempo, essa família se mudou para Santa Catarina, e eu, como parte do “pacote”, fui junto.
O perdão como porta de saída
Aos 15 anos, a dona da casa decidiu que eu já estava “na idade de casar” e me apresentou ao irmão dela. Eu tive que aceitar aquele noivado, mas, antes que o casamento, a vida deu outra volta... O meu pai, que tava muito doente por causa de uma trombose, voltou ao Brasil e me pediu ajuda. Eu aceitei... aceitei porque eu vi ali uma chance de sair daquela casa onde eu trabalhava e também, eu admito, de estar perto do meu pai outra vez porque apesar de tudo o que ele me fez passar, eu sempre carreguei no meu coração a certeza de que pai e mãe merecem nosso respeito.
Quando soube que eu pretendia cuidar do meu pai, a dona da casa onde eu vivia fez questão de me lembrar de tudo o que ele tinha feito comigo, disse que ele tinha me abandonado e ainda me mandou tirar a minha aliança porque meu noivo não queria mais nada comigo. Eu nem discuti. Eu entreguei o anel e fui embora sem olhar para trás.
A verdade é que uma parte de mim ainda tinha muita raiva do meu pai, mas outra parte entendia que, de alguma forma, tudo o que ele fez foi por uma tentativa desesperada de trazer minha mãe de volta. Eu não sabia as razões dele e acreditava realmente que não cabia a mim julgá-lo. O que me cabia era cuidar dele.
Meu pai sofreu muito antes de partir. Eu vi a vida dele se esfarelar pouco a pouco, passando pela amputação das pernas e lutando com todas as forças para se manter vivo. No fim, ele não resistiu... Ele nunca me pediu desculpas, mas, dentro de mim, eu já tinha encontrado um jeito de perdoá-lo.
E eu perdoei para poder seguir, para não carregar mágoas e feridas que ME impedissem de viver. Porque eu sempre acreditei que pai e mãe devem ser honrados até o fim.
Um reencontro sem respostas
Depois da morte dele, eu fiquei morando com a minha irmã, que eu tinha reencontrado. Aliás, reencontrá-la foi a melhor parte de tudo isso. Ao contrário de mim, ela sabia mais da nossa mãe. Ela me contou que tinha procurado por ela, deixado mensagem, contato com alguns conhecidos, mas nossa mãe nunca respondeu. Minha irmã ainda soube que, depois que nós fomos sequestradas, nossa mãe tinha casado com outro homem e tido outros filhos. Aquele tempo todo ela... ela nunca sequer tentou procurar a gente.
Quatro anos depois, quando eu já tinha 22 anos, alguém bateu na minha porta e quando eu abri, eu quase não acreditei no que eu tava vendo. Era ela. Era a minha mãe. Nossa! As minhas pernas tremeram, eu comecei a chorar muito e a única coisa que consegui dizer foi: “Por que você demorou tanto?”. Mas ela... ela só riu. Riu! Como assim? Ela riu... Anos e anos longe e ela só... só ri? Eu queria respostas. Eu queria saber porque ela nunca foi atrás da gente, porque nos deixou. Mas ela nunca respondeu... e a partir desse dia, sempre que eu ou minha irmã perguntávamos, ela desconversava, desviava o assunto, fugia.
Com o tempo, ficou impossível de ignorar que existia uma distância enorme entre nós que ia existir para sempre. Não tinha carinho, amor, e ela era seca e fria. Era como se a ausência dela continuasse presente, mesmo estando ali, em carne e osso.
Eu vivi por anos cheia de dores e mágoas, até que eu conheci alguém. A gente começou a conversar, se conhecer e acabou virando um romance. Ele percebeu que eu sofria sozinha e me chamou para morar com ele. Ainda era cedo demais, mas eu decidi ir, porque ele prometeu que ia cuidar de mim. E, por um tempo, ele cumpriu mesmo essa promessa. A gente ficou junto por muitos anos e ele não era um marido horrível, mas tinha coisas para as quais eu... eu precisava fazer vista grossa. Nós tivemos dois filhos lindos e também um filho adotivo, que era da sobrinha dele, que infelizmente morreu na cama de parto.
Mas, ao mesmo tempo que a gente construiu tudo isso, ele me traiu várias vezes e chegou uma hora que eu não aguentei mais. Quando ele começou a se envolver com uma menina de 19 anos, eu dei um ultimato e falei que ou era ela ou eu. Se ele tivesse falado "ela", talvez doesse menos, mas ele disse “Você decide”. Então, eu fui embora e levei meus três meninos comigo.
Eu fiquei sozinha por três anos até encontrar um viúvo que me tratava com princesa e que era muito carinhoso. Eu realmente acreditei que ele era o amor da minha vida. Nós tentamos por muito tempo ter um filho, mas quando eu engravidei, eu acabei perdendo. Essa perda machucou muito a gente, mas nós não desistimos.
O problema era que ele já tinha dois filhos de um relacionamento anterior, e eles viviam brigando com os meus. Cada um ficava do lado dos próprios filhos, e isso deixava o clima sempre tenso em casa. Um dia, aconteceu um mal-entendido com a família dele que até hoje não sei direito como começou. A discussão acabou virando uma briga generalizada, e até a mãe dele entrou. Foi tão feio que, no auge da raiva, eu peguei minha aliança e joguei na cara dele.
"Eu quero um teste de DNA"
Algumas semanas depois, eu ainda tava muito magoada, quando descobri que tava grávida! Mas quando eu fui contar para ele...
— Grávida?
— Grávida! Que ironia, né? Agora que a gente não tá mais junto...
— Olha, você fez más escolhas, Márcia. Eu... eu já tenho outra.
— O... o quê? Ah, entendi. Você acha que eu tô falando isso porque quero você de volta? Não. Eu não quero... Eu só quero que você assuma essa criança.
— Quanto a isso não se preocupe. Eu vou assumir.
Eu achei que tava resolvido porque ele me tratou muito bem e com respeito, mas na semana seguinte, do nada, ele mudou e começou a me tratar mal. Eu não faço ideia do que aconteceu, se foi alguma coisa que a outra colocou na cabeça dele… não sei. Eu só sei que ele se transformou. Eu tinha 44 anos, e uma gravidez nessa idade é de alto risco, ainda mais depois de já ter perdido um bebê.
Mas ele, mesmo sendo o pai, mesmo dizendo que ia ajudar, não ajudou em nada. A única que realmente esteve ao meu lado foi a mãe dele, que foi maravilhosa e me deu todo apoio possível. Até no dia do parto... a família dele estava lá, mas... mas ele não. Quando a minha filha nasceu, eu liguei para avisar.
— Alô? Fala, Márcia.
— Sua filha nasceu. Eu só tô ligando para você vir aqui registrar.
— Os meus advogados já estão cuidando disso.
— Advogados?
— Eu quero um teste de DNA.
— Nossa... Por essa, eu realmente não esperava.
— Vamos ver se é minha filha mesmo, né?
Passou um ano, e eu entrei na justiça pra exigir a pensão. O irmão dele até quis registrar a criança, mas eu não deixei. Eu não ia permitir que ele fugisse das responsabilidades dessa forma. Na hora de fazer o teste de DNA, ele já tava com a nova esposa e com outro filho. Ela tinha engravidado dele logo depois de mim e o filho deles tinha a mesma idade da minha filha. Foi a primeira e a última vez que ele viu nossa filha. O teste deu positivo, como esperado, e ele foi obrigado a pagar pensão. Mas nunca se interessou por ela, nunca quis vê-la… mesmo com a família dele tentando manter algum contato.
Eu mudei de cidade e fui atrás de viver em paz. A minha irmã me ajudou muito nesse recomeço. A minha filha estava crescendo e a ausência do pai pesava bastante. Ela sempre perguntava por que não tinha pai, onde ele estava, por que não queria saber dela... E pedia para eu dar um pai para ela. Um pai que a levasse na escola, que brincasse, que amasse... Nossa! Como isso me doía, porque eu sabia exatamente o que ela tava sentindo.
Mas, infelizmente, depois de tudo que vivi, eu não consigo mais me abrir pra novos relacionamentos. Eu não posso dar um pai para ela, então eu tento suprir essa falta dando o dobro de mim. O dobro de amor, o dobro de atenção, o dobro de carinho. No Dia dos Pais, a escola pediu uma foto do pai, e eu mandei uma minha, vestida de homem, só pra ela se divertir um pouco.
Hoje, eu cuido da minha mãe. As outras filhas dela moram fora do Brasil, meu irmão segue a vida dele, e minha irmã não quer saber mais nada dela porque diz que a nossa mãe nos substituiu pelo marido e pelas novas filhas. Eu respeito muito minha mãe, mas não consigo sentir amor por ela.
A gente até conversa, mas não ter respostas para minhas perguntas ainda me machuca demais. O que ainda me deixa revoltada é que ela não fez nada! Ela sabia que tinham levado a gente, sabia onde nós estávamos e não fez nada! Mas, mesmo assim, eu continuo acreditando que pai e mãe devem ser honrados, e é assim que vou honrar a minha mãe, como eu fiz com o meu pai... até o fim.
Hoje, olhando para trás, vejo tudo que passei e sinto uma mistura de dor e orgulho. Eu sofri mais do que jamais poderia imaginar, mas cada obstáculo me ensinou a me levantar, a lutar e a escolher a minha própria vida. A minha filha cresce cercada de amor e segurança, mesmo sem um pai presente, e eu aprendi que ser mãe não é só gerar uma vida, mas dar proteção, carinho e exemplo.
E eu aprendi que o perdão não é para quem nos fez mal, mas para nós mesmos. Eu não posso mudar o passado, nem consertar as falhas de quem me criou ou me abandonou, mas posso escolher o meu futuro. E é assim que sigo: de cabeça erguida, com o coração cheio de amor para quem merece e a certeza de que, por mais difícil que seja a vida, sempre existe força para seguir em frente.
Texto gerado artificialmente e revisado por Band.com.br.


