
Mulher em crise de ansiedade
Divulgação/Marcelo Camargo/Agência Brasil
por Igor Alexandre Capelatto, psicanalista (https://linktr.ee/igorcapelatto)
Já sentiu aquela sensação de frio na barriga, tremor do corpo, falta de ar quando está diante de uma situação difícil? Já congelou-se diante de uma circunstância que não sabia como resolver? Já se pegou batendo a perna sem parar, mordendo os lábios ou roendo a unha? Como é para você estar diante de uma ameaça? O nome dessa sensação paralisante, que nos faz recuar ou estagnar, e nos coloca em perigo é medo.
Medo é essa palavra que, em um mundo contemporâneo no qual o prazer é validado acima de tudo, se tornou ‘mal-dita’. Em algum momento da história, alguém propôs que ter medo era errado. Esse tabu do medo faz com que pensemos que medo é uma força contrária ao nosso movimento. Como se o medo fosse aquilo que não deixa a gente realizar o que precisamos. E esquecemos o fundamental do medo: que ele é um mecanismo de defesa. Mas afinal o que é o medo?
“O medo é um preconceito dos nervos” – Machado de Assis
O medo de fazer uma prova, por exemplo, é o medo de não passar, de ter que ficar de recuperação e estudar nas férias, mas já pensou, que é justamente o medo das consequências não agradáveis que faz com que você se esforce para ir bem na prova? O medo de apresentar um trabalho em uma reunião e receber uma crítica negativa de que não exerceu de modo adequado aquela função que gera um receio da perda do emprego, mas que serve como motivação justamente para elaborar maneiras de apresentar de modo a apresentar resultados positivos? São inúmeras as situações em que nos colocamos nessa sensação de que “não vai dar certo”, muitas vezes nos culpando pelo “fracasso” outras vezes não lidando com a frustração de um imprevisto ou de uma atitude indesejada de outra pessoa. Mas também existe um outro lugar do medo que é o temor do desconhecido. “Eu não sei o que vai acontecer”. É o lugar das previsibilidades – “eu vou para a praia, mas e se chover?”, “eu quero ter meu próprio consultório, mas e se não tiver clientes?”... é esse “e se” que gera essa sensação assustadora de que pode dar errado e não ter volta. De prejuízo. É esse “e se” que nos faz querer antecipar as coisas – mas numa aflição causada pela incerteza, que é o que chamamos de ansiedade.
Ansiedade, um dos sintomas mais atuantes da nossa contemporaneidade. Uma sociedade que desenvolveu-se pela urgência das coisas, as notícias iminentes, as redes sociais que precisam estar atualizadas a todo instante, as resoluções instantâneas, ou seja, uma sociedade que vive a cultura do imediatismo. Ansiedade é uma resultante do medo, nos intensifica as preocupações, as tensões, potencializa nossas fraquezas. Além desse imediatismo, qual outro fator nos alimenta a ansiedade? Pois, bem, a cobrança. Não falo da cobrança dos outros, da sociedade, da família, da escola, do trabalho, que também são potencializadores da ansiedade, mas das nossas cobranças internas. São cobranças que desenvolvemos em torno de aprendizados, absorções de normas, regras, ideias externas, da cultura, mas também de uma elaboração de autoestima. Por exemplo, o adolescente diante do vestibular: a escolha de uma faculdade, de uma profissão. Muitas vezes se cobra de uma escolha que traga sucesso, reconhecimento social, pensa no quanto vai ganhar (qual profissão dá mais dinheiro?), às vezes aquela que cobra menos (e que assim, sobra mais tempo para o prazer). O que não está sendo pensando, considerado é o lugar do desejo, fazer uma escolha que possa satisfazer a si mesmo.
Mas existe ansiedade boa? Sim, é aquela que alimenta o bem-estar de uma escolha. “Vai ser legal, não vejo a hora de chegar”. Mas por que quando temos essa ansiedade boa, a gente, traz sobre ela uma “ansiedade ruim”? Existe um mecanismo humano que é o de estar alerta aos perigos a todo instante, e que nos faz priorizar as coisas ruins.
Quando temos ansiedade, o que devemos fazer? Quais os mecanismos podem nos ajudar? Se for uma ‘ansiedade ruim”, é preciso entender porque ela está acontecendo, de onde ela vem? Buscar entender qual é a origem do medo diante de determinada situação. De onde vem o medo de voar de avião, de onde vem o medo de barata, de onde vem o medo de fazer uma prova, de onde vem o medo de falar em público, de onde vem o medo de perder alguém? Buscar ajuda psicológica ou psicanalítica, não significa que estamos doentes e não precisa ser um tabu. É importante, nestes momentos, pensar que a ajuda de um profissional da área da saúde mental é uma maneira facilitadora para encontrar aquilo que angustia, encontrar o trauma que desencadeou determinado medo e, como consequência, a ansiedade.
Quando percebemos de onde vem o medo, conseguimos dar um novo sentido a esse medo e encontrar formas de enfrentar a “coisa ruim” que causa o medo. E assim, evitar que a incerteza nos faça precipitar vendo só o que poderia acontecer de ruim, sem pensar nas soluções positivas. É poder olhar o “e se” e transformar em “e se... então eu farei isso ou aquilo para resolver”. E isso se chama coragem. Coragem não é eliminar o medo, mas ter a capacidade de enfrentar o medo.
Assim como o receio de provocar um acidente no trânsito, ferir-se ou ferir alguém, ou até mesmo de morrer ou matar, faz com que sejamos prudentes ao dirigir, o medo pode ser um mecanismo saudável para nossa sobrevivência. O que não podemos é deixa-lo dominar a nossa vida: “se tenho medo de provocar um acidente de trânsito, então não vou mais dirigir”. Pois aí, instaura-se uma patologia: o medo vira uma fobia (pânico, fobia social, agorafobia, etc.), que é um transtorno de ansiedade intenso que é desproporcional à circunstância em si e que nos bloqueia de achar saídas para enfrentá-la.
Mas, digo, um dos piores medos, é o antagônico medo de ter medo. Então não tenha medo de ter medo, permita-se o medo, mas permita-se junto ao medo, falar desse medo, dar um novo sentido e encontrar maneiras de triunfar sobre ele. Encontrar os seus meios de fazer uma prova, apresentar numa reunião, conhecer uma pessoa ou um grupo, voar de avião, entrar numa piscina, etc.
“Aprendi que a coragem não é ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas o que conquista esse medo” - Nelson Mandela
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail
Selecione os seus temas favoritos:


