Band Paraná

Uso de IA em fotos de aves preocupa pesquisadores no Brasil

Manipulações em plataformas globais de registro de espécies levantam alerta sobre dados falsos e verificação científica

João Marcelo
JOÃO MARCELO

05/08/2026 • 19:33 • Atualizado em 05/08/2026 • 19:42

Pesquisadores brasileiros alertam para o impacto do uso de inteligência artificial em plataformas online que reúnem fotos de aves feitas por observadores do mundo inteiro. As imagens, usadas em estudos sobre distribuição geográfica, migração e efeitos das mudanças climáticas, podem passar a conter informações enganosas quando são alteradas por algoritmos sem controle.

Compartilhar

Imagens alteradas confundem pesquisas

Uma plataforma gratuita alimentada com registros fotográficos de diferentes espécies serve de base para trabalhos científicos em diversos países. Segundo especialistas, filtros e ajustes automáticos aplicados por inteligência artificial já interferem na aparência dos animais, o que distorce dados importantes para a ciência.

Para o pesquisador Cleiton Valentim, esse tipo de manipulação visual compromete a confiabilidade dos estudos que dependem de identificação precisa das espécies.

"A IA pode entrar nesse meio e fazer parecer o que não é, e a gente perder tempo e dados tentando identificar o que está acontecendo", afirma Valentim.

Há casos em que a simples remoção de galhos e folhas em volta da ave muda características relevantes do animal. No Brasil, um oriol-de-ombros vermelhos, comum em parte do continente americano, foi fotografado e teve a imagem ajustada por um algoritmo que acabou deixando a ave semelhante a outra espécie típica da América do Norte.

Conforme relatou o repórter João Marcelo, uma revista científica apontou que mais de mil imagens já foram sinalizadas, em uma única plataforma, pelo uso de inteligência artificial. Na avaliação do jornalista, o número acende um alerta sobre a necessidade de melhorar os mecanismos de verificação antes de utilizar esses registros em pesquisas.

IA também auxilia descobertas de novas espécies

Por outro lado, pesquisadores destacam que a inteligência artificial pode ser uma aliada quando usada de forma adequada. No Ceará, duas espécies que não existem em nenhum outro lugar do planeta foram descobertas a partir da análise de cantos, com auxílio de ferramentas tecnológicas.

Na visão de Valentim, estudos que se baseiam na gravação de ambientes naturais se beneficiam da capacidade dos algoritmos de captar diferenças sutis nas vocalizações.

"Quando você grava um ambiente sem ver quem está cantando, há espécies com vocalizações muito semelhantes e a IA muitas vezes consegue pegar detalhes que a gente, a ouvido, não consegue perceber. A tecnologia tem sido utilizada para isso e, nesses casos, muito bem utilizada", explica o pesquisador.

Especialistas defendem que o avanço da inteligência artificial nas ciências naturais seja acompanhado de protocolos claros de checagem e transparência sobre o uso de filtros e ajustes em imagens e áudios. A expectativa é que o equilíbrio entre inovação tecnológica e rigor científico permita aproveitar o potencial da IA sem comprometer a qualidade dos dados sobre biodiversidade.