
Arquitetura do colapso ou da regeneração? A urgência da sustentabilidade na construção civil
Divulgação
A construção civil ocupa uma posição central no debate sobre sustentabilidade e transição ecológica. Ao mesmo tempo em que possibilita o crescimento urbano e a infraestrutura essencial para a vida nas cidades, é também um dos setores mais impactantes em termos ambientais. Segundo o International Resource Panel do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o setor da construção é responsável por aproximadamente 50% de todos os recursos naturais extraídos no mundo, incluindo areia, minerais, madeira, água e combustíveis fósseis. Soma-se a isso o consumo intensivo de energia, a geração massiva de resíduos e o uso de cerca de 20% da água potável disponível no planeta. Diante desses dados, é impossível imaginar um futuro sustentável sem uma transformação profunda deste setor.
Nos últimos anos, tem crescido o interesse e a adesão a práticas mais sustentáveis por parte de profissionais da arquitetura, da engenharia e da construção. Ainda estamos longe de uma revolução consolidada, mas os sinais de mudança são visíveis. A pauta da sustentabilidade e ESG (ambiental, social e governança) vem se fortalecendo e, com ela, surgem novas possibilidades para redesenhar a forma como construímos e ocupamos os espaços.
Esse movimento é urgente. De acordo com o Relatório de Status Global para Edificações e Construção 2023, publicado em março de 2024 pelo PNUMA e pela Aliança Global para Edifícios e Construção (GlobalABC), o setor foi responsável, em 2022, por 37% das emissões globais de CO₂ relacionadas à energia e processos, o equivalente a quase 10 gigatoneladas. O consumo de energia atingiu 132 exajoules, mais de um terço da demanda global. A participação das energias renováveis nos edifícios foi de apenas 6%, muito aquém da meta de 18% até 2030. Embora tenha havido uma pequena redução na intensidade energética (3,5%), as emissões cresceram 1% no ano, o que equivale a mais de 10 milhões de carros circulando pela linha do Equador.
Esses dados mostram que não há caminho viável para enfrentar a crise climática sem uma transformação estrutural na construção civil. E essa transformação pode, e deve, acontecer em várias frentes.
Na engenharia, os métodos construtivos precisam evoluir para modelos mais eficientes e menos impactantes. Construções modulares, sistemas industrializados, métodos a seco e componentes reaproveitáveis representam alternativas reais para reduzir o uso de água, tempo de obra e emissão de resíduos. Ainda são soluções restritas a nichos, mas com enorme potencial de escala.
No campo do design e da arquitetura, a inteligência climática dos projetos precisa se tornar padrão. O aproveitamento da ventilação natural, da iluminação solar e o conforto térmico passivo são estratégias que reduzem custos operacionais e aumentam a resiliência das edificações. Projetar considerando o bioclima local, a orientação solar e os fluxos naturais do entorno deve ser regra, e não mais exceção.
Já entre os materiais, o desafio é substituir progressivamente os insumos mais intensivos em carbono, como cimento e aço, por alternativas de menor impacto. A pesquisa e o desenvolvimento de biomateriais, como madeira engenheirada, fibras vegetais e compostos de base biológica, têm avançado e apontam caminhos viáveis para reduzir emissões desde a origem da obra. O conceito de economia circular aplicada à construção, com reuso, reciclagem e redução de desperdícios, também precisa ser incorporado de forma mais estruturada.
Segundo o PNUMA, metade dos edifícios que existirão até 2050 ainda não foram construídos. Ou seja, temos diante de nós uma oportunidade histórica de redesenhar a base física das nossas sociedades. Os países que não possuem códigos de energia rigorosos, em especial os de baixa renda, concentram 80% do crescimento da área útil prevista até 2030. A ausência de normas e incentivos para edificações de baixo carbono nesses territórios agrava ainda mais o risco de repetir os mesmos erros do passado, ampliando a pegada ecológica urbana e aumentando as desigualdades sociais.
O relatório do PNUMA e da GlobalABC recomenda, entre outras ações, triplicar a capacidade global de energias renováveis e dobrar a taxa média anual de eficiência energética até 2030. Também propõe ampliar os investimentos em inovação, adoção de padrões de emissões zero, incentivo a hipotecas verdes, aplicação de projetos passivos e uso de dados integrados — como os chamados passaportes de edifícios, que reúnem informações completas do ciclo de vida das construções.
Já existem muitas inovações, métodos, tecnologias e soluções disponíveis. O que ainda falta é escala, prioridade estratégica e vontade política.
Nosso futuro sustentável e regenerativo passa, necessariamente, pela transformação da construção civil. É por meio dela que vamos moldar as novas cidades, os bairros do amanhã e as infraestruturas que sustentarão sistemas regenerativos de produção, mobilidade, convivência e cuidado com a vida. Cada decisão tomada hoje — do projeto ao tijolo — definirá a paisagem e a qualidade de vida das próximas gerações.
Desde 2018 me dedico a missão colaborativa de organizar e disponibilizar iniciativas sustentáveis e regenerativas do Brasil e do mundo. São centenas de soluções sustentáveis e regenerativas prontas para serem aplicadas na construção civil e em outras áreas essenciais. O acesso é gratuito e disponível em 14 idiomas em
www.Wiki-Solution.org ou www.regeneracaoglobal.com
Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao
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