
O clima mudou. E nós, ainda não. O preço de ignorar a emergência climática.
Divulgação
Na tarde desta quarta-feira, 29 de julho, uma forte ventania atingiu o Vale do Paraíba e o Litoral Norte de São Paulo. Em poucos minutos, o céu escureceu, árvores caíram, casas foram destelhadas, estruturas foram danificadas e milhares de pessoas ficaram sem energia elétrica.
Em São Sebastião, as rajadas chegaram a 77 quilômetros por hora. A travessia de balsas entre São Sebastião e Ilhabela precisou ser interrompida. Estruturas da Semana Internacional de Vela foram danificadas e uma embarcação de pesca naufragou no Canal de São Sebastião, provocando a morte de um pescador.
São José dos Campos, Caçapava, Caraguatatuba, Ilhabela e Ubatuba também registraram quedas de árvores, interrupções no fornecimento de energia e danos em diferentes pontos das cidades. Em todo o Estado de São Paulo, três mortes foram relacionadas aos fortes ventos.
Diante de acontecimentos como esse, é comum ouvirmos que a natureza está revoltada, que o clima está imprevisível ou que estamos diante de uma fatalidade impossível de evitar.
Mas a natureza não é a culpada.
Ventos, chuvas, frentes frias, ciclones e variações de temperatura sempre fizeram parte do funcionamento do planeta. O problema é que estamos alterando profundamente o equilíbrio no qual esses fenômenos acontecem.
Aumentamos a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, destruímos florestas, impermeabilizamos o solo das cidades, ocupamos encostas e margens de rios, retiramos vegetação, canalizamos cursos d’água e construímos infraestruturas sem considerar a nova realidade climática.
O resultado é um sistema cada vez mais instável.
Não é possível afirmar, sem um estudo específico de atribuição climática, que uma determinada ventania foi provocada exclusivamente pelo aquecimento global. Porém, a ciência demonstra que as mudanças climáticas aumentam a frequência e a intensidade de ondas de calor, secas, chuvas extremas e outros eventos de grande impacto.
As mudanças climáticas não criam todos os fenômenos naturais.
Elas funcionam como um amplificador.
É como aumentar o volume de um sistema que já era naturalmente poderoso.
O alerta estava dado
Enquanto o Vale do Paraíba e o Litoral Norte contabilizavam os prejuízos da ventania, o Rio Grande do Sul voltava a enfrentar temporais, elevação dos rios e alertas de risco muito alto para inundações.
No dia 29 de julho, a Defesa Civil gaúcha emitiu alertas para o rio Taquari, o rio Jacuí, as ilhas de Porto Alegre e municípios como Eldorado do Sul, General Câmara, Charqueadas e Bom Retiro do Sul.
A situação não surgiu sem aviso.
Desde o início do ano, instituições meteorológicas nacionais e internacionais alertavam para a formação de um novo El Niño no Oceano Pacífico. Em abril, o Instituto Nacional de Meteorologia já apontava maior possibilidade de chuvas acima da média no Rio Grande do Sul.
Em junho, o fenômeno foi oficialmente confirmado.
Em julho, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos informou que o El Niño estava se fortalecendo e possuía 81% de probabilidade de se tornar muito forte entre outubro e dezembro de 2026, podendo permanecer ativo até o início de 2027.
Sabemos também o que normalmente acontece no Brasil durante eventos intensos de El Niño.
No Sul, aumenta o risco de chuvas persistentes, tempestades e inundações.
No Norte e em parte do Nordeste, cresce a possibilidade de seca e redução das chuvas.
No Centro-Oeste e no Sudeste, podem ocorrer períodos mais quentes, ondas de calor, estiagens e maior risco de incêndios florestais.
A ciência consegue indicar, com meses de antecedência, quais regiões apresentam maior probabilidade de enfrentar determinados impactos.
Portanto, o problema não é mais a falta de informação.
É a incapacidade de transformar informação em prevenção.
Não podemos administrar cidades esperando pela sorte
Em muitos casos, parece que esperamos o desastre acontecer para começar a agir.
A fé pode oferecer conforto, esperança e força às pessoas. Mas políticas públicas não podem depender apenas da fé, da sorte ou da expectativa de que o pior não acontecerá.
Fé não substitui obras de drenagem.
Fé não recupera matas ciliares.
Fé não remove famílias de áreas de risco.
Fé não substitui planos de contingência, sistemas de alerta, rotas de evacuação, abrigos preparados e equipes de Defesa Civil estruturadas.
Existe também uma espécie de negacionismo preventivo. Sabemos que o problema chegará, mas preferimos não tomar decisões difíceis, não destinar recursos e não alterar prioridades.
Depois do desastre, surgem as imagens, as campanhas de solidariedade, os anúncios emergenciais e as promessas de reconstrução.
Porém, reconstruir depois quase sempre custa muito mais do que prevenir antes.
A tragédia não começa quando o rio transborda, quando a encosta desliza ou quando o vento derruba uma árvore.
Ela começa anos antes, quando os alertas são ignorados, os investimentos são adiados e o planejamento climático não é tratado como prioridade.
O clima que conhecíamos já mudou
Precisamos compreender que estamos entrando em uma realidade diferente daquela utilizada como referência para construir nossas cidades, estradas, casas, sistemas de drenagem e redes de energia.
Uma chuva considerada comum pode encontrar uma atmosfera mais quente, com maior capacidade de acumular umidade, e se transformar rapidamente em uma tempestade severa.
O calor tradicional do verão pode evoluir para ondas de calor capazes de provocar doenças e mortes.
A seca característica do inverno pode se prolongar por meses, reduzir reservatórios, comprometer a agricultura e ampliar os incêndios florestais.
Os ventos podem atingir estruturas, árvores e redes elétricas que não foram projetadas ou manejadas para suportar eventos mais intensos.
O clima do passado não pode mais ser utilizado como a única referência para planejar o futuro.
A nova realidade climática não está chegando.
Ela já chegou.
Entrou nas nossas cidades, interrompeu estradas, derrubou árvores, destruiu casas, afundou embarcações e passou a fazer parte das decisões econômicas, sociais e políticas.
Adaptar não significa desistir
Precisaremos adaptar nossas cidades e territórios para conviver com um clima mais instável.
Isso significa mapear áreas de risco, atualizar os sistemas de drenagem, recuperar rios e nascentes, proteger encostas, ampliar áreas verdes, fortalecer a arborização urbana, melhorar o manejo preventivo de árvores, construir moradias seguras e preparar serviços de saúde para ondas de calor e desastres.
No Vale do Paraíba, no Litoral Norte e na Serra da Mantiqueira, o planejamento precisa considerar as características específicas de cada território.
No litoral, devem ser observados os riscos de ressacas, deslizamentos, inundações e elevação do nível do mar.
Na serra, é necessário monitorar encostas, estradas, quedas de árvores, incêndios florestais e períodos de frio ou chuva intensa.
Nas cidades do Vale, precisamos enfrentar a impermeabilização do solo, a ocupação de várzeas, as ilhas de calor, os alagamentos e a vulnerabilidade das redes de energia.
Adaptação não significa aceitar passivamente a crise climática.
Significa proteger vidas diante dos impactos que já não conseguimos evitar.
Ao mesmo tempo, precisamos reduzir emissões e regenerar os ecossistemas para impedir que o cenário se torne ainda mais grave.
Para onde estamos direcionando o dinheiro?
Nenhuma transformação acontecerá sem financiamento.
Planos climáticos sem orçamento são apenas documentos.
Metas ambientais sem recursos são apenas intenções.
Na última coluna, apresentei um dado que ajuda a compreender a contradição do nosso tempo. Para cada dólar investido na proteção ou restauração da natureza, aproximadamente 30 dólares são direcionados a atividades que contribuem para sua degradação.
Estamos tentando nos adaptar às mudanças climáticas enquanto continuamos financiando as atividades que aprofundam o problema.
A coluna completa pode ser acessada neste link:
Precisamos inverter essa lógica.
O dinheiro deve financiar cidades resilientes, sistemas de alerta, moradias seguras, energias renováveis, agricultura regenerativa, recuperação de florestas, proteção de nascentes e infraestruturas preparadas para eventos extremos.
Regenerar significa recuperar os sistemas naturais que ajudam a controlar a temperatura, absorver água, estabilizar encostas, proteger o solo e reduzir os impactos das tempestades.
Uma floresta preservada não é apenas uma paisagem.
Uma várzea protegida não é um terreno vazio.
Um rio com suas margens vegetadas não é um obstáculo ao desenvolvimento.
São infraestruturas naturais de proteção da vida.
Os acontecimentos desta semana deixam uma mensagem difícil de ignorar. Não podemos impedir a formação de uma frente fria ou controlar o El Niño. Mas podemos decidir se nossas cidades estarão preparadas, se os alertas serão transformados em ações e se o dinheiro continuará financiando a destruição ou começará a construir a regeneração.
Quantas mortes, naufrágios, enchentes, secas e prejuízos ainda serão necessários para compreendermos que prevenir a crise climática não é um custo, mas uma condição para continuarmos vivendo com segurança neste planeta?
Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao
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