
Divulgação/Marek Audy
Pesquisadores encontraram, em uma caverna na fronteira entre a Albânia e a Grécia, o que pode ser a maior teia de aranha do planeta, cobrindo 106 metros quadrados. A estrutura cobre parte das paredes da chamada Caverna de Enxofre, revelando uma colônia com mais de 111 mil aracnídeos. As aranhas vivem em harmonia nesse ambiente hostil, que é escuro e saturado de gás sulfídrico.
O achado foi detalhado na revista Subterranean Biology. O biólogo István Urák, da Universidade Sapientia da Transilvânia, liderou a descoberta e expressou admiração pelo achado: "O mundo natural ainda nos reserva inúmeras surpresas".
Um ecossistema único
A colônia é composta por duas espécies: cerca de 69 mil Tegenaria domestica (tecelãs-de-funil) e 42 mil Prinerigone vagans. Nenhuma das espécies era conhecida por viver em grupo. Blerina Vrenozi, zoóloga da Universidade de Tirana e coautora do estudo, afirmou nunca ter visto uma comunidade de aranhas com essa dinâmica.
A Caverna de Enxofre, nomeada pelo forte odor de gás sulfídrico, foi formada pela corrosão do ácido sulfúrico sobre o calcário. O ambiente é extremo, mantendo uma temperatura constante de 26 °C e concentrações de sulfeto de hidrogênio letais para a maioria dos animais.
Mesmo assim, ali prospera uma cadeia alimentar peculiar.
Energia química
A base da teia alimentar na caverna é sustentada por bactérias que oxidam o enxofre do gás e produzem matéria orgânica. Este processo, chamado quimioautotrofia, é típico de cavernas sulfurosas.
Essas bactérias formam biofilmes nas rochas que alimentam larvas e adultos de pequenos mosquitos não picadores (Tanytarsus albisutus), estimados em mais de 2,4 milhões. Os mosquitos, por sua vez, são a fonte de alimento das aranhas.
Análises isotópicas de carbono e nitrogênio confirmaram que a cadeia alimentar é totalmente sustentada internamente, sendo "um dos poucos casos conhecidos em que uma comunidade inteira é sustentada por energia química, não pela luz solar”.
Adaptação e cooperação inesperadas
A convivência entre as espécies, que em condições normais seriam predadoras, é atribuída à ausência de luz. A hipótese é que a escuridão faz com que as aranhas percam o estímulo predatório, levando-as a dividir o espaço e as presas.
O isolamento do local resultou em adaptações genéticas. Análises de DNA mostraram mutações exclusivas nas aranhas da caverna, além de um microbioma menos diverso. A tecelã-de-funil (T. domestica) também demonstrou padrões reprodutivos distintos, botando, em média, apenas 16 ovos por ninho, um número inferior ao de suas populações na superfície.
A megateia se mantém em constante renovação. As partes mais antigas se descolam, e novas camadas são tecidas, num ciclo que acompanha o fluxo de mosquitos.
O fenômeno é o primeiro a documentar tal comportamento de colônia em aranhas dessas famílias na Europa, demonstrando a "plasticidade genética notável" das espécies em condições extremas. Os pesquisadores, que enfrentaram o cheiro de enxofre e a dificuldade de respirar no local, alertam que a proteção da Caverna de Enxofre é fundamental devido ao risco de exploração mineral.

