
Marcello Casal JrAgência Brasil
Resumo
Pesquisa do Instituto Ideia revela que a maioria dos brasileiros considera a gestão do Orçamento público um problema grave, critica gastos excessivos do governo Lula e identifica corrupção como principal desafio, enquanto apoia reajuste anual de benefícios vinculados ao salário mínimo e a manutenção dos pisos constitucionais de Saúde e Educação.
Movimento Orçamento Bem Gasto, formado por economistas como Persio Arida, Edmar Bacha, Arminio Fraga e Fabio Giambiagi, defende mudanças nas regras fiscais e maior clareza sobre prioridades, propondo controle do crescimento dos gastos, revisão de despesas obrigatórias e eliminação de supersalários, com apoio expressivo da população à redução de emendas parlamentares e à criação de lei contra supersalários.
Levantamento aponta que 73% dos entrevistados apoiam a tarifa zero no transporte coletivo, mas a maioria rejeita aumento de impostos para financiar a medida, enquanto especialistas estimam custo superior a R$ 90 bilhões e o governo federal ainda não se posicionou oficialmente sobre o projeto.
A maioria dos brasileiros considera que a gestão do Orçamento público é um problema grave e avalia que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva gasta acima do que poderia. Ao mesmo tempo, a população defende a manutenção de despesas vinculadas ao salário mínimo e dos pisos constitucionais de Saúde e Educação, que pressionam as contas públicas. Há ainda apoio à redução das emendas parlamentares e ao corte dos supersalários no funcionalismo.
Os dados são de pesquisa do Instituto Ideia, antigo Ideia Big Data, encomendada pelo Movimento Orçamento Bem Gasto e obtida pelo Estadão.
Criado em defesa de mudanças nas contas públicas, o movimento reúne economistas como Persio Arida, Edmar Bacha, Arminio Fraga, Henrique Meirelles, Mailson da Nóbrega, Elena Landau, Felipe Salto e Fabio Giambiagi.
Procurado, o governo federal não se manifestou.
O levantamento ouviu 1.518 pessoas entre 3 e 8 de dezembro de 2025, em todas as regiões do País. A margem de erro é de 2,5 pontos porcentuais, para mais ou para menos.
Segundo a pesquisa, seis em cada dez brasileiros veem a gestão do Orçamento como um problema grave para a sociedade, e 55% afirmam que o governo federal gasta mais do que pode.
A corrupção é apontada como o principal problema do País por 31% dos entrevistados. A economia — incluindo inflação, desemprego, aumento de impostos e pobreza — aparece em segundo lugar, com 17%.
Quando o foco é especificamente as contas públicas, a corrupção também lidera (39%), seguida por má gestão e desperdício (19%), gastos excessivos (15%), dívida pública elevada (8%) e arrecadação insuficiente (4%).
A dívida do governo federal, que chegou a 78,7% do PIB em 2025 e pode se aproximar de 84% do PIB em 2026, é considerada um problema muito grave por 58% dos entrevistados.
Sete em cada dez apoiam total ou parcialmente a criação de uma regra para controlar o crescimento dos gastos públicos. Atualmente, o governo adota o arcabouço fiscal aprovado em 2023, mas parte dos economistas avalia que a regra perde sustentabilidade após 2027, exigindo ajustes.
Apesar da preocupação com o equilíbrio fiscal, 78% defendem que os benefícios pagos pelo governo sejam reajustados anualmente de acordo com o salário mínimo. Estão nessa lista aposentadorias, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego e o abono salarial, despesas que figuram entre as que mais crescem no Orçamento.
Mesmo assim, 31% apoiam totalmente mudanças na regra de vinculação para organizar as contas públicas, e outros 31% concordam parcialmente.
Em 2024, o governo propôs, e o Congresso aprovou, uma regra que mantém a vinculação ao salário mínimo, mas limita o crescimento real (acima da inflação) a 2,5% ao ano — teto semelhante ao previsto no arcabouço fiscal.
Situação semelhante ocorre com os pisos constitucionais de Saúde e Educação, que vinculam gastos à arrecadação e podem crescer acima do limite aplicado a outras despesas. Para 63% dos entrevistados, deve haver um valor mínimo obrigatório de investimento nessas áreas. Ao mesmo tempo, 60% apoiam total ou parcialmente mudanças que deem maior flexibilidade ao governo para remanejar esses recursos.
“Conta não fecha”
Para Fabio Giambiagi, pesquisador associado do FGV/Ibre, os resultados revelam a necessidade de maior clareza no debate público sobre prioridades fiscais.
“Se você perguntar para qualquer pessoa: você quer pagar mais ou menos imposto? Ela vai dizer: vou querer pagar menos. Você quer que o governo gaste mais ou menos com Saúde e Educação? Ela vai dizer: que gaste mais. Quando você coloca tudo isso no conjunto, a conta não fecha”, afirma.
Recentemente, o economista elaborou um estudo propondo ajuste no resultado primário — diferença entre receitas e despesas, excluídos os juros da dívida — de 1,3% do PIB no próximo mandato presidencial (2027-2030) e de 2,5% do PIB até 2035.
Entre as medidas sugeridas estão crescimento real zero do gasto público no primeiro ano do próximo governo, eliminação de despesas “extrateto”, redução do limite de crescimento do arcabouço de 2,5% para 2% e do piso mínimo, de 0,6% para 0%.
Ele também defende alterar a regra de vinculação da despesa obrigatória em Saúde para que o gasto siga o teto do arcabouço, além de estabilizar, em termos reais, as despesas com pessoal e os repasses ao Fundeb, corrigindo-os apenas pela inflação.
“O governante tem o papel pedagógico de expor essas questões à sociedade, definir a agenda e estabelecer prioridades. Não será o Legislativo que vai pautar essa agenda. Isso começa por tratar as pessoas, o eleitor e o cidadão como adultos capazes de perceber as contradições e a necessidade de fazer escolhas”, diz.
Emendas e supersalários
A pesquisa mostra ainda que 76% dos brasileiros apoiam total ou parcialmente a redução das emendas parlamentares. Para 2026, o Congresso aprovou R$ 62 bilhões em emendas, parte vetada e bloqueada pelo presidente para recompor o caixa dos ministérios. O Orçamento prevê R$ 50 bilhões sob controle direto de congressistas em ano eleitoral, o equivalente a cerca de 20% das despesas discricionárias do Executivo.
Outro ponto sensível são os supersalários no funcionalismo público, pagos acima do teto constitucional. O Supremo Tribunal Federal determinou o fim dos chamados “penduricalhos” e discute com o Congresso uma transição para implementar a medida.
Mais da metade dos entrevistados (55%) apoiaria totalmente a criação de uma lei para limitar os supersalários; considerando também os que apoiam parcialmente, o índice chega a 73%.
Segundo Giambiagi, as emendas têm peso relevante nas despesas e precisam ser revistas. Já os supersalários têm impacto menor no Orçamento, mas sua limitação seria importante para dar legitimidade a outras medidas de ajuste.
“Cortar os supersalários não será a solução para o desequilíbrio fiscal. Porém, do ponto de vista da legitimidade das propostas, é impossível mexer em temas controversos sem tratar dessa questão”, afirma.
Tarifa zero
O levantamento também abordou a possibilidade de o governo financiar a gratuidade do transporte coletivo em todo o País. O presidente Lula encomendou ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um estudo sobre o tema.
Especialistas estimam custo superior a R$ 90 bilhões aos cofres públicos. A Secretaria de Política Econômica emitiu parecer favorável a projeto que abre caminho para a medida, mas destacou que não há posição oficial do ministério.
A chamada tarifa zero conta com apoio de 73% dos entrevistados, entre favoráveis e muito favoráveis. Ainda assim, 40% afirmam que não aceitariam pagar mais impostos para financiar a iniciativa. Outros 24% aceitariam se fosse comprovado que a medida melhora a cidade, e 17% concordariam desde que o valor adicional fosse pequeno.
*Com informações do Estadão Conteúdo.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:

