Economia

Uso industrial da cannabis pode revolucionar economia, diz especialista

Especialista destaca aplicações industriais, medicinais e ambientais do cânhamo, apontando o Brasil como futura potência do setor

Guilherme Machado
GUILHERME MACHADO

30/07/2026 • 07:00 • Atualizado em 30/07/2026 • 07:00

Cannabis tem também usos para a indústria

Cannabis tem também usos para a indústria

Agência Brasil

A cannabis ainda é cercada de restrições em relação a seu cultivo no Brasil e em outros lugares do mundo. Entretanto, especialistas apontam que a planta possui benefícios que vão para além do medicinal, como usoso no meio industril. Ela se consolida como matéria-prima para mais de 25 mil produtos, com destaque para o cânhamo — variedade da espécie com vasta aplicação comercial e sustentável.

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Segundo Mercedes Ponce de León, cofundadora da Latinnabis e da ExpoCannabis Uruguay, o cânhamo tem importância histórica na industrialização humana.

"A fibra do cânhamo é uma das mais antigas e utilizadas na história da humanidade. Portanto, o verdadeiro 'experimento' foi a sua proibição. O que estamos tentando fazer hoje é resgatar esse conhecimento que a humanidade já possui e aplicar toda essa experiência com as tecnologias, pesquisas e avanços atuais", afirma em entrevista ao Band.com.br em evento preparatório para a ExpoCannabis Brasil 2026, que discutirá o atual cenário para uso da planta no mundo.

A especialista lembra que, nos anos 1940, a indústria automobilística já testava a tecnologia. Henry Ford chegou a projetar um veículo com lataria de bioplástico de cânhamo e motor movido a biodiesel da mesma planta.

Ponce de León afirma que a proibição nos Estados Unidos ocorreu como método de controle social e lobby econômico em favor do algodão, que competia diretamente com o cânhamo.

Aproveitamento integral da planta e sustentabilidade

O diferencial do cânhamo reside no aproveitamento de 100% de sua estrutura:

  • Raízes: Atuam na fitorremediação, limpando metais pesados e purificando cursos d'água.
  • Caule: O miolo lenhoso é utilizado na bioconstrução para fabricação do concreto de cânhamo (hempcrete), eficiente isolante térmico e acústico.
  • Fibras: Extremamente resistentes e imunes a fungos e umidade, servem para a confecção de tecidos, bioplásticos, papéis e materiais de isolamento sonoro.
  • Folhas e biomassa: Auxiliam na regeneração do solo e na fabricação de cosméticos e óleos.
  • Flores: Destinam-se ao mercado farmacêutico, medicinal e a usagens culturais ou religiosas.
  • Sementes: Possuem alto valor proteico e nutricional, contendo todos os aminoácidos essenciais. Delas extraem-se óleos para culinária, biocombustíveis e cosméticos.

Além da versatilidade, a cultura possui pegada de carbono negativa e serve para a recuperação do solo e rotação de culturas.

O pioneirismo uruguaio e o potencial brasileiro

O Uruguai mantém a liderança no avanço regulatório e na geração de dados sobre o impacto do setor.

No âmbito da cannabis medicinal, o país exporta medicamentos — inclusive para o Brasil — e integra a endocannabinologia na saúde pública e privada. Na área industrial, produz tecidos, alimentos derivados de grãos de cânhamo e bioplásticos para impressão 3D.

Para Mercedes Ponce de León, a parceria com o mercado brasileiro é promissora devido à escala da indústria nacional.

"O que nós temos hoje é experiência e conhecimento acumulados, mas vocês têm a escala e a estrutura industrial. Podemos compartilhar muita coisa com vocês agora, mas temos certeza de que, no futuro, vocês é que nos abastecerão, pois o Brasil tem vocação para ser uma grande potência no setor", conclui a entrevistada. O avanço das regulamentações na América Latina segue no centro dos debates econômicos e ambientais da região.

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