
Como a Varig foi a falência após mais de 70 anos de empresa
Divulgação/Wikimedia Commons
A falência operacional da Varig em julho de 2006, após quase oito décadas de atividade, resultou de uma combinação de políticas econômicas, fragilidade patrimonial e decisões gerenciais que deixaram a companhia aérea gaúcha sem frota, sem caixa e com um passivo bilionário no Brasil.
Criada em 1927, a empresa que chegou a liderar o mercado nacional não resistiu aos efeitos de planos de combate à inflação, ao modelo de expansão apoiado em aeronaves alugadas e à incapacidade de se adaptar ao ambiente mais competitivo e desregulamentado que emergiu a partir dos anos 1990.
O congelamento de tarifas em um cenário de custos dolarizados, somado à estrutura de governança controlada pela Fundação Ruben Berta, formou um quadro em que as respostas estratégicas demoravam a chegar, enquanto a concorrência avançava com modelos de negócios mais flexíveis.

Armadilhas macroeconômicas e o descasamento cambial
A crise começou a ganhar força na segunda metade da década de 1980. Com o Plano Cruzado, em 1986, o governo manteve os preços das passagens aéreas sob controle para conter a inflação. Mas insumos essenciais, como combustível e peças de reposição, seguiram vinculados ao dólar.
Planos econômicos posteriores, como Bresser e Verão, prolongaram o descompasso entre receitas em moeda local e despesas em moeda estrangeira.
Segundo especialistas em aviação, esse descasamento cambial corroeu a lucratividade por quase uma década e levou a empresa a buscar na Justiça reparação contra a União.
Mesmo com a estabilização trazida pelo Plano Real, em 1994, o efeito acumulado dos anos de perdas consolidou um passivo considerado impagável.
No período que antecedeu a recuperação judicial, a Varig somava cerca de R$ 7,8 bilhões em dívidas, prejuízo de R$ 1,5 bilhão em 2005 e patrimônio líquido negativo estimado em mais de US$ 2,5 bilhões.
A frota de papel: o impacto do leasing de aeronaves
De 87 aeronaves em operação, 83 eram alugadas por meio de contratos de leasing (modalidade de financiamento que funciona como um aluguel de longo prazo), o que deixava a empresa altamente dependente da manutenção de pagamentos em dia a arrendadoras internacionais.
Quando a crise de liquidez se agravou, a partir de 2003, a companhia deixou de honrar parte dessas obrigações. Diante do inadimplemento, empresas de leasing passaram a retomar judicialmente os aviões, o que reduziu rapidamente a capacidade de atender rotas domésticas e internacionais.
Sem caixa e sem aeronaves suficientes, a Varig pediu recuperação judicial em 17 de junho de 2005, amparada na nova lei de falências.
Na prática, porém, a retenção de aeronaves em hangares, como os do aeroporto do Galeão, e a imobilização de jatos de longo curso em cidades como Nova Iorque e Salvador paralisaram a malha da companhia.
Com a operação inviabilizada, a Nova Varig, VRG Linhas Aéreas, unidade criada a partir da cisão dos ativos, foi obrigada a cancelar quase todas as rotas nacionais e internacionais em 20 de julho de 2006, preservando apenas a ponte aérea Rio–São Paulo de uma rede que já ligara o país a dezenas de destinos no exterior.
Rigidez gerencial frente à nova concorrência
A partir dos anos 1990, políticas de abertura e desregulamentação estimularam a entrada de empresas como TAM e Gol, que apostaram em modelos de alta eficiência e baixo custo, com maior flexibilidade na gestão de frota e tarifas.
Para analistas, a Varig não conseguiu responder com a mesma agilidade. Controlada pela Fundação Ruben Berta, a empresa operava com uma governança considerada lenta, em que decisões estratégicas dependiam de longos processos internos e negociações com diferentes grupos de interesse.
Essa rigidez dificultou ajustes de rota, como redução de estrutura, revisão de malha e renegociação agressiva de contratos. A falta de consenso entre credores e gestores inviabilizou, inclusive, uma proposta de combinação de negócios com a TAM em 2004, que poderia ter reforçado a posição da companhia no mercado doméstico.
Sem flexibilizar a gestão, sem ativos relevantes para oferecer em garantias e carregando passivo elevado, o processo de recuperação judicial não encontrou condições para avançar de forma sustentável.
A cisão entre a operação remanescente e a chamada Velha Varig, que concentrava o histórico de dívidas, terminou com a decretação de falência desta última em 2010.
Na visão de especialistas, o caso Varig se tornou um símbolo de como choques macroeconômicos, modelos de expansão alavancados e estruturas de governança pouco adaptáveis podem comprometer a sobrevivência de empresas tradicionais diante de um mercado mais competitivo e globalizado.
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