
Varig
Divulgação/Wikimedia Commons
Fundada em 1927, em Porto Alegre, pelo ex-piloto alemão Otto Ernst Meyer, a Viação Aérea Rio-Grandense (Varig) construiu uma trajetória de quase 80 anos, tornou-se referência de luxo nas rotas internacionais brasileiras e viu sua operação colapsar em 2006, encerrando uma era na aviação comercial do país.
O nascimento em Porto Alegre e a era Ruben Berta
A história da companhia começou com apoio técnico e financeiro do Syndicato Condor, que permitiu o início das operações regulares em junho de 1927, com o hidroavião Dornier Do J Wal, primeira aeronave registrada no Brasil, na rota Porto Alegre-Rio de Janeiro. A Varig ganhou autonomia em 1930, quando o grupo alemão deixou a sociedade.
Em 1941, o comando passou de Meyer para Ruben Berta, primeiro funcionário contratado pela empresa.
Em 1945, Berta criou a Fundação Ruben Berta e transferiu o controle acionário para uma estrutura administrada pelos próprios trabalhadores, modelo que funcionava como cooperativa de grande porte, voltada à previdência, à assistência social e à continuidade institucional da companhia.
A ascensão ao monopólio internacional após 1965
O salto rumo à hegemonia internacional ocorreu em fevereiro de 1965, durante o governo Castelo Branco, quando o governo cassou o certificado de operação da Panair do Brasil, principal concorrente nas rotas externas, alegando crise financeira.
Na mesma noite da decisão, uma aeronave da Varig já estava posicionada no Galeão para assumir o voo da rival, e a empresa herdou rotas e parte da frota, incluindo jatos Douglas DC-8.
Com a ampliação da malha, a companhia iniciou novos voos regulares para Europa e Oriente Médio em 1966 e consolidou-se como principal "embaixadora" brasileira nos céus, em anos marcados por serviço de bordo luxuoso, com caviar e churrasco no espeto, sob a liderança de Ruben Berta e depois de Erik de Carvalho.
A imagem da empresa chegou a ser comparada à da norte-americana Pan American World Airways.
Décadas mais tarde, em 1984, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a ilegalidade do fechamento da Panair, que concluiu o processo de falência em 1995 com saldo financeiro positivo, episódio que expôs a forte interferência estatal no setor aéreo da época.

O fim da pioneira em julho de 2006
A trajetória de expansão começou a se inverter nos anos 1980, afetada por planos econômicos como o Cruzado, que congelaram tarifas de passagens para conter a inflação enquanto custos essenciais (combustíveis, peças e contratos de leasing em dólar) continuavam a subir.
O descompasso corroeu o caixa e deixou a empresa com dívida estimada em R$ 7,8 bilhões e patrimônio líquido negativo superior a US$ 2,5 bilhões.
Na década de 1990, a abertura de mercado revelou a dificuldade de adaptação da Fundação Ruben Berta, cuja estrutura demorava meses para aprovar medidas que novas concorrentes, como TAM e Gol, implementavam em poucos dias.
Companhias focadas em eficiência e baixo custo ganharam espaço, enquanto 83 das 87 aeronaves da Varig, operando em regime de leasing internacional, começaram a ser retomadas por arrendadoras diante da crise de liquidez.
Em junho de 2005, a empresa pediu recuperação judicial e foi cindida em duas unidades: a "Velha Varig", concentrando dívidas fiscais, trabalhistas e o déficit do fundo Aerus, teve falência decretada em 2010; a "Nova Varig" (VRG Linhas Aéreas), isolada do passivo histórico, tentou manter a operação.
Sem fôlego financeiro, cancelou quase todas as rotas nacionais e internacionais em 20 de julho de 2006, preservando apenas a Ponte Aérea Rio-São Paulo.
O colapso operacional marcou, na prática, o fim de uma era na aviação brasileira; em 2007, a Nova Varig foi incorporada pela Gol, que absorveu seus ativos e encerrou o uso comercial da marca da estrela dourada.
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