Economia

PF deflagra operação contra fraude milionária nos Correios

Esquema envolvia empresas de fachada para simular serviços não prestados na estatal. Em análise, consultora Helena Landau critica gestão, empréstimo do Tesouro e defende reestruturação profunda da empresa

Da redação
DA REDAÇÃO

04/08/2026 • 16:04 • Atualizado em 04/08/2026 • 16:04

A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta semana uma operação para desmantelar um esquema milionário de fraudes praticado contra os Correios. As investigações revelam que empresas de fachada eram contratadas pela estatal para prestação de serviços fictícios, que nunca foram realizados na prática. Apesar da ausência das prestações de serviço, os pagamentos eram autorizados e liberados por funcionários públicos envolvidos no esquema, resultando em elevados prejuízos aos cofres públicos que ainda estão sendo dimensionados pelas autoridades.

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Resumo da operação da Polícia Federal

Mandados cumpridos: 10 mandados de prisão preventiva e 10 mandados de busca e apreensão.

Servidores envolvidos: Três empregados públicos da estatal estão entre os alvos de prisão.

Crimes investigados: Os suspeitos responderão formalmente por peculato e lavagem de dinheiro.

Prejuízo financeiro: O montante exato desviado segue sob apuração dos peritos da PF.

"Crise anunciada", aponta ex-diretora do BNDES

A operação policial ocorre em meio a um cenário crítico enfrentado pela empresa pública, marcado por prejuízos sucessivos, denúncias de corrupção e problemas crônicos de gestão. A situação foi analisada pela consultora e ex-diretora de desestatizações do BNDES, Helena Landau, que classificou o atual quadro dos Correios como uma tragédia previsível e prolongada. "Isso é uma crise anunciada. É um trimestre após o outro, o governo deixou ir longe demais. Não é a primeira vez que o Correios é utilizado", afirmou Helena Landau.

Helena Landau também fez duras críticas às medidas adotadas recentemente pelo Poder Executivo para injetar liquidez na empresa, citando especificamente o empréstimo obtido com garantia do Tesouro Nacional. Para a consultora, o socorro financeiro foi desenhado sem premissas realistas de pagamento."Esse empréstimo do Tesouro Nacional com garantia do Tesouro foi feito com nenhuma esperança de que fosse pago. Seria muito mais barato para o governo ter feito um aporte de capital. Não atingiu meta nenhuma e não é suficiente para pagar os empréstimos", pontuou.

Na avaliação de Landau, a solução exige que o Governo Federal, na condição de controlador acionário da estatal, encare a gravidade do problema sem buscar narrativas simplistas ou planos paliativos.

Choque de gestão e debate sobre privatização

Ao abordar os caminhos para o futuro da empresa, Landau reconheceu que a privatização total dos Correios se tornou um processo complexo no atual momento político e econômico, mas defendeu que a alternativa é a imposição de uma reestruturação radical.

"A primeira coisa que a gente tem que fazer para resolver a crise é o governo controlador do Correio levar a sério essa crise, parar com essa história de que tem um plano que vai resolver", disse a especialista. "O choque tem que ser um choque muito radical e muito ruim para os empregados a essa altura do campeonato, porque agora não dá mais para privatizar simplesmente", ponderou.

Universalização e modelo para áreas remotas

A ex-diretora do BNDES rebatia com veemência o argumento de que a manutenção da estatal é indispensável porque a iniciativa privada não teria interesse em atender municípios distantes ou regiões de difícil acesso. "Esse argumento é fraquíssimo. É um argumento muito usado, mas essa história de 'caráter estratégico' e 'função social' acaba encobrindo muitos erros. Quando o governo alega que o serviço público não pode ser delegado, esquece que o mais importante é a eficiência, pois se lida diretamente com o cidadão", declarou.

Landau citou como exemplos bem-sucedidos as concessões e privatizações nos setores de telecomunicações, energia elétrica e saneamento básico, ressaltando que é perfeitamente possível desenhar marcos regulatórios que imponham a obrigação de universalização do atendimento às empresas privadas.

Ela lembrou ainda a existência de estudos antigos elaborados pelo próprio BNDES que propunham um modelo misto: a privatização do segmento competitivo de logística e encomendas, combinada com a delegação regulada dos serviços postais básicos.

Mudança no perfil de consumo e origens históricas

Por fim, a consultora enfatizou que o declínio dos Correios não é um fenômeno recente, derivando de transformações profundas no mercado global de comunicações e logística — como a substituição das correspondências físicas por meios digitais e o avanço avassalador do e-commerce.

"A crise dos Correios não é de hoje. As cartas começaram a ser substituídas por e-mail, enquanto a demanda por encomendas cresceu. O Correio começou a dar prejuízo já no início do governo Lula e levou-se muito tempo para demitir os gestores responsáveis", relembrou Landau.

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