Fez o Enem 6 vezes até conquistar vaga em medicina com bolsa integral

Filho de profissionais da saúde, estudante transforma vivência em hospitais e resgates em vocação pela medicina

PRISCILLA VIERROS

16/03/2026 • 18:23 • Atualizado em 16/03/2026 • 18:23

Matheus acredita que a medicina vai muito além do jaleco

Matheus acredita que a medicina vai muito além do jaleco

Divulgação/ Arquivo pessoal

Matheus Moraes Silva Souza cresceu ouvindo histórias de urgência, sirenes e vidas salvas. Filho de um técnico em enfermagem que atuou por 16 anos no resgate da Rodovia Dutra, ele aprendeu desde cedo que trabalhar na saúde significava muito mais do que vestir um jaleco. Significava estar presente nos momentos mais difíceis da vida de alguém.

Compartilhar

Entre no canal do WhatsApp do Quero Estudar Medicina e receba conteúdos exclusivos.

Hoje, aos 25 anos, ele cursa o 7º semestre de medicina na Universidade Anhembi Morumbi, em São José dos Campos. Mas o caminho até aqui foi longo e construído com persistência, estudo e uma rede de apoio familiar que ele faz questão de reconhecer em cada etapa da sua história.

Matheus nasceu e cresceu em São José dos Campos, no interior paulista. Costuma dizer que carrega duas origens: metade mineiro, de Sapucaí-Mirim (MG), e metade paulista. A família tem raízes em Ribeirão do Sul, cidade próxima a Ourinhos, na divisa com o Paraná. A origem humilde nunca foi escondida; pelo contrário, é motivo de orgulho.

Criado pelos pais, avós, tios e irmãos, ele descreve a família como sua principal fortaleza. “Tudo o que sou devo aos meus pais e aos meus avós. Minha trajetória na medicina só existe porque sempre tive eles comigo”, conta.

O pai, Ezio, foi uma das primeiras inspirações. Técnico em enfermagem, trabalhou por anos no atendimento a acidentes graves na Dutra. Matheus cresceu ouvindo relatos de madrugadas difíceis, socorros emergenciais e histórias de pessoas que sobreviveram graças à rapidez das equipes de resgate. “Em cada trecho da rodovia ele tem uma memória”, diz.

Hoje, o pai atua no SAMU de São José dos Campos, muitas vezes ao lado de médicos que, anos depois, se tornariam professores de Matheus na faculdade.

A mãe, Daniele, também teve papel importante nessa construção. Ela trabalhou na área administrativa da saúde, em hospitais como o Pio XII, referência em cardiologia e tratamentos oncológicos. Foi com ela que Matheus passou a entender os bastidores da medicina: a complexidade da gestão hospitalar, os desafios invisíveis da área e o peso da responsabilidade que envolve o cuidado com vidas.

Cresci entendendo que ser médico vai muito além do jaleco.

Apesar da vocação que parecia natural dentro de casa, o caminho até a faculdade não foi simples. Matheus estudou sempre em escola pública e sabia que a família não teria condições de pagar uma faculdade particular. Por isso, traçou duas possibilidades: entrar em uma universidade pública ou conquistar uma bolsa integral.

A primeira conquista veio ainda no Ensino Médio. Ele conseguiu uma bolsa integral no Colégio Embraer, em São José dos Campos, onde se formou em 2018. A experiência foi fundamental para fortalecer sua base acadêmica e mantê-lo na rota da medicina.

Mesmo assim, a aprovação demorou a chegar. Matheus fez o Enem seis vezes. Entre 2019 e 2022, dedicou-se intensamente aos estudos em cursinhos, também com bolsas integrais. A cada prova, aguardava os resultados com esperança renovada.

Em 2021, alcançou sua maior pontuação, o que reacendeu a confiança de que o sonho estava próximo. “Eu sempre levantei a bandeira do Enem como uma verdadeira porta de transformação social”, afirma.

Foi por meio da nota do exame que surgiu a oportunidade decisiva. Matheus soube do programa de bolsas da Universidade Anhembi Morumbi através de uma pessoa próxima, que o ajudou a organizar toda a documentação necessária para comprovar renda e participar do processo seletivo.

A seleção foi disputada e teve várias etapas. No final, ele conquistou uma bolsa integral em medicina por meio do Programa Mais Médicos, voltado a estudantes de baixa renda com alto desempenho no Enem. A notícia foi celebrada em família. “Choramos juntos. Aquela vitória não era só minha, era nossa”, lembra Matheus.

Matheus prestou o Enem seis vezes em busca do sonho de cursar Medicina I Crédito: Arquivo Pessoal/Divulgação

Matheus prestou o Enem seis vezes em busca do sonho de cursar Medicina I Crédito: Arquivo Pessoal/Divulgação

Hoje, já no quarto ano da graduação, o estudante olha para trás com orgulho da própria trajetória. Mais do que esforço, ele diz que aprendeu a respeitar o próprio tempo. “Nunca fez sentido abrir mão da minha família para conquistar uma vaga”, explica. “Eu estudava para vê-los felizes, para honrar a criação que recebi.”

O desejo de ajudar as pessoas também foi um motor constante nessa jornada. Ele diz que sempre teve facilidade em cuidar, orientar e se colocar à disposição de quem precisava. “Encontrei na medicina uma oportunidade de dar sentido à minha vida.”

Esse compromisso com o cuidado também aparece fora da sala de aula. Matheus é atualmente presidente do Comitê Estudantil de Voluntariado da Universidade Anhembi Morumbi. Ao lado de colegas, organiza mutirões de saúde e ações voltadas a comunidades carentes em diferentes regiões do estado de São Paulo.

O objetivo é ampliar o acesso a direitos básicos, especialmente ao atendimento de saúde. “Queremos levar um pouco de acesso a quem precisa”, explica.

A rotina intensa da faculdade também é compartilhada com alguém especial. Sua companheira, Luiza, também é estudante de medicina e está no último período da graduação. Juntos, eles dividem estudos, desafios e as pequenas vitórias do dia a dia acadêmico. “Caminhar essa jornada acompanhado torna tudo mais leve”, diz.

Ao contar sua própria história, Matheus espera que sua experiência inspire outras pessoas que também enfrentam dificuldades para chegar à universidade. Para ele, persistência e apoio coletivo fazem toda a diferença. “Depois de quatro anos de cursinho, consegui chegar onde um dia nem sonhava estar”, afirma.

No fim, ele deixa um conselho simples, mas que resume sua trajetória: valorizar o tempo, respeitar o próprio processo e caminhar ao lado das pessoas que realmente importam.

“Sem ter com quem compartilhar a alegria de ser quem você é, não faz sentido viver uma vida tão boa.” E completa com uma frase que gosta de repetir: “Ninguém vence sozinho, nem no campo nem na vida.” — Papa Francisco.