
Aos 25 anos, a estudante de medicina transformou um sonho de infância em realidade
Crédito: Arquivo pessoal
Desde criança, Lorraine Levi Santos tinha certeza do caminho que queria seguir. Enquanto outras crianças sonhavam com diferentes profissões, ela se imaginava usando um jaleco e cuidando de pessoas. Aos oito anos, assistia ao programa Pronto Socorro: Histórias de Emergência, do Discovery Channel, ao lado do pai, agricultor, e se encantava com a rotina dos médicos. Hoje, aos 25 anos, cursando o nono semestre de Medicina na UNIFG, em Guanambi (BA), ela vive exatamente o futuro que imaginava.
Entre no canal do WhatsApp do Quero Estudar Medicina e receba conteúdos exclusivos.
Natural de Uibaí, no interior da Bahia, Lorraine cresceu em uma família de origem humilde, mas cercada por um ambiente que valorizava a educação. Mesmo sem referências próximas na medicina, encontrou inspiração no pai, que admirava os profissionais que via na televisão, e em um primo médico conhecido pelo atendimento humanizado à população da cidade.
"Eu sabia que, um dia, meu pai iria me olhar com o mesmo brilho nos olhos com que assistia àqueles médicos. Esse sonho só cresceu dentro de mim", conta.

Para Lorraine, a família é a base para seguir em busca do sonho de se tornar médica I Arquivo pessoal
Três anos de preparação até a aprovação
O caminho, porém, esteve longe de ser fácil. Lorraine estudou toda a vida em escolas públicas e enfrentou dificuldades provocadas por um ensino que considera defasado. Quando concluiu o ensino médio, decidiu dedicar-se integralmente ao objetivo de ingressar em medicina.
Durante três anos, estudou em casa utilizando cursinhos on-line. No início, acompanhava aulas pelo celular. Depois, ganhou do pai um notebook simples, que continua usando até hoje. A mãe, professora, fazia um esforço para pagar um cursinho que custava R$ 60 por mês.
A rotina era construída entre videoaulas, simulados e milhares de questões. Mas o maior desafio não estava apenas no conteúdo. "Todas as minhas amigas já estavam na faculdade, e eu sentia que estava parada no tempo. A comparação era muito difícil", lembra.
Apesar da ansiedade, Lorraine nunca pensou em abandonar o sonho. A certeza de que seria médica permaneceu intacta durante todo o processo.
Terapia ajudou a transformar a aprovação
Foi no terceiro ano de cursinho que uma mudança fez diferença. Exausta e insegura, ela iniciou acompanhamento psicológico e passou a investir ainda mais na resolução de exercícios, especialmente de Matemática, disciplina em que tinha maior dificuldade.
Segundo Lorraine, responder muitas questões e realizar simulados semanalmente fez sua nota crescer cerca de 200 pontos na disciplina. A terapia também ajudou a enfrentar as inseguranças que haviam se acumulado ao longo dos anos.
A aprovação veio por meio de uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni). A convocação apareceu apenas na última chamada, quando ela já havia retomado os estudos pensando em um quarto ano de preparação. “Comecei a tremer e a chorar. Era a confirmação de que nunca ter desistido tinha valido a pena”, lembra.

Lorraine exibe orgulhosa sua conquista I Arquivo pessoal
Novos desafios dentro da faculdade
Ingressar na graduação trouxe outros obstáculos. Lorraine precisou mudar de cidade quando as aulas já haviam começado e contou com o acolhimento de colegas, professores e familiares para conseguir acompanhar o ritmo da faculdade.
As dificuldades financeiras continuaram presentes. A bolsa do Prouni garante a mensalidade, mas a permanência depende do esforço da família. O pai paga o aluguel com o trabalho na agricultura, a mãe contribui como pode, e a estudante complementa a renda com benefícios estudantis.
O momento mais delicado aconteceu no terceiro semestre, quando a mãe sofreu uma redução salarial. O medo de interromper o curso afetou seu desempenho acadêmico e desencadeou um quadro de depressão, tratado com acompanhamento psicológico.
Hoje, Lorraine afirma que continua enfrentando a pressão característica da graduação, mas encontrou apoio nos amigos e nos serviços de atendimento psicológico oferecidos pela universidade.
O sonho de infância ganhou um novo significado
Já no internato, Lorraine viveu uma experiência que confirmou sua escolha profissional. Durante um atendimento do SAMU, participou do socorro a um paciente vítima de arma branca que chegou em choque hemorrágico. Após o atendimento inicial e a transferência para o hospital, o paciente sobreviveu sem sequelas.
Para ela, aquele momento simbolizou a realização de um sonho cultivado desde a infância. "Poder ajudar a salvar uma vida foi a confirmação de que eu nasci para isso."
Sem definir ainda qual especialidade seguirá, Lorraine se identifica com Clínica Médica e pretende continuar estudando para oferecer um atendimento ético, humano e de excelência.
A quem sonha cursar medicina, deixa um conselho simples, construído a partir da própria trajetória: "Nunca desista. Se você continuar acreditando, estudando e persistindo, uma hora vai conseguir."
