Neonatologia: a rotina do médico que cuida dos primeiros dias de vida

Especialidade combina decisões rápidas, conhecimento técnico e atuação em equipe para cuidar da saúde do recém-nascido e acolher a família

PRISCILLA VIERROS

10/07/2026 • 11:00 • Atualizado em 10/07/2026 • 11:00

Nos berçários neonatais, o cuidado começa logo após o nascimento, com acompanhamento médico adaptado às necessidades de cada recém-nascido

Nos berçários neonatais, o cuidado começa logo após o nascimento, com acompanhamento médico adaptado às necessidades de cada recém-nascido

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A chegada de um bebê ao mundo costuma ser um dos momentos mais marcantes para uma família. Nos bastidores desse nascimento está o neonatologista, médico especializado em acompanhar o recém-nascido nas primeiras horas e semanas de vida, atuando tanto em situações de rotina quanto em casos de alta complexidade.

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Embora faça parte da pediatria, a neonatologia exige conhecimentos específicos, tomada de decisões rápidas e atualização científica constante. A rotina inclui atendimento em salas de parto, unidades neonatais, consultórios e atividades acadêmicas.

Para mostrar como é a rotina da especialidade, o Quero Estudar Medicina conversou com a pediatra e neonatologista Clery Bernardi Gallacci. Professora da Santa Casa de São Paulo, ela também coordena os berçários e o Centro Obstétrico do Hospital e Maternidade Santa Joana e é instrutora do Programa de Reanimação Neonatal da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre especialidades médicas, desenvolvida para auxiliar estudantes de medicina na escolha de suas futuras carreiras. O objetivo é apresentar os bastidores, os desafios e a realidade prática de cada área, oferecendo um guia realista para quem está prestes a decidir seu caminho profissional.

Clery conta que sempre gostou do contato direto com as pessoas e decidiu cursar medicina ainda na adolescência. Antes disso, chegou a considerar direito e psicologia, mas percebeu que queria uma profissão com maior proximidade dos pacientes.

A escolha pela pediatria aconteceu durante a faculdade. Já a neonatologia surgiu pela afinidade com a assistência à gestante e ao recém-nascido. "Sempre gostei muito da assistência à gestante e queria fazer algo interligado. Foi assim que escolhi a neonatologia dentro da pediatria", explica.

Clery Bernardi Gallacci I Arquivo pessoal

Clery Bernardi Gallacci I Arquivo pessoal

Como é a rotina de um neonatologista

Os dias começam cedo. Clery inicia a rotina às 5h45 e passa a manhã no hospital, onde coordena um setor de neonatologia. À tarde, divide o tempo entre atividades acadêmicas e atendimento em consultório. Duas vezes por semana, reserva parte da agenda para cuidar da própria saúde.

Na prática, a carga de trabalho gira em torno de 48 horas semanais, além de plantões ou atividades em alguns fins de semana.

Segundo a médica, um dos maiores desafios não está apenas na assistência aos pacientes, mas em organizar a agenda para conciliar os diferentes papéis da profissão. "O maior desafio é coordenar a agenda, porque a medicina exige um grande sacerdócio", afirma.

Cuidar de quem ainda não consegue falar

Uma das características mais marcantes da neonatologia é atender pacientes que ainda não conseguem expressar sintomas ou desconfortos verbalmente. Com a experiência, explica Clery, o médico aprende a reconhecer sinais clínicos e comportamentais que indicam alterações no estado de saúde do recém-nascido.

Entre os atendimentos mais frequentes estão orientações sobre aleitamento materno, avaliação do desenvolvimento infantil e acompanhamento dos primeiros dias de vida. Ela destaca, ainda, que o envolvimento da família faz parte do tratamento. "O papel dos pais é participar e cuidar da vida dos filhos."

Os desafios emocionais da especialidade

Apesar de lidar diariamente com recém-nascidos, Clery afirma que nunca encarou a carga emocional como um peso, justamente porque gosta da área que escolheu. Ao longo da carreira, aprendeu também a enfrentar situações críticas.

Conseguir salvar e cuidar de vidas tão frágeis foi o que mais me surpreendeu quando comecei na especialidade. Clery Bernardi Gallacci

Segundo ela, existe um mito de que o médico é um herói capaz de resolver qualquer situação. Na prática, a profissão exige trabalho em equipe, preparo técnico e atualização permanente.

Vale a pena seguir pediatria com especialização em neonatologia?

Mesmo após décadas de atuação, Clery afirma que escolheria a especialidade novamente. O que a mantém motivada é acompanhar a evolução científica da neonatologia e perceber o impacto do cuidado prestado desde o início da vida.

Ela reconhece que a pediatria, no geral, ainda é menos valorizada financeiramente do que outras áreas médicas, mas afirma que é possível construir uma carreira estável e confortável.

Para quem pretende seguir esse caminho, deixa um conselho simples. "Escolha a área de que você realmente gosta. A medicina é uma profissão para a vida toda, e somente assim será possível trabalhar com realização e fazer diferença na vida.