
Vivências universitárias na Medicina moldam médicos mais preparados
Divulgação/Arquivo pessoal
A formação médica não acontece apenas nas salas de aula, laboratórios ou hospitais. Cada vez mais, evidências e relatos acadêmicos indicam que a vivência universitária, incluindo atléticas, centros acadêmicos, ligas e congressos, exerce papel estratégico no desenvolvimento de competências essenciais à prática clínica, como comunicação, liderança e trabalho em equipe.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) identificou que estudantes de cursos da área da saúde que participam de atividades acadêmicas extracurriculares apresentam melhor desempenho em disciplinas fundamentais do currículo (Bioquímica e Fisiologia Humana).
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Habilidades socioemocionais, como empatia, cooperação e gestão de conflitos, estão entre os atributos mais valorizados em profissionais da saúde e devem ser estimuladas ainda na graduação. Assim, a participação em atividades extracurriculares está associada a melhor adaptação emocional e maior engajamento acadêmico entre estudantes de Medicina.
Na prática, essas experiências funcionam como extensão do treinamento clínico. Organizar eventos, coordenar equipes esportivas ou liderar projetos exige tomada de decisão rápida, comunicação objetiva e responsabilidade coletiva, competências diretamente aplicáveis ao cotidiano hospitalar.
É o que relata Giovanna Torres de Sales, 27, estudante do 9º semestre de Medicina. Com trajetória intensa em atlética, ligas acadêmicas e organização de congressos, ela afirma que a vivência fora da sala de aula transformou sua postura profissional. “Assumir responsabilidades e lidar com imprevistos me ensinou liderança e comunicação clara. Hoje percebo diferença nas apresentações clínicas e no contato com pacientes”, diz.
Giovanna presidiu a atlética de sua instituição de ensino, integrou comissões organizadoras de eventos e participa de modalidades esportivas desde 2022. Segundo ela, a rotina exigiu planejamento rigoroso, mas trouxe ganhos concretos. “Durante estágios, já precisei mediar conflitos e me posicionar. Nessas horas, ficou evidente que as habilidades desenvolvidas nas atividades extracurriculares fizeram diferença.”

Giovanna Torres de Sales I Divulgação/Arquivo pessoal
Para ela, em um curso tradicionalmente conhecido pela alta carga horária e intensa cobrança, atividades como atléticas, instituições de ensino e eventos científicos desempenham um papel que vai além de “relaxar a cabeça”: contribuem diretamente para o desenvolvimento de competências essenciais à prática clínica.
“Participar de uma atlética, por exemplo, exige organização, responsabilidade coletiva, força, amor pelo esporte, tomada de decisão e gestão de conflitos, habilidades que dialogam diretamente com a dinâmica de equipes multiprofissionais na saúde”, enfatiza.
Giovanna pondera que a integração social não deve ser tratada como lazer supérfluo, e sim como componente formativo. “Eventos acadêmicos e científicos ampliam o networking, estimulam protagonismo e desenvolvem segurança na exposição pública, aspecto fundamental na relação médico-paciente”, opina.
“Muitas vezes, há a ideia de que quem participa de atividades extracurriculares ‘estuda menos’ ou não prioriza a graduação. No entanto, pela minha experiência, essa percepção não corresponde à realidade. O engajamento em atividades paralelas me trouxe discernimento para entender nossa posição dentro da Medicina”, relata.
Muito além da sala de aula
Segundo estudo acadêmico brasileiro publicado na Revista Internacional de Educação Superior (RIESup), a formação universitária deve ser compreendida como um processo amplo de desenvolvimento integral do estudante, que envolve tanto atividades curriculares quanto experiências complementares.
Para Giovanna, a universidade é um espaço de crescimento técnico e humano. Essas experiências não formam apenas médicos melhores, mas pessoas melhores. “O engajamento nessas atividades não reduz o desempenho. Com organização e propósito, essas experiências se complementam e ampliam a maturidade profissional”, reforça.
Ela relata ainda que participar dessas atividades a tirou da zona de conforto. “Assumir responsabilidades, organizar equipes, organizar eventos, lidar com imprevistos e trabalhar em equipe exigiu de mim postura, comunicação clara e capacidade de liderança”, diz.
Hoje, Giovanna afirma que percebe o quanto evoluiu na forma de se expressar, principalmente em apresentações de casos clínicos e no contato com pacientes. “Minha confiança aumentou de maneira significativa pela experiência que vivi nesses últimos cinco anos”, afirma.
Para conseguir conciliar uma rotina intensa de estudos com as atividades da atlética e dos eventos, a estudante pontua que o planejamento é essencial. “Estabeleço prioridades e valido o quanto a atividade esportiva me traz calma e lazer em semanas de prova.” Ela complementa que já recebeu feedbacks positivos de professores e supervisores sobre sua postura, comunicação e capacidade de liderança. “Esses retornos me mostram que essas experiências realmente impactam minha prática acadêmica e profissional”, finaliza.
