
Modelo digital amplia o acesso à saúde, mas exige novas habilidades e não substitui o atendimento presencial
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A expansão da telemedicina no Brasil tem redesenhado o mapa do acesso à saúde. Em um país marcado por desigualdades regionais históricas, o atendimento remoto surge como uma alternativa concreta para aproximar pacientes de especialistas, independentemente da localização.
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Na prática, esse movimento já é percebido no dia a dia dos consultórios. A pneumologista Eloara Campos afirma que, hoje, consegue atender pacientes de diferentes regiões do país e até brasileiros que vivem no exterior. A mesma realidade é observada pela geriatra Cristiane Vasconcellos, que atua com idosos em áreas rurais. Segundo ela, a telemedicina reduz deslocamentos longos e custos para as famílias, além de agilizar o início do cuidado.
Apesar do avanço, o modelo ainda esbarra em limitações estruturais. O acesso à internet de qualidade, a disponibilidade de equipamentos e o letramento digital seguem como barreiras importantes. Na avaliação dos especialistas, sem políticas de inclusão digital, a tecnologia pode, paradoxalmente, reforçar as desigualdades que pretende combater.
Formação médica não acompanha avanço da telemedicina
Esse cenário de transformação também evidencia um descompasso preocupante na formação médica. Embora a telemedicina já faça parte da rotina de atendimento, a maioria dos profissionais não recebeu preparo formal durante a graduação. A adaptação, segundo os entrevistados, ocorreu de forma prática, impulsionada principalmente pela pandemia.
“Existe uma lacuna importante. Os futuros profissionais saem sem preparo para esse cenário”, afirma Cristiane Vasconcellos. A ginecologista Fernanda Torras reforça a percepção: “Foi um processo de adaptação, sem formação específica."
Há, no entanto, sinais de mudança. O cardiologista e professor universitário da disciplina de Telessaúde na Faculdade Santa Marcelina, Jamil Cade, aponta que algumas instituições começam a incorporar conteúdos como telessemiologia, ética digital e proteção de dados à formação médica, ainda que de forma pontual.
Entre a tecnologia e o cuidado: o desafio da humanização
Ao mesmo tempo em que amplia o acesso, a telemedicina impõe desafios à qualidade do cuidado. A principal limitação está na ausência do exame físico, etapa essencial em muitos diagnósticos. “Há situações em que o atendimento remoto não substitui o presencial, especialmente em casos agudos”, explica Eloara Campos.
Ainda assim, especialistas defendem que a humanização é possível e indispensável, mesmo no ambiente digital. Escuta ativa, comunicação clara e empatia passam a ser competências centrais para garantir um atendimento eficaz. “O paciente precisa se sentir ouvido, mesmo à distância”, afirma Fernanda Torras.
Na psiquiatria, onde o vínculo é parte fundamental do tratamento, o desafio é ainda mais evidente. Para o psiquiatra Gustavo Estanislau, a tecnologia deve funcionar como ponte, e não como substituta da relação médico-paciente.
Além das mudanças na prática clínica, a telemedicina também impacta diretamente a carreira médica. O modelo amplia possibilidades de atuação, permite maior flexibilidade de agenda e abre espaço para novos formatos de trabalho, como plataformas digitais e atendimentos híbridos.
Telemedicina muda a rotina e amplia possibilidades de carreira
Por outro lado, exige um novo conjunto de habilidades. Domínio de ferramentas tecnológicas, comunicação digital eficiente, organização da consulta e conhecimento em segurança de dados passam a ser requisitos cada vez mais relevantes. “O médico precisa saber identificar rapidamente os limites do atendimento remoto”, afirma Jamil Cade.
Diante desse cenário, há um consenso entre os especialistas: o futuro da medicina será híbrido. A telemedicina não substitui o atendimento presencial, mas se consolida como uma ferramenta complementar, capaz de ampliar o alcance e a eficiência do cuidado.
Para o estudante de medicina, os especialistas reforçam que, mais do que dominar conteúdos técnicos, será necessário desenvolver competências digitais, capacidade de adaptação e, sobretudo, preservar o elemento mais essencial da profissão: a relação humana.
Em um sistema de saúde cada vez mais conectado, o desafio não é apenas acompanhar a tecnologia, mas utilizá-la para cuidar melhor.
