Carnaval

Há 20 anos, Tijuca era rebaixada com enredo sobre o Vasco

Não julgaram a escola. Julgaram o Vasco e o Eurico, detona Horta, presidente da agremiação

ROMULO TESI

09/02/2018 • 11:34 • Atualizado em 12/03/2019 • 10:43

Unidos da Tijuca chegou a ser rebaixada pelo enredo polêmico

Unidos da Tijuca chegou a ser rebaixada pelo enredo polêmico

Divulgação/Unidos da Tijuca

Vindo de São Januário, o carro forte para em frente ao barracão da Unidos da Tijuca. Dele saem vários troféus, conquistados pelo Vasco nos seus 100 anos de glórias esportivas. Com o cuidado que o tesouro merece, homens levam as taças para o interior do recinto, onde o desfile sobre o centenário do Gigante da Colina, completado em 1998, é preparado pelo carnavalesco Oswaldo Jardim. Bem ao seu estilo expansivo, o então vice-presidente de Futebol do clube, Eurico Miranda, comanda pessoalmente a operação e, segundo relatos, praticamente decide a disposição dos troféus sobre o carro "Futebol, Vitórias e Muito Orgulho".

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A cena foi relatada à reportagem por uma testemunha, que vivenciou a preparação do desfile (e pediu para não ter o nome revelado), que acabou num polêmico rebaixamento da escola.

Eurico é, inclusive, apontado por uma parcela dos críticos do dirigente como um dos responsáveis pela queda, simplesmente pela antipatia que despertava dentro e fora do universo da bola. No samba, ao que parece, a fumaça do charuto incomodou muita gente.

"Foi a maior injustiça que já houve no Carnaval. Não julgaram a escola. Julgaram o Vasco e o Eurico", dispara, 20 anos depois, o presidente da Tijuca, Fernando Horta.

Português, Horta foi aliado de Eurico até meados do ano passado, quando a política vascaína colocaram as duas figuras em lados apostos. O dirigente do samba, inclusive, ao se tornar candidato à presidência, tornou-se um dos maiores críticos de Eurico.

"Ele ainda criou uma confusão na pista e ganhou a antipatia do público", relembra Horta, citando uma briga entre Eurico e jornalistas na avenida, durante o desfile. O dirigente veio à frente da escola, distribuindo gritos e ofensas, numa cena que está registrada pelas emissoras de TV que transmitiram a apresentação, penúltima da segunda-feira de Carnaval, na madrugada do dia 24 de fevereiro.

Estácio e Flamengo

A ideia de fazer o enredo - batizado como De Gama a Vasco, a epopeia da Tijuca - partiu do presidente Horta, segundo o próprio. A reportagem apurou que outra escola do Grupo Especial tentou fazer a homenagem ao Vasco no mesmo ano, mas esbarrou na insistência do dirigente português, além da proximidade com o clube e o todo-poderoso vice de Futebol.

A decisão de se homenagear um clube de futebol no Carnaval já era uma ousadia para a época, ainda que num enredo que misturava a história do navegador português que batiza o clube. Tudo pelo temor de que os jurados deixem suas paixões clubísticas falaram mais alto.

Três anos antes, o Estácio já havia feito o mesmo que a Tijuca, na comemoração aos 100 anos de fundação do Flamengo. O desfile, considerado apenas mediano, valeu um frio 7º lugar, sem polêmicas ou grandes questionamentos. Mas, dentro da escola, teve quem não aprovasse.

"Alguns ritmistas não quiseram desfilar", lembra mestre de bateria, o vascaíno Ciça, que precisou contornar uma iminente crise entre os torcedores rivais do Flamengo.

"Fui levando no papo, na conversa. Mas não consegui convencer todos, e alguns não desfilaram", relembra Ciça, que não esconde: torceu o nariz.

"O Estácio é minha escola, onde me criei, onde moro. Mas quando o presidente me falou do enredo, perguntei se ele estava maluco", conta o sambista, que colocou a paixão pela agremiação em primeiro lugar. Um problema que ele não teve três anos depois.

"Aí foi muito mais fácil para mim. Mas teve gente que não quis desfilar também. Não foi fácil fazer flamenguistas tocarem um samba que exalta o Vasco", conta Ciça.

"Samba é um legado"

O samba-enredo é uma história à parte na saga tijucana para 1998. Com um refrão forte, a obra assinada por Adalto Magalha, Serginho do Porto (também puxador, hoje no Estácio), Márcio Paiva e Adilson Gavião enfrentou uma disputa acirrada. O que não ninguém esperava era que fosse cair no gosto da torcida. O rebaixamento na avenida não estigmatizou a música, entoada até hoje nas arquibancadas. "Foi um legado que a Tijuca deixou para o Vasco", afirma Horta.

Em 1997, o Vasco vivia grande fase no campo. Edmundo era a estrela do timaço que ganharia Campeonato Brasileiro daquele ano e colocaria o clube na Copa Libertadores em pleno centenário. O efeito pôde ser sentido na quadra, quase sempre lotada. Tanto que, para alguns tijucanos ouvidos pela reportagem, o marco do crescimento da escola foi em 1998, em um processo que culminaria no vice-campeonato de 2004, com a chegada do carnavalesco Paulo Barros.

Acostumada a ter que procurar componentes para desfilar, naquele Carnaval de 1998 faltou lugar diante da alta demanda de vascaínos. Houve até uma cena de pirraça no barracão, protagonizada por um torcedor-mirim, ao saber que as fantasias estavam esgotadas. Depois de muito choro e gritaria, a diretoria conseguiu uma roupa para o menino. "O enredo atraiu muita gente para escola, que passou ter muitos adeptos no Brasil inteiro", diz Horta.

O desfile estava cercado de expectativa. Muitos jogadores e ex-atletas do clube reforçaram a Tijuca, inclusive o salgueirense Edmundo, recém-vendido para a Fiorentina. Perguntado em frente ao Setor 1 se voltaria ao Gigante da Colina, o Animal disse que não sabia, e completou: "só sei que amo o Vasco". Isso após menos de dois meses de selar sua transferência para a Itália, o que dá uma ideia da euforia vivida na ocasião.

Nas arquibancadas, tremulavam muitas bandeiras da escola com o símbolo vascaíno, mas, nos camarotes, algumas flâmulas do Flamengo provocavam.

Seguranças armados

Na pista, a preocupação estava no carro que levava os troféus. Foram contratados cerca de 30 seguranças para acompanhar a alegoria durante todo o percurso. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo da época, os homens, todos policiais, estavam armados. Indagados sobre a ilegalidade do porte de arma fora do exercício da função, um agente respondeu: "Se acontecer alguma coisa com os troféus resolveremos no braço mesmo".

As taças, incluindo o condor do Sul-Americano de 1948, foram levadas de volta ao barracão após o desfile, onde ficariam guardadas até que se soubesse se a escola voltaria no Sábado das Campeãs. O rebaixamento não era sequer cogitado, como se vê.

"Não sei o que houve, mas acho que não merecia cair. Talvez tenham julgado o Eurico", diz Ciça, mais comedido, bem diferente do presidente.

"Foi uma surpresa. Nós eramos apontados como um dos favoritos", diz Horta, até hoje inconformado com o 13º lugar e os jurados.

"Tinha julgador que não gostava do Vasco, que era flamenguista, e que levou para o lado pessoal, e julgou como se fosse time de futebol, não uma escola de samba", acusa o português, que não se arrepende de ter apostado no enredo.

"Jamais! Espero ter a oportunidade de repetir a homenagem, talvez nos 130 anos", declara.