Resumo
Declaração de Alisson sobre hábito de leitura no futebol brasileiro revela que a maioria dos atletas não lê, refletindo uma realidade nacional onde mais da metade da população se considera não leitora.
Exemplos como Wallace e Casagrande destacam o impacto positivo da leitura na clareza de jogo e na resistência política durante a ditadura, respectivamente, enquanto incentivam outros atletas a adotar o hábito.
Iniciativas como o Projeto Abasile na Chapecoense promovem a leitura entre jovens atletas, mostrando que é possível unir esporte e crescimento intelectual para formar jogadores mais completos.
Na última Data Fifa, durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo, o goleiro Alisson levantou um tema pouco debatido no futebol brasileiro. Ao comentar sobre o hábito de leitura entre atletas, afirmou que “a maioria não lê nada” e que esse é um ponto que precisa melhorar. A declaração abriu espaço para um debate que vai muito além das quatro linhas e que reflete a realidade do país. Um levantamento divulgado no fim do ano passado revelou que mais da metade da população brasileira se considera não leitora.
Atletas e ex-atletas que cultivam o gosto pelos livros apontam que o problema é estrutural. A falta de incentivo desde cedo, a rotina intensa de jogos e viagens e o deslumbramento com a vida profissional contribuem para que a leitura fique em segundo plano. Wallace, ex-Flamengo e Corinthians, hoje no Londrina, admite que só neste ano já leu 40 livros e até lançou sua própria obra. Para ele, o hábito ajuda não apenas a ampliar horizontes, mas também a “ler” o jogo com mais clareza e encontrar formas de inspirar outros atletas.
Paixão pela literatura e exemplos inspiradores
Casagrande, ídolo do Corinthians e da Seleção nos anos 80 e 90, é exemplo de ex-atleta que fez da leitura parte fundamental da carreira e da vida. Autor de três livros, ele relembra que sua geração de jogadores tinha forte ligação com a cultura e a política, especialmente no período da ditadura militar, quando buscar conhecimento nos livros era uma forma de resistência. Hoje, nomes como Gustavo Scarpa, do Atlético-MG, mostram que o hábito continua vivo. O meia não só lê como compartilha resenhas e análises em suas redes sociais, incentivando fãs e colegas.
Leitura como ferramenta de formação no futebol
Na base da Chapecoense, o volante Cauã Godói relata que ler o ajudou a desenvolver foco e determinação, habilidades essenciais também para o desempenho em campo. O Projeto Abasile, implantado no clube, promove leituras coletivas, debates e até levou os jovens atletas a escreverem um e-book próprio. O objetivo é claro: formar jogadores mais preparados, não apenas fisicamente, mas também intelectualmente.
Veteranos que incentivam a nova geração indicam obras que marcaram suas vidas, como a biografia do tenista André Agassi ou livros que unem futebol, história e cultura, como “Aqueles Olhos Verdes”, de José Trajano. A lógica é simples: para atrair o jogador à leitura, é preciso começar pelo que ele mais gosta — o próprio futebol. Assim, bola e livro podem caminhar juntos, derrubando estereótipos e mostrando que o esporte também é um caminho para o crescimento cultural e intelectual.

