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O dia em que Neto entrou no Carandiru para jogar bola

Apresentador do Os Donos da Bola recorda partida disputada com detentos um ano antes do massacre que marcou a história

Da redação
DA REDAÇÃO

08/08/2025 • 17:51 • Atualizado em 08/08/2025 • 17:51

Em 1991, o então camisa 10 do Corinthians, José Ferreira Neto, viveu uma experiência única e inesquecível: disputar um amistoso dentro da Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. O episódio, que aconteceu um ano antes do massacre que matou 111 presos, ficou marcado como um raro momento de alegria no presídio mais temido do país.

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O Carandiru, construído há cerca de um século para ser um presídio modelo com capacidade para 3.250 detentos, chegou a abrigar mais de 8 mil. Dentro de seus muros, a rotina era marcada pela tensão, pelo medo e pela convivência com presos de todos os perfis — desde pessoas de boa conduta até criminosos de alta periculosidade. Quando a notícia de que Neto, ídolo do futebol brasileiro, jogaria com os detentos se espalhou, a expectativa tomou conta dos pavilhões.

O dia em que o futebol parou o Carandiru

No dia da partida, cerca de quatro mil presos se reuniram ao redor do campo improvisado, enquanto apenas cerca de 20 agentes faziam a segurança. Para os internos, não importava se Neto jogava no Corinthians, São Paulo ou qualquer outro clube. “É o Neto que está vindo”, lembram. A ligação com o alvinegro, no entanto, tinha peso especial, já que o Pavilhão 9 — torcida organizada que nasceu no presídio — havia sido criado um ano antes.

O jogo teve momentos de descontração, como quando o craque cobrou uma falta e a bola acertou o prédio do pavilhão atrás do gol. “Se essa bola pega na cabeça de alguém, era traumatismo craniano na hora, e aqui dentro não tinha assistência médica”, contou um dos detentos. Mesmo em um ambiente tão hostil, Neto foi recebido com respeito e carinho, sendo protegido e homenageado por quem o via como mais que um jogador — mas como alguém que olhou para os presos de igual para igual.

O amistoso terminou sem que o resultado fosse o mais importante. O que ficou foi a lembrança de um dia em que a prisão mais temida do país parou para sorrir. Anos depois, ex-detentos ainda relatam a gratidão por aquele gesto. “Independente do time, você mostrou humanidade”, disse um dos ex-presos. Neto garante que, se tivesse a chance, repetiria a experiência: “Jogar bola? Com o maior prazer.”