O choro de Fátima não vem da derrota, mas da batalha diária. Aos 64 anos, a judoca que mora em uma pensão na zona oeste de São Paulo é exemplo de resistência, disciplina e amor ao esporte. Conhecida pelos alunos como Sensei Fátima — ou simplesmente Fatimão —, ela acumula mais de mil medalhas e 16 títulos mundiais, mas ainda enfrenta desafios fora do tatame, desde o preconceito até a busca por patrocínio.
A rotina de Fátima é marcada por pequenos trabalhos que ajudam a custear sua sobrevivência e as viagens para competições. Faxinas, passeios com cachorros e rifas fazem parte do dia a dia, além de treinos intensos e aulas de judô que ministra com dedicação. "Eu sou uma mulher batalhadora, que não depende de ninguém. Às vezes cansa, mas eu sigo em frente", conta.
Medalhas conquistadas entre sacrifícios
A trajetória da judoca é feita de histórias de superação. Em Frankfurt, em 2011, sobreviveu recolhendo garrafas plásticas para trocar por moedas e conseguir se alimentar, voltando para o Brasil com a medalha de ouro no peito. Em Abu Dhabi, em 2023, levou macarrão instantâneo na mala para garantir as refeições durante o torneio — e voltou com a prata.
Mesmo em meio a tantas dificuldades, Fátima coleciona feitos históricos. Já lutou em 19 países, disputou 16 mundiais e trouxe para casa medalhas de ouro, prata e bronze. O orgulho não a faz esquecer dos obstáculos: "Teve gente que riu de mim, porque eu estava torta, com bengala. Disseram que eu não ia trazer nada. Ganhei em 30 segundos", lembra.
O sonho de ser técnica
Formada em Educação Física, Fátima sonha em se tornar treinadora oficial de judô. "A minha vida é isso, é chegar a ser técnica. Eu só peço uma oportunidade", desabafa. Para os alunos, a força da professora vai além das técnicas no tatame: "Ela é uma guerreira, um exemplo dentro e fora do dojô", destaca um dos pupilos.
Enquanto enfrenta as dores físicas — aguarda há anos por tratamento no SUS — e as dificuldades financeiras, a judoca mantém firme o objetivo de continuar competindo. O próximo desafio é em Paris, em novembro, onde pretende buscar mais uma medalha e, quem sabe, conquistar também o reconhecimento que tanto merece.
Com mais de mil conquistas no currículo, Fátima segue de cabeça erguida, disposta a mostrar que a luta não termina quando o relógio para. Para ela, cada queda é apenas mais uma chance de levantar.

