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Casares abre mão de cargo no São Paulo e pede desligamento; entenda

Ex-presidente solicitou saída do quadro social, renunciou ao cargo de conselheiro e divulgou uma carta aberta antes de audiência na Comissão de Ética

Matheus Gavazzi
MATHEUS GAVAZZI

29/07/2026 • 17:59 • Atualizado em 29/07/2026 • 18:08

Resumo

Julio Casares pediu desligamento do quadro social do São Paulo e renunciou ao cargo de conselheiro antes da audiência da Comissão de Ética. O ex-presidente afirmou que não teve acesso aos documentos necessários para exercer sua defesa.

Na carta divulgada, Casares criticou a condução do processo, falou em perseguição política e disse que decidiu deixar o clube para preservar sua saúde, sua família e sua dignidade.

O ex-dirigente também defendeu sua gestão, destacou as conquistas esportivas e financeiras do período em que presidiu o São Paulo e afirmou que concentrará sua defesa na Justiça, mantendo o vínculo com o clube apenas como torcedor.

Julio Casares pediu desligamento do quadro social do São Paulo e renunciou ao cargo de conselheiro do clube às vésperas da audiência na Comissão de Ética que analisaria sua permanência como associado e conselheiro vitalício. O ex-presidente comunicou a decisão por meio de uma carta, na qual afirmou que não teve acesso aos documentos necessários para exercer sua defesa.

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Segundo Casares, o pedido foi protocolado antes da sessão marcada para esta sexta-feira. Com isso, ele deixa voluntariamente tanto o quadro social quanto o Conselho Deliberativo do clube.

Na manifestação, o dirigente também criticou a condução do processo e afirmou que passou a enfrentar um ambiente de perseguição política dentro do São Paulo.

Por que Casares pediu o desligamento

Na carta, Casares afirma que não compareceria à audiência da Comissão de Ética porque, segundo ele, o São Paulo não disponibilizou documentos considerados essenciais para sua defesa. O ex-presidente sustenta que a falta desse material compromete o direito ao contraditório e à ampla defesa.

Além de solicitar o desligamento do quadro social, Casares informou que renunciou ao cargo de conselheiro. Segundo ele, a decisão busca preservar sua trajetória no clube diante do que classificou como um processo sem as garantias necessárias.

A audiência da Comissão de Ética estava prevista para analisar a situação do ex-presidente como associado e conselheiro vitalício. Com o pedido de desligamento apresentado antes da sessão, o caso passa a ter um novo desdobramento, enquanto Casares afirma que concentrará sua defesa nas esferas competentes e seguirá como torcedor do São Paulo.

Julio Casares, ex-presidente do São Paulo I Foto: Rubens Chiri/São Paulo FC

Julio Casares, ex-presidente do São Paulo I Foto: Rubens Chiri/São Paulo FC

Carta de Julio Casares

Depois de muita reflexão, comunico meu desligamento do quadro associativo e das cadeiras nos Conselhos Deliberativo e Consultivo do São Paulo Futebol Clube.

É uma decisão difícil, tomada em respeito à minha saúde, à minha família e à necessidade de preservar a minha dignidade, sem jamais deixar de acreditar no futuro desta instituição.

Escrevo estas palavras com profunda tristeza. Não porque deixo de amar esta instituição — esse sentimento permanecerá para sempre —, mas porque me vejo obrigado a encerrar um ciclo que jamais imaginei que terminaria dessa forma.

Levarei comigo as lembranças dos anos dedicados a este clube, das pessoas que conheci, dos projetos que ajudei a construir e a convicção de que sempre procurei agir com honestidade, respeito e dedicação. Infelizmente, nos últimos tempos, esses valores deram lugar a um ambiente marcado por perseguições, ataques pessoais, desgaste emocional e uma política em que a disputa pelo poder passou a valer mais do que a justiça e o interesse do São Paulo Futebol Clube.

É inevitável que muitos me enxerguem como o vilão, acompanhando uma versão dos fatos cuidadosamente construída e continuamente alimentada. Mas afirmo, mais uma vez: essa versão não corresponde à verdade.

Existe uma reflexão que diz que "uma mentira repetida inúmeras vezes acaba sendo aceita como verdade por quem apenas a escuta". É exatamente isso que tenho visto acontecer. A manipulação e a injustiça não atingem apenas a mim; elas alcançam cada torcedor, associado e pessoa de boa-fé que passou a acreditar em uma história construída para atender interesses muito distantes dos princípios que deveriam nortear esta instituição.

Respeito o direito de cada um formar sua opinião, mas peço apenas que nunca deixem de colocar os fatos acima das versões e a verdade acima de qualquer conveniência.

"Uma injustiça feita a um só é uma ameaça feita a todos." Essa frase traduz o sentimento que levo comigo neste momento.

Assim como a Constituição assegura a todos o direito ao contraditório e à ampla defesa, lamento profundamente não ter tido, em diversos momentos, a oportunidade de exercer esse direito da forma como deveria. Não tive sequer acesso aos documentos que comprovam minha inocência, apesar de tê-los solicitado reiteradamente, inclusive recentemente, às vésperas de uma audiência já marcada. Documentos estes que permanecem arquivados no próprio clube. O direito de defesa é um dos pilares da democracia brasileira. No entanto, infelizmente, parece não fazer parte dos ritos da política do São Paulo Futebol Clube. Isso não é justiça; é um ajuste de contas com data marcada.

Vi minha honra ser questionada, minha família ser atingida e minha saúde ser colocada à prova. Nenhum cargo ou posição justifica o preço que pessoas inocentes acabam pagando quando a política perde seus limites.

Também considero importante recordar que nunca fiz da presidência um projeto pessoal. Tornei-me candidato em 2020 atendendo a uma vontade coletiva de sócios, conselheiros e diferentes grupos políticos que entendiam ser aquele o momento de construir um novo caminho para o São Paulo Futebol Clube. Antes disso, recusei os convites para disputar a presidência em 2014 e novamente em 2017. Aceitei esse desafio apenas quando compreendi que havia uma convergência em torno de um projeto para o clube, e foi com esse espírito de serviço que exerci cada dia do mandato.

Saio com dor no coração, mas com a tranquilidade de quem sabe que fez o melhor pelo São Paulo Futebol Clube. Tive a honra de participar de um dos períodos mais marcantes da história recente do clube: a conquista de três títulos, sendo um deles inédito na galeria tricolor, mesmo diante de uma grave crise financeira e enfrentando adversários de enorme poder econômico, como Palmeiras e Flamengo. Somam-se a isso as conquistas do bicampeonato da Copa do Brasil e da Copinha Sub-20.

Os títulos, a quebra de um longo jejum, os recordes de receita e de público no Morumbi, as obras realizadas no entorno do estádio e tantas outras conquistas permanecerão para sempre na minha memória. São fatos que reforçam a certeza de que todo o trabalho, dedicação e sacrifício valeram a pena.

Esses resultados são públicos, auditados e não deixam margem para reinterpretações de conveniência.

E aqui está o que mais me dói registrar: toda essa gestão — balanços, contratos, decisões financeiras e operacionais — foi aprovada, ano após ano, pelas mesmas instâncias que hoje tratam essas mesmas escolhas como prova de irregularidade. O que era prática de gestão validada dentro dos ritos corretos não pode, anos depois, transformar-se em acusação para atender a disputas internas de poder.

Da mesma forma, todos os reembolsos de despesas realizados durante minha gestão observaram rigorosamente os procedimentos internos do clube, com prestação integral de contas, documentação correspondente e aprovação pelos setores competentes. É importante registrar esse fato porque, mais uma vez, tenta-se transformar atos administrativos regulares em acusações convenientes.

Por isso, tomo a decisão de me desligar. Faço isso pela necessidade de preservar a minha paz, a minha saúde, a minha família e a minha dignidade, sem jamais deixar de acreditar no futuro do São Paulo Futebol Clube.

Tenho a convicção de que o tempo sempre cumpre o seu papel. Acredito que, quando os fatos forem analisados com serenidade e for possível comparar o antes e o depois, muitos enxergarão uma realidade diferente daquela que hoje prevalece. Talvez alguns tenham, inclusive, a grandeza de rever os seus julgamentos. Não guardo qualquer rancor por isso. Sigo com a consciência absolutamente tranquila de quem conhece a própria trajetória, os valores que sempre defendeu e as realizações que construiu. Quem deixa um legado não precisa se apegar a cargos, títulos ou carteirinhas. As verdadeiras conquistas permanecem registradas na história e na memória daqueles que acompanharam esse trabalho.

A partir de agora, concentrarei minhas energias na minha família, nos meus projetos pessoais e profissionais e, principalmente, na minha defesa. Tenho plena confiança na Justiça e acredito que ela é o único lugar onde os fatos prevalecem sobre versões, onde as provas têm mais força do que interesses circunstanciais e onde a verdade encontrará o seu devido espaço.

Agradeço profundamente a todos que caminharam ao meu lado, confiaram em mim e sempre me julgaram pelos meus atos, e não pelos boatos. Também agradeço pelos inúmeros momentos vividos nesta instituição, que permanecerão para sempre na minha memória.

Despeço-me dos cargos que ocupei, mas jamais do carinho, do respeito e do amor que continuarei tendo por esta instituição e por todos aqueles que verdadeiramente desejam o seu bem.

Saio de cabeça erguida, com a consciência em paz, a fé inabalável na Justiça e a certeza de que nenhuma versão construída é maior do que a verdade.

O São Paulo é sentimento que jamais acabará, como a torcida sempre bem cantou.

Que esta guerra política, que só nos trouxe divisões, mentiras e tanto sofrimento, encontre o seu fim. O São Paulo Futebol Clube merece voltar a ser maior do que qualquer disputa de poder.

Julio Casares

Desde sempre e para sempre, torcedor.

29 de julho de 2026