
Confederações criticam Infantino em carta conjunta
REUTERS/Jennifer Gauthier
Nesta segunda-feira (10), três confederações de futebol divulgaram, em conjunto, uma nota criticando a Fifa e Gianni Infantino, presidente da entidade.
A Uefa (Europa), AFC (Ásia) e a Concacaf (América do Norte, Central e Caribe) falam diretamente à ‘família do futebol’, alegando que o crescimento do futebol nos últimos anos não se deve apenas a uma pessoa, e sim ao esforço de todos.
‘O crescimento na última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de um único indivíduo. Foi fruto da FIFA, das Confederações, das Associações Membro e das milhares de pessoas que dedicam suas vidas ao futebol.’
O comunicado ainda preza por responsabilidade e abertura por parte da Fifa, acreditando que a falta dessas características é algo que o futebol não merece.
‘Há silêncio onde deveria haver responsabilização, e distância onde deveria haver abertura. Estas não são as qualidades que o futebol merece na sua liderança.’
Crise no mundo do futebol
Vale lembrar que a Fifa cancelou a ideia de vender os direitos da Copa do Mundo após parte das confederações considerarem boicotar as próximas edições do mundial.
Mesmo com a desistência, Gianni Infantino foi alvo de críticas, fazendo com que a Fifa divulgasse um comunicado oficial logo após reunião do presidente com funcionários do alto escalão no Marrocos.
Segundo a entidade, Infantino segue tendo o apoio do secretário-geral do conselho de administração e ‘não irá mais tolerar ataques à sua integridade e governança.’
Entretanto, uma carta com pedido de desculpas foi enviada a todas às federações nacionais, com a promessa de que um relatório sobre esse episódio será desenvolvido e apresentado na próxima reunião do Conselho.
Veja a carta conjunta da Uefa, AFC e Concacaf
Queria Família do Futebol,
O futebol é a maior paixão partilhada do mundo. Não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição.
Pertence aos jogadores, aos adeptos, aos clubes, às Federações-Membro e a todas as instituições encarregadas de salvaguardar o seu futuro.
É nesse espírito, na qualidade de confederações que representam os seus membros, que hoje nos pronunciamos colectivamente.
O crescimento registado na última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de uma única pessoa. Foi o resultado do trabalho da FIFA, das Confederações, das Federações-Membro e dos milhares de pessoas que dedicam as suas vidas ao futebol.
A ampliação dos torneios, a atribuição dos Campeonatos do Mundo da FIFA de 2030 e 2034, a distribuição de recursos às federações. Estas foram conquistas partilhadas, acordadas em conjunto e concretizadas em conjunto.
Isto não tem a ver com dinheiro. As Confederações já apelaram a uma distribuição responsável das vastas reservas existentes da FIFA, com vista a reforçar ainda mais o investimento no desenvolvimento das Federações-Membro.
Também não se trata de nenhuma Federação-Membro perder o apoio que conquistou, apesar do alarmismo dirigido aos nossos membros para sugerir o contrário. Nem se trata de rever a expansão das competições, a atribuição de vagas para o Campeonato do Mundo ou quaisquer outras decisões tomadas colectivamente. Essas decisões foram tomadas em conjunto e devem ser mantidas.
Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para o liderar.
A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter - nem de exigir - o poder para o deter. É um dever de serviço para com a família do futebol que a confia.
Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do colectivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado.
A recente carta da FIFA aos seus vice-presidentes e às 211 federações-membro reconhece que foram cometidos erros ao longo do processo. A carta aborda esta situação como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de discernimento. Uma proposta apresentada num prazo apertado, sem uma consulta significativa e levada a cabo antes de as federações-membro poderem analisar devidamente os seus termos, não é fruto de um descuido — é o resultado de uma estratégia destinada a limitar o escrutínio.
Não reconheceu que a proposta em si era intrinsecamente errada. Continua a não haver qualquer reconhecimento de que a tentativa de vender uma participação no Campeonato do Mundo da FIFA constituiu um grave erro de avaliação — não apenas um deslize processual, mas uma quebra fundamental da confiança das próprias instituições que a FIFA existe para servir.
A FIFA comprometeu-se também a apresentar um relatório completo sobre estes acontecimentos ao Conselho da FIFA, deixando mais uma vez de reconhecer que uma governação adequada, face a uma falta de discernimento tão grave, exigiria que tal análise fosse conduzida por uma entidade terceira totalmente independente e não pela própria FIFA, pelo seu pessoal ou por qualquer parte interessada do mundo do futebol. A administração da FIFA não deve desempenhar qualquer papel na condução dessa análise.
Conforme correspondência anterior, todos os documentos e registos relevantes devem ser conservados em conformidade com a comunicação da UEFA sobre a conservação de documentos.
A própria carta da FIFA confirma também que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança em Marrocos. Nenhum membro do Conselho da FIFA nem das Federações-Membro foi convidado a participar. Apenas o comité de gestão, composto por quadros superiores ao serviço da FIFA, esteve presente.
Esta recente reunião, em que um número restrito de membros do Comité de Gestão da FIFA — e não o Comité na sua totalidade — foi convocado no estrangeiro, em vez de os dirigentes se deslocarem a Zurique para se dirigirem ao coração da FIFA, apenas reforça estas preocupações e representa uma continuação do próprio padrão de conduta que nos trouxe até este momento. Não é a conduta de um guardião do futebol, mas sim de alguém que acredita que o futebol lhe deve prestar contas.
Há silêncio onde deveria haver responsabilização, e distância onde deveria haver abertura.
Estas não são as qualidades que o futebol merece na sua liderança. É por isso que assumimos esta posição: não de ânimo leve nem sozinhos, mas em conjunto, e por um sentido de dever para com o desporto que servimos.
A força do futebol sempre residiu na sua unidade. Apelamos a que essa unidade seja agora respeitada e a que haja uma liderança que sirva o futebol, em vez de procurar dominá-lo.
Atentamente,
SALMAN BIN IBRAHIM AL KHALIFA (Presidente da AFC)
VICTOR MONTAGLIANI (Presidente da Concacaf)
ALEKSANDER ČEFERIN (Presidente da UEFA)
DATUK SERI WINDSOR JOHN (Secretário-Geral da AFC)
PHILIPPE MOGGIO (Secretário-Geral da Concacaf)
THEODORE THEODORIDIS (Secretário-Geral da UEFA)
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