
Ultimate Fighting Championship (UFC)
Vincent Carchietta-Imagn Images/ via Reuters
Estar no UFC é, para muitos lutadores, a realização do maior sonho. Mas o que acontece quando o contrato é encerrado, os holofotes se apagam e o atleta precisa viver fora do maior palco do mundo? Em entrevistas exclusivas ao Band.com.br, Luigi Vendramini, Talita Bernardo, Thiago Marreta e Thomas Almeida — quatro brasileiros que viveram extremos dentro do UFC — revelam as alegrias, frustrações e aprendizados de quem já esteve lá e precisou recomeçar, em alguns casos, do zero. As trajetórias deles mostram que, apesar dos desafios, existe vida fora do UFC, e ela pode ser tão ou mais significativa quanto a vivida sob os holofotes.
"O UFC era minha Copa do Mundo", mas “virou pesadelo”
Aos 41 anos, Thiago Marreta já viu de tudo no MMA. Ex-militar, começou tarde no esporte, aos 26, mas foi longe: disputou o cinturão meio-pesado e se manteve no UFC por nove anos. Para ele, entrar no evento mudou tudo. “Era como a Copa do Mundo para mim. Só percebi que dava para viver da luta mesmo depois que entrei no evento”, conta.
Marreta saiu de cabeça erguida, sem ressentimentos. “Tem gente que se apega à fama, ao assédio, à atenção. Quando tudo isso acaba, o cara desmorona. Eu nunca sonhei com a fama. Gosto é de competir, de treinar. Quando a mídia parou, senti até um alívio.”
Já Luigi Vendramini entrou cedo demais. Aos 22 anos, foi chamado às pressas para substituir um adversário faltando dez dias para a luta. Enfrentou um top 10 em uma categoria acima e resistiu até o fim, mesmo lesionado. Mas sua trajetória foi curta e dolorosa.
O UFC era meu maior sonho, mas virou meu maior pesadelo. Entrei rápido demais, sem estrutura, e saí me sentindo um lixo. Parecia que nada do que lutei por dez anos tinha valor. Não tive nem tempo de mostrar quem eu realmente era.
Como é a saída do UFC?

Luigi Vendramini, Talita Bernardo, Thiago Marreta e Thomas Almeida da esquerda à direita
Na maioria dos casos, um lutador do UFC assina um contrato inicial de 4 lutas. Depois, a cada duelo, esse acordo pode ser renovado ou não, de acordo com o desempenho. Talita e Thominhas contaram que não receberam um anúncio da saída, nem tiveram muitas explicações. Não há uma demissão oficial. Mas ambos já sabiam que isso ia acontecer.
“Eu fiz as quatro lutas e, por ter tido uma passagem negativa, já sabia que não haveria renovação. Mas não teve um anúncio oficial pro atleta”, conta Talita, que perdeu três de suas quatro lutas.
Thominhas, que surgiu como grande promessa do MMA brasileiro, também já esperava após emendar quatro derrotas. “O Sean Shelby, que é o responsável por contratar, mandar embora e casar as lutas, conversou com a gente por e-mail e eu entendi. A empresa tem que mostrar resultado. E eu não estava mostrando. Fiquei triste, claro. Não vou falar que não. Mas faz parte.”
Talita admite que não estava pronta para o UFC naquele momento, mas sente que merecia mais chances: “Por muita inexperiência e imaturidade, a gente foi aceitando lutas uma em cima da outra. Tentava tapar buraco, achando que isso ia elevar nosso nome. Nunca neguei luta. Pelo fato de não deixar a luta cair, achei que podia ter uma próxima oportunidade. Mas nunca chegou.”
Vendramini foi demitido após três derrotas em lutas aceitas com pouco tempo de preparação. “Acordei no dia seguinte e pensei: tá, o que eu faço agora? Eu não tenho orgulho da minha carreira no UFC. Eu evito até falar que lutei lá.”
Já Marreta, que disputou cinturão e viveu quase uma década no evento, encarou o fim com mais serenidade. “Nunca tive esse sonho de ser famoso. Eu gostava era de competir. Então, quando acabou a parte da mídia, pra mim foi até um alívio. Posso andar na rua tranquilo, sem assédio.”
Dificuldades fora do UFC

Thomas Almeida
A maioria dos lutadores de MMA não vive só da luta. Eles precisam de outra atividade para garantir renda fixa e, quando lutam, recebem um valor maior acertado com a organização. Por isso, ao saírem do UFC, muitos já têm alguma ocupação para se sustentar.
Mas Talita, formada em Educação Física, saiu em um momento difícil: “Não podia ter sido pior o momento para eu sair do UFC. Porque eu saí em maio de 2019. Por ter sido nocauteada, eu tinha que ficar seis meses sem lutar. Então 2019 acabou. E no início de 2020, quando era pra voltar, teve a pandemia. Fechou tudo e não podia ter aglomeração.”
Sem lutas e sem poder dar aulas em escolas, montou um tatame na garagem para seguir treinando até aparecer oportunidade. Foi assim que voltou, vencendo Lucie Pudilova no Oktagon MMA. Depois conquistou o cinturão do Invicta, mas considera a vitória sobre Pudilova a mais importante, pela dificuldade de retornar após sair do UFC.
Thominhas também teve dificuldade para voltar: “Eu decidi dar uma pausa na minha carreira. Fiquei quatro anos sem lutar, porque eu estava decidindo muitas coisas na minha cabeça. Por cirurgias que passei, derrotas e expectativas. Eu não estava conseguindo pôr em prática aquilo que eu treinava. Então falei: ‘vou dar um passo para trás para rever minha carreira”. Ele só voltou a lutar 4 anos depois, em abril de 2025, com vitória sobre Taylor Moore no Art of Scrap.
Luigi viveu um período de escuridão. Após ser mandado embora, ficou sem motivação para treinar e sem perspectiva. “Treinava jiu-jitsu por diversão, mas nada sério. Foram três anos me reconstruindo. Vi muitos amigos que saíram do UFC entrarem em depressão. O cara perde tudo, não sabe o que fazer. Acorda sem motivação. Foi o que aconteceu comigo.”
Ele ainda critica a falta de estrutura para atletas no Brasil: “Você tenta abrir academia, mas ninguém quer pagar mensalidade. Os atletas mais graduados já não querem mais pagar. Tudo muito difícil. O custo de vida está alto. Vi muitos treinadores passando dificuldade.”
Volta por cima

Talita Bernardo
Apesar das quedas, todos encontraram uma forma de se reestruturar.
Talita ouviu críticas, mas usou isso como combustível, além da motivação da filha. “Eu moro em cidade pequena e muitas pessoas, que não entendem da luta, só criticavam: ‘Sabia que ela não tinha nível para chegar no UFC, sabia que ela não ia conseguir’. Ao invés de motivar, muita gente diz ‘ela chegou e fez vergonha’. Mas eu sentia que podia melhorar e tinha como mostrar que aquilo não caiu no meu colo. Eu queria dar a volta por cima. E o que mais serviu de motivação foi minha filha. Ela acompanhou todo processo. E eu queria provar que ainda era capaz. E agora minha filha tem 12 anos e já me viu lutar, foi no córner e ficou amarradona”.
Thominhas retomou o ritmo competindo em grappling e jiu-jitsu e fez terapia para fortalecer o lado mental. “Estou evoluindo para ser um lutador de MMA completo. Também fiz algum trabalho com psicólogo. Muitos atletas não dão ênfase nisso. Mas é muito importante estar com a cabeça boa, porque ela comanda o corpo todo. Eu não estava conseguiu pela cabeça também”.
Luigi decidiu recomeçar do zero. Mudou-se para a Suíça com uma mochila nas costas, dormindo no sofá de um professor de wrestling. Hoje, dono de uma academia de jiu-jitsu e MMA, vem de três vitórias consecutivas, todas no primeiro round. “Pela primeira vez, estou lutando por mim. Não por necessidade. Isso faz muita diferença.”
Thiago Marreta, mesmo após anos no UFC, também segue competindo, agora em eventos menores.
Enquanto eu tiver saúde e prazer de acordar para treinar, quero continuar. Claro que os objetivos mudam, não penso mais em cinturão, mas ainda quero competir.
Como são as outras organizações
O UFC atrai mais público e paga muito melhor do que outros eventos. Isso é indiscutível. Mas Talita e Thominhas dizem que a organização, para os atletas, é muito parecida. Ambos fizeram elogios imediatos quando foram perguntados sobre o assunto.
“Eu até preciso dar bater palmas para eles porque foi uma estrutura muito parecida. Claro que o UFC é maior. Mas eles trataram os atletas muito bem. A gente não tem que se deslocar muito e foi super bem tratado. Isso fez toda diferença assim. Eu lutei nos Estados Unidos e, como o UFC também é americano, acho que eles devem conhecer pessoas do staff e isso facilita bastante”, explica Thominhas.
Talita reforça que o tratamento é igual, apenas em uma escala menor: “Eles tratam o atleta como uma estrela do evento. E assim como o UFC, não tem distinção entre os atletas. É igual para todo mundo. Claro que o UFC te dá um suporte maior. Dá toda roupa de treino, agasalho e até tênis. No Invicta já ganhei casaco, calça, mas não é o mesmo suporte. É um pouco menor, mas é parecido. E tudo é em um padrão muito bom.”
Já Luigi expõe o lado duro dos convites fora do UFC: “Eles te oferecem 5, 6 mil dólares e te jogam na fogueira. Você é usado para alavancar a carreira de alguém. Eu preferi recusar e recomeçar de outra forma.”
Retorno ao UFC?
Depois que saem do UFC, alguns lutadores conseguem voltar e ter sucesso, mas Talita e Thominhas evitam criar expectativas.
Aos 38 anos, Talita sabe que a idade pesa: “Quando cheguei no cinturão do Invicta, eu achava que ia voltar pro UFC. Porque o Invicta é o maior exportador de mulheres pro UFC. Aí não houve convite. Fiz a defesa, ganhei de novo, não houve convite. Eu realmente acho que estou um pouco acima da faixa etária que eles recontratam. Tem umas meninas de 19, 20 anos que estão voando por aí. Mas estou super satisfeita no Invicta. Renovei o contrato com eles e vou lutar até o corpo pedir pra parar.”
Thominhas, aos 34, também não cria expectativas: “Não fico pensando para não criar expectativas. Claro que todo lutador quer o UFC, não vou ser hipócrita. Mas hoje tem outros eventos legais também.”
Thiago Marreta já não busca voltar. Quer apenas seguir lutando enquanto o corpo permitir.
Luigi, por outro lado, sonha em retornar para realizar o maior sonho de infância:
Hoje, se eu voltar, é pra mim. Não pelo dinheiro, nem pela mídia. Quero ter orgulho da minha carreira, mostrar quem eu sou e sair de lá de cabeça erguida.
Essa é a maior conclusão dos lutadores: seja no UFC ou fora, o importante é continuar trabalhando. Como disse Talita: “Tem algumas meninas que saem do UFC e estão voltando para o Invicta e outros eventos. Sair do UFC não é o fim do mundo. Tem vida fora do UFC. Tem outros eventos em que eu posso mostrar o meu trabalho. As pessoas que saem do UFC são tão focadas em continuar trabalhando que elas não desistem.”

