
John Textor é o retrato das SAFs no Brasil, pois se envolveu em sucessos e polêmicas
Vitor Silva/Botafogo.
Resumo
Lei da SAF, implementada no Brasil em agosto de 2021, resultou na criação de 117 clubes-empresa até o momento. A legislação trouxe tanto investimentos quanto problemas financeiros e de governança para os times, revelando a necessidade de critérios rigorosos na escolha de investidores, segundo a advogada Talita Garcez.
A distribuição das SAFs pelo país mostra uma adesão significativa, com presença em 21 estados, variando entre times de grande e pequeno porte. A maioria das SAFs, no entanto, não compete nas divisões superiores, com apenas 20 clubes nas séries A, B e C.
Apesar dos desafios, alguns clubes como Atlético-MG, Bahia e Cuiabá demonstram sucessos significativos, enquanto outros enfrentam crises financeiras e de identidade.
Especialistas no campo do direito desportivo e de gestão de carreiras de atletas veem a SAF como uma tendência crescente, que demandará ajustes na governança e profissionalização para garantir sustentabilidade e integridade competitiva.
Em agosto de 2021 foi criada a lei da SAF (Sociedade Anônima de Futebol) no Brasil. Quatro anos depois, o país acumula 117 clubes nesse formato de "clube-empresa", de acordo com o Ibesaf (Instituto Brasileiro de Estudos e Desenvolvimento das SAFs). Alguns times conseguiram sucesso dentro de campo, mas outros tiveram resultados ruins. E no aspecto financeiro também aconteceram muitas polêmicas.
Talita Garcez, sócia do Garcez Advogados e Associados, escritório especializado em Direito Desportivo, explica que a lei da SAF trouxe benefícios e problemas: "Ao menos inicialmente houve investimento no futebol, com a chegada de novos atletas e melhora na qualidade do elenco e nos resultados. Entretanto, alguns dos investidores desses clubes acabaram se revelando problemáticos, gerando crises devido ao descumprimento de aportes financeiros, à falta de transparência e à ausência de boas práticas de governança. Esses casos evidenciam a importância de negociações bem conduzidas, investigações prévias e critérios rigorosos na escolha do investidor".
Entre sucessos e polêmicas, as SAFs se espalharam em todas realidades: primeiro os times importantes atraíram os maiores investidores. Depois outras empresas viram potenciais em clubes menores. E assim esse formato se popularizou em quase todo o Brasil: 21 estados possuem pelo menos uma SAF. Só Amapá, Maranhão, Pará, Piauí, Rondônia e Tocantins estão sem SAF por enquanto.
Quantas SAFs existem em casa divisão?
Das 117 SAFs listadas pelo Ibesaf, apenas 20 estão nas 3 divisões estáveis do futebol brasileiro. Veja a lista completa no fim da matéria.
São 6 SAFs na Série A:
Na Série B estão 8 SAFs:
- Amazonas
- Atlético-GO
- Cuiabá
- América-MG
- Athletic Club
- Coritiba
- Ferroviária
- Novorizontino
São 6 SAFs na Série C:
- Botafogo-PB
- Brusque
- Londrina
- Maringá
- Figueirense
- São Bernardo
As outras SAFs estão na Série D, onde os times conquistam vagas a cada ano, ou em divisões de acesso dos campeonatos estaduais.
Cristiano Caús, advogado especializado em direito desportivo e sócio-fundador do CCLA Advogados, explica por que tantas SAFs estão fora de divisões nacionais: "Em primeiro lugar, o processo de aprovação é mais fácil, menos burocrático, pois em geral envolve um quadro associativo menor, menos oposição política, torcedores e divulgação na mídia", diz. "Outro aspecto que ajuda explicar o fenômeno é a ausência de receitas. Comparados aos clubes de maior porte, os times menores não enxergam alternativa além da SAF para atraírem investidores e, consequentemente, dinheiro".
Sucessos e problemas
As principais referências sobre as SAFs estão, obviamente, nos times da Série A. E existem casos de sucessos e problemas.
Atlético-MG e Botafogo se encaixam nas duas descrições. Afinal receberam grandes aportes e disputaram finais em 2024. Mas ambos viveram polêmicas recentes por causa de questões financeiras. O Galo teve atraso de salário, enquanto o Fogão precisa lidar com uma polêmica que envolve o Lyon, John Textor e outros investidores.
Cruzeiro e Bahia vivem momentos melhores. A Raposa saiu da Série B, trocou de dono, chegou na final da Copa Sul-Americana e agora está bem no Brasileirão. O Bahia voltou a disputar Copa Libertadores e está brigando na parte de cima da Série A.
Já o Vasco enfrentou muitos problemas e precisou romper o acordo com a 777. E o Fortaleza, que não conseguiu os investidores que queria na SAF, vive dificuldades na luta contra o rebaixamento.
Para Talita Garcez, os pontos positivos se sobressaem aos negativos: "Os principais pontos positivos da lei são a aceleração da profissionalização do futebol, com o abandono do modelo de gestão amador, e a atração de novos investidores para o setor. Por outro lado, entre os pontos negativos destaca-se a possibilidade de haver um descompasso entre os interesses dos investidores e as expectativas dos torcedores, o que pode, inclusive, resultar em uma perda da identidade do clube. Não menos importante é o fato de que a Lei da SAF prevê a criação de um Programa de Desenvolvimento Educacional e Social, promovendo ações voltadas ao desenvolvimento da educação por meio do futebol".
Claudio Fiorito, presidente da P&P Sport Management Brasil, especializada no gerenciamento da carreira de atletas, sentiu melhorias no futebol brasileiro: "A lei das SAFs trouxe profissionalização e maior transparência aos clubes, facilitando a captação de investimentos e a organização financeira, o que é positivo. Por outro lado, o principal desafio ainda é a gestão: nem todos conseguem estruturar governança eficiente e cumprir as exigências de mercado, o que pode gerar riscos e frustrações".
Nas divisões de acesso também aconteceram sucessos e polêmicas: o Athletic, por exemplo, saiu da Série D e chegou na Série B. Mas recentemente foi notificado na Justiça por causa de uma disputa entre sócios. Em campo, o time começou mal na segunda divisão, mas tem se recuperado.
O Cuiabá é outro caso de time que saiu da Série D e escalou divisões. Fez boas campanhas na Série A e recentemente investiu mais de R$ 50 milhões na construção de um centro de treinamento.
Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá, destaca a entrada de capital no futebol brasileiro por causa da SAF, mas vê necessidade de mais organização: "Na minha visão ainda é só o início desta transformação, com muitas empresas do exterior querendo investir aqui. Ainda é um processo que, pra ficar ainda mais organizado, vai levar de cinco a sete anos, até termos regras mais claras e profissionais do que é hoje".
Entre as 8 SAFs da Série B, apenas Coritiba, Novorizontino e Cuiabá estão na briga pelo acesso atualmente. As outras 5 estão na parte de baixo da tabela.
Na Série C, das 6 SAFs, metade está no G8: Brusque, Londrina e São Bernardo.
"Terceira onda" e o futuro das SAFs
Depois dos investimentos em times grandes e da tendência de SAFs em clubes menores, será que haverá uma "terceira onda"? Cristiano Caús é cauteloso: "Acredito que o cenário atual é de aprendizado: analisar os erros cometidos pelas primeiras SAFs, avaliar como os desafios vêm sendo enfrentados e agir com cautela na constituição das próximas".
Já Cristiano Dresch aposta que futuramente a quantidade será muito maior: "Acredito em 70%, 80% (de times que serão SAFs). Muitos times têm necessidade de virar empresa, incluindo os grandes, que vão precisar desta transformação para sobreviver".
Talita Garcez ressalta que os times não precisam virar SAF para conseguir sucesso: "O futuro dos times não está necessariamente atrelado à transformação em SAF. Entendo que clubes bem administrados, que adotam boas práticas de governança, e que possuem credibilidade com têm potencial para arrecadar receitas diversificadas, só se transformarão em SAF caso encontrem vantagens adicionais nesse modelo — como, por exemplo, benefícios tributários".
Claudio Fiorito lembra da possível criação de uma liga e também vê essa mudança para SAFs como uma tendência. "Isso deve acontecer especialmente com a formação da Liga, que deve ampliar receitas e exigir maior profissionalização para competir em alto nível. O futuro aponta para um futebol brasileiro mais estruturado financeiramente, mas o sucesso dependerá da qualidade da gestão em cada projeto."
Lista das SAFs por estado, de acordo com o Ibesaf:
- AC: Santa Cruz
- AL: VS SAF
- AM: Amazonas e Sete FC
- BA: Bahia, Fluminense de Feira, Galícia, Itabuna, Industrial, Porto Seguro, Sakai e SSA FC
- CE: Clube Nacional do Ceará, Fortaleza e Tirol
- DF: Brasiliense, Capital, Ceilândia, GEB, Real Brasília e Samambaia
- ES: Nova Venécia e Rio Branco
- GO: Abecat Ouvidorense, Grêmio Anápolis, Anapolina, Atlético-GO, Centro Oeste, Itaberaí, Goiânia, Planalto e Rio Verde
- MT: Cuiabá, Novo Mixto e Tangará
- MS: Pantanal
- MG: América-MG, Araxá, Athletic, Atlético-MG, Boston City, Coimbra, Cruzeiro, Ipatinga, Itabirito, North Esporte, Pouso Alegre, Uberaba e Venda Nova
- PB: Botafogo-PB e CSP
- PR: Araucária, Aruko, Azuriz, Cianorte, Coritiba, Guarapuava, Krakatua, Londrina, Maringá, Milionários, P8, Paraná, Paranavaí, PSTC e Rio Branco
- PE: Flamengo-PE e Unibol
- RJ: Boavista, Botafogo, Vasco e Zinzane
- RN: América-RN, Laguna, Quinho e Rio Grande
- RS: Futebol com Vida
- RR: Monte Roraima
- SC: Atlético Hermann, Blumenau, Brusque, Camboriú, Figueirense, Hercílio Luz, Inter de Lages, Núcleo e Tubarão
- SP: América-SP, Araçatuba, Atlético Paulista, Bom Jesus dos Perdões, Capivariano, Catanduva, EC São Bernardo, Ferroviária, Guaratinguetá, Juventude, Lemense, Meia Noite, Noroeste, Novorizontino, Pinda, Portuguesa, Prata da Casa, Primavera, Referência, São Bernardo, São José, Sfera, Tanabi, Terceiro Milênio, Ultra, União Suzano, Valinhos Huper, Vital Academia e XV de Piracicaba
- SE: Falcon
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