
Cafeterias se tornam os terceiros lugares prefeiros da geraçãoZ
Canva
Encontrar alguém trabalhando no notebook, participando de uma reunião, estudando para uma prova, encontrando amigos, fazendo aniversários e até casamentos ou marcando um primeiro encontro dentro de uma cafeteria deixou de ser uma exceção. Em muitas cidades, esses estabelecimentos passaram a exercer uma função que vai muito além da venda de café. Eles se transformaram em espaços de convivência que ocupam uma posição cada vez mais importante na vida urbana.
O fenômeno tem relação com um conceito criado pelo sociólogo americano Ray Oldenburg, que definiu os chamados "terceiros lugares". A ideia descreve ambientes que não são nem a casa nem o trabalho, mas que funcionam como pontos de encontro para interação social, troca de experiências e construção de comunidade. Para Oldenburg, esses espaços desempenham um papel fundamental na vida das cidades e ajudam a fortalecer os vínculos sociais.
Durante décadas, bares, clubes, praças e centros comunitários ocuparam esse papel em diferentes regiões do mundo. A transformação dos hábitos urbanos, a digitalização das relações e a popularização do trabalho remoto abriram espaço para que as cafeterias assumissem parte dessa função.
O movimento ganhou força especialmente entre os mais jovens. A geração Z passou a frequentar cafeterias não apenas pelo consumo da bebida, mas pela experiência oferecida pelo ambiente. Em vez de locais de passagem rápida, muitos cafés passaram a ser planejados para permanência prolongada, com mesas compartilhadas, tomadas, internet de alta velocidade e espaços pensados para trabalho e socialização.
O Brasil acompanha essa tendência. Em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, diversas cafeterias passaram a incorporar características que antes eram associadas aos coworkings. Alguns estabelecimentos oferecem salas para reuniões, espaços para eventos, programação cultural e áreas desenhadas para quem pretende permanecer durante horas.
Outro sinal dessa mudança apareceu nas chamadas "coffee parties". O formato nasceu em mercados internacionais e começou a ganhar espaço também no Brasil. Em vez de encontros noturnos centrados em bebidas alcoólicas, esses eventos reúnem música, café especial, gastronomia e convivência durante o dia. O modelo encontrou receptividade principalmente entre jovens interessados em experiências sociais diferentes das tradicionais festas noturnas.
A valorização dos cafés especiais também contribuiu para essa transformação. O produto deixou de ser apenas uma bebida cotidiana para se tornar parte de uma experiência mais ampla. Métodos de preparo, origem dos grãos, torra, harmonizações e contato com baristas passaram a fazer parte da proposta de valor desses estabelecimentos. Em muitos casos, a visita à cafeteria envolve aprendizado, descoberta e interação social.
A mudança acontece em um momento em que muitos profissionais já não trabalham exclusivamente em escritórios tradicionais. Com modelos híbridos e atividades remotas mais difundidas, cresceu a procura por ambientes que ofereçam conforto, conectividade e uma atmosfera menos formal. As cafeterias encontraram uma oportunidade justamente nessa necessidade de equilíbrio entre produtividade e convivência.
O resultado pode ser observado no perfil dos frequentadores. Pessoas chegam para tomar café e acabam permanecendo por horas. Algumas realizam reuniões de trabalho, outras estudam, produzem conteúdo para redes sociais, encontram clientes ou simplesmente buscam um ambiente mais agradável do que permanecer em casa.
O sucesso desses espaços revela uma transformação maior nas cidades contemporâneas. Em uma rotina marcada por telas, aplicativos e comunicação digital, cresce o interesse por ambientes que permitam contato humano, trocas presenciais e sensação de pertencimento.
O café continua sendo o protagonista do cardápio, mas deixou de ser o único motivo que leva tanta gente a atravessar a porta de uma cafeteria. Para uma nova geração, esses locais passaram a cumprir uma função social que vai muito além da bebida servida na xícara.

