Lifestyle

O significado dos sapatos Tabi usados por Wagner Moura no Globo de Ouro

Par de sapatos do ator brasileiro evidencia como escolhas de moda podem transmitir mensagens

Lucas Machado
LUCAS MACHADO

12/01/2026 • 16:43 • Atualizado em 12/01/2026 • 16:43

Wagner Moura vence Globo de Ouro na categoria de melhor ator em filme de drama

Wagner Moura vence Globo de Ouro na categoria de melhor ator em filme de drama

Mario Anzuoni/Reuters

A moda está em tudo. Nos cortes de roupa, nas cores, nos tecidos e, sobretudo, nos detalhes que passam quase despercebidos. O vestuário não serve apenas para compor uma imagem. Serve para comunicar. Mesmo quando não há intenção explícita, o vestir funciona como linguagem silenciosa, revelando escolhas, referências e posicionamentos.

Compartilhar

Em eventos como o Globo de Ouro, essa linguagem ganha maior evidência. Nada está ali por acaso. Um acessório fora do padrão, um sapato inesperado ou uma combinação incomum pode transmitir mais que um look inteiro cuidadosamente planejado. A moda deixa de ser apenas estética e passa a operar como mensagem.

Foi exatamente isso que aconteceu quando Wagner Moura apareceu na premiação com os sapatos Tabi. Não houve exagero nem teatralidade. O impacto veio do significado. Um detalhe discreto, nos pés, foi suficiente para deslocar o olhar coletivo e abrir um debate que ultrapassou o tapete vermelho.

Os Tabi funcionaram como ruptura em meio ao previsível. Em uma noite marcada por escolhas seguras, eles introduziram estranhamento, curiosidade e interpretação. Não buscavam aprovação. Pediam leitura.

Antes da moda, o Tabi era função

Originalmente, o Tabi fazia parte da vida cotidiana no Japão. Surgiu como uma meia tradicional, com o dedão separado dos demais dedos, pensada para facilitar o uso com sandálias como zori e geta. A divisão não tinha finalidade estética, mas funcional, auxiliando no equilíbrio, na firmeza ao caminhar e na adaptação ao corpo em movimento.

Durante séculos, o Tabi esteve associado ao trabalho e à vida comum. Agricultores, artesãos e operários adotaram o modelo pela praticidade. No início do século 20, ele ganhou sola de borracha e passou a ser usado como calçado externo, especialmente em atividades físicas e profissionais.

A peça era confortável, resistente e eficiente, sem preocupação estética. Esse contexto é fundamental para compreender o peso simbólico do Tabi atualmente. Ele não nasce para seduzir o olhar. Nasce para servir ao corpo.

Sapato escolhido por Wagner Moura no Globo de Ouro revela identidade e posicionamento | Crédito: Maison Magiela Paris/Instagram

Sapato escolhido por Wagner Moura no Globo de Ouro revela identidade e posicionamento | Crédito: Maison Magiela Paris/Instagram

Quando o desconforto vira linguagem estética

A inserção definitiva do Tabi na moda contemporânea acontece no fim dos anos 1980, quando Martin Margiela apresentou sua primeira coleção autoral. Nos pés dos modelos, uma bota inspirada diretamente no calçado japonês tradicional. A reação foi imediata e provocou estranhamento, desconforto e divisão de opiniões. E foi exatamente isso que deu força à peça.

Margiela não propunha conceitos convencionais de beleza. Ele questionava a própria ideia de elegância. O Tabi passou a existir como um objeto que interrompe o olhar automático e exige reposicionamento. Desde então, Tabi se consolidou como um dos códigos mais reconhecíveis da Maison Margiela, atravessando décadas sem perder sua capacidade de provocar reação.

Poucos sapatos conseguiram esse feito. A maioria dos sapatos se esgota quando vira tendência. O Tabi permanece por não buscar agradar a todos.

Wagner Moura e a coerência simbólica da escolha

A escolha de Wagner Moura no Globo de Ouro assume mais significado. Ao longo da carreira, o ator participou de projetos que exigem densidade, leitura crítica e posicionamento. Seu estilo pessoal acompanha essa lógica. Não se trata de moda masculina provocativa, mas de alinhamento entre imagem pública, trajetória e linguagem visual.

Ao lado da mulher, Sandra Delagado, Wagner Moura usa sapatos Tabi | Crédito: Reuters

Ao lado da mulher, Sandra Delagado, Wagner Moura usa sapatos Tabi | Crédito: Reuters

Um modelo, muitas interpretações

Atualmente, o Tabi se apresenta em diversas versões. Há botas, mocassins, sapatilhas, sandálias e até interpretações híbridas que dialogam com o streetwear. Algumas são mais conceituais, outras se aproximam do cotidiano sem perder identidade.

Esse desdobramento mostra como o conceito se expandiu sem se diluir. O Tabi deixou de ser exclusivo da passarela e passou a ocupar diferentes espaços do vestir contemporâneo, tanto no guarda-roupa feminino quanto no masculino. O ponto comum entre todas as versões permanece: nenhuma tenta passar despercebida.

Quem usa e por que isso importa

O Tabi tem presença crescente em editoriais, semanas de moda e no visual de artistas que entendem o vestir como linguagem. Nomes como Zendaya e Dua Lipa já apareceram com versões do modelo, deslocando o Tabi do estranhamento para referência cultural.

O processo é recorrente na história da moda. O que começa como ruptura, aos poucos se normaliza. O debate deixa de ser “é bonito ou feio” e passa a ser “o que isso comunica”.

Quando a moda volta a ser linguagem

A repercussão em torno dos sapatos Tabi no Globo de Ouro indica uma mudança de sensibilidade. O público volta a prestar atenção em escolhas que transmitem algo, mesmo que cause estranhamento.

Entre tantos looks tecnicamente impecáveis e facilmente esquecíveis, um par de sapatos tenha concentrado olhares. Quando a moda deixa de ser decoração e volta a ser linguagem, o estranho deixa de ser erro e passa a ser mensagem.