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70% das agressões a mulheres ocorrem diante de crianças, diz pesquisa

O levantamento, que ouviu 21.641 brasileiras em 2025, mostra que a violência doméstica continua sendo uma ameaça estrutural

Por Redação
REDAÇÃO

02/12/2025 • 16:31 • Atualizado em 02/12/2025 • 16:31

Sonia Blota
Redes Sociais:

A nova edição da maior pesquisa sobre violência contra mulheres no Brasil revela um cenário alarmante e persistente. Segundo a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto DataSenado e pela Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), 71% das mulheres que sofreram violência doméstica nos últimos 12 meses foram agredidas na presença de outras pessoas — e, em 70% desses casos, havia crianças no local.

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Ainda assim, em 40% das situações nenhuma testemunha ofereceu ajuda.

O levantamento, que ouviu 21.641 brasileiras em 2025, mostra que a violência doméstica continua sendo uma ameaça estrutural e que seus impactos ultrapassam o momento da agressão.

Entre as mulheres que já sofreram algum tipo de violência, 69% tiveram a rotina alterada, 46% viram o trabalho afetado e 42% tiveram os estudos comprometidos. Estima-se que 24 milhões de brasileiras convivam com essas consequências.

Crianças expostas e ciclo de violência que se perpetua

Pela primeira vez, a pesquisa investigou a presença de terceiros durante as agressões. O resultado chamou a atenção dos pesquisadores:

“Sete em cada dez casos são testemunhados por crianças. Isso mostra que o ciclo de violência ultrapassa a vítima direta e atinge famílias inteiras”, afirma Marcos Ruben de Oliveira, coordenador do DataSenado.

Mais da metade das mulheres (58%) convive com situações de violência há mais de um ano, evidenciando a dificuldade de romper vínculos marcados por medo, dependência financeira e falta de redes de apoio.

Apoio chega antes pela família e igrejas — não pelo Estado

Outro destaque é que a maior parte das vítimas busca ajuda primeiro em espaços informais. Segundo o levantamento:

  • 58% procuram familiares;
  • 53% recorrem à igreja;
  • 52% pedem apoio a amigos.

Apenas 28% registram denúncia na Delegacia da Mulher e só 11% acionam o Ligue 180.

“Não se enfrenta a violência doméstica no Brasil sem compreender o papel das comunidades de fé e das redes pessoais, que são procuradas antes de qualquer órgão oficial”, destaca Beatriz Accioly, do Instituto Natura. Para ela, quem acolhe precisa estar preparado para orientar essas mulheres de forma segura.

As mulheres mais vulneráveis são as que menos conhecem seus direitos

O desconhecimento sobre a Lei Maria da Penha continua alto: 67% dizem conhecer pouco a legislação e 11% afirmam não conhecê-la.O desconhecimento é maior entre as mais pobres e com menor escolaridade:

  • 30% das mulheres analfabetas não conhecem a lei;
  • 20% das que têm ensino fundamental incompleto também desconhecem;
  • entre as brasileiras com ensino superior completo, o índice cai para 3%.

A falta de informação também aparece quando o tema são os serviços de proteção. Embora 93% conheçam a Delegacia da Mulher, apenas 38% sabem o que é a Casa da Mulher Brasileira, e pouco mais da metade (56%) conhece as Casas Abrigo.

“Os dados mostram que as brasileiras que mais sofrem são justamente as que menos conhecem seus direitos. Sem informação acessível, não há como romper o ciclo de violência”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora da Associação Gênero e Número.

Violência doméstica impacta a economia e amplia desigualdades

As consequências da violência vão além do âmbito privado. Do total de mulheres que já sofreram agressões, 68% relataram impactos nas relações sociais e 46% no trabalho remunerado.A pesquisa aponta que mulheres fora do mercado de trabalho sofrem três vezes mais violência (12%) do que aquelas empregadas (4%).Para especialistas, isso reforça que independência econômica é também uma política de enfrentamento.

“Renda e acesso a oportunidades são fundamentais. Sem isso, tratamos sintomas, não causas”, ressalta Vitória Régia da Silva.

Chamado por políticas públicas integrais

Para o Instituto Natura, a pesquisa reforça a urgência de políticas que articulem proteção, acolhimento, renda e educação.“Não podemos continuar transferindo às mulheres a responsabilidade de superar, sozinhas, estruturas que são coletivas”, diz Beatriz Accioly.

A senadora Augusta Brito, responsável pelo pedido do estudo, afirma que os dados devem orientar o Legislativo:“Agora que sabemos o tamanho do impacto da violência para o país, precisamos agir com mais força.”

Uma fotografia completa para orientar ações

Os resultados atualizam o Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma pública que reúne, integra e analisa dados sobre violência contra mulheres no Brasil. A ferramenta, construída por Senado, Instituto Natura e Associação Gênero e Número, busca ampliar a transparência e subsidiar políticas públicas mais eficazes.

Com duas décadas de série histórica, a pesquisa reafirma um cenário conhecido pelas brasileiras, mas ainda distante da resposta que ele exige: a violência de gênero é estrutural, afeta milhões, compromete o futuro das famílias e continua sendo enfrentada, majoritariamente, longe do Estado.

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