
Presidente Lula está na Cúpula do Brics, na África do Sul
Ricardo Stuckert/PR
O centro das atenções diplomáticas se divide entre o regional e o global. Enquanto em Buenos Aires a Argentina repassou ao Brasil, nesta quinta-feira (3), a presidência temporária do Mercosul, os olhos da política internacional se voltam, nos dias 6 e 7 de julho, para a 17ª Cúpula dos BRICS, sediada no Rio de Janeiro. Os eventos, embora distintos em escopo e alcance, revelam um traço comum: o papel cada vez mais ativo do Brasil na governança global e regional.
Em um momento em que o sistema internacional passa por reconfigurações profundas, os dados do Google Trends, analisados pela Sala Digital, parceria entre a Band e o Google, revelam uma curiosidade: nos países-membros de cada agrupamento, a União Europeia é 20 vezes mais buscada no Google do que o BRICS.
A diferença de interesse ajuda a explicar por que, apesar da relevância crescente do bloco liderado por países emergentes, ele ainda não ocupa um lugar equivalente na percepção pública.

União Europeia é 20 vezes mais buscada do que o BRICS Gráfico: Sala Digital Band e Google Fonte: Google Trends
Para entender esse descompasso entre presença geopolítica e engajamento popular, a Sala Digital usou dados do Google Trends e mapeou e respondeu às perguntas mais buscadas pelos brasileiros sobre o BRICS e o Mercosul nos últimos cinco anos. Veja:
Quais são as vantagens de participar do BRICS?
Formado oficialmente em 2006 por Brasil, Rússia, Índia e China e com a entrada da África do Sul em 2011, o BRICS se consolidou como uma articulação entre grandes economias emergentes. Em 2024, o grupo passou por uma expansão significativa: passaram a integrar o bloco Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Em 2025, foi a vez da Indonésia. Ao todo, são 11 países-membros, além de uma nova categoria de “parceiros” que já inclui nove nações.
Entre os principais ganhos da participação brasileira estão a defesa de uma reforma nas instituições multilaterais - como a ONU e o sistema financeiro internacional -, o acesso a financiamento de infraestrutura via Novo Banco de Desenvolvimento (presidido por Dilma Rousseff), a possibilidade de se discutir alternativas ao dólar em transações internacionais e a cooperação em áreas estratégicas como saúde pública, inteligência artificial, educação e meio ambiente. Em 2025, sob presidência brasileira, os temas prioritários incluem emprego na era digital, governança da IA e financiamento climático.
Qual o impacto da guerra da Rússia no BRICS?
Embora a guerra na Ucrânia não apareça de forma explícita nas buscas, ela está no pano de fundo de uma série de movimentos recentes no BRICS. As sanções impostas pelo Ocidente à Rússia pressionaram o bloco a acelerar discussões sobre mecanismos financeiros alternativos (como um sistema de pagamentos que não dependa do SWIFT) e aprofundaram a busca por maior autonomia estratégica frente a instituições dominadas pelos países desenvolvidos. A própria expansão do BRICS, com a entrada de países de perfil geopolítico diverso, reflete essa tentativa de construir uma ordem global mais plural.
Qual a importância de o Brasil fazer parte do BRICS?
Para o Brasil, o BRICS representa uma plataforma estratégica que amplia o leque de alianças internacionais, projeta sua influência como ator do Sul Global e permite participar de debates decisivos sobre o futuro do desenvolvimento. Ao contrário de potências que adotam alinhamentos automáticos, o Brasil atua como construtor de pontes — buscando diálogo entre diferentes polos de poder, sem assumir posturas ideológicas rígidas. É nesse espaço que o país tenta conciliar a defesa da democracia, do multilateralismo e do crescimento sustentável.
O que são países emergentes?
A expressão “países emergentes” costuma designar nações com crescimento econômico acelerado, industrialização em curso e papel relevante em cadeias produtivas globais, embora ainda enfrentem desigualdades internas e dependência externa. BRICS e Mercosul são exemplos de mecanismos criados por esses países para ganhar voz em decisões internacionais, negociar melhores condições comerciais e disputar narrativas num mundo em transição. Para o Brasil, integrar esses blocos significa ocupar um espaço de liderança tanto no continente quanto entre as economias do Sul Global.
Qual a importância do Mercosul para a América do Sul?
Criado em 1991 por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, o Mercosul é o processo de integração mais profundo da América Latina. O bloco funciona como uma união aduaneira imperfeita, mas responde por mais de 50% das exportações e importações brasileiras dentro da América do Sul. A estrutura inclui acordos de livre circulação de bens e serviços, reconhecimento mútuo de diplomas, padronização de placas veiculares e mecanismos de participação da sociedade civil.
O Brasil representa cerca de 70% do PIB do bloco e tem papel central nas articulações políticas e econômicas. Desde o fim das ditaduras militares, a relação com a Argentina foi marcada por esforços de aproximação e integração, fundamentais para o surgimento do Mercosul. Mas os ciclos econômicos dos dois países nem sempre caminharam juntos — e isso tem impactos diretos na dinâmica do bloco.
Crise na Argentina
A chegada de Javier Milei ao poder, em dezembro de 2023, marcou uma inflexão liberal na política argentina. O governo implementou um plano de ajuste com forte desvalorização cambial, corte de gastos e desregulação econômica. A inflação caiu de 26% para menos de 3% ao mês, mas a pobreza subiu para 53% no primeiro semestre de 2024. A guinada também se refletiu na política externa: Milei rejeitou o convite para integrar o BRICS, optando por um discurso de abertura irrestrita ao mercado — em contraste com a visão brasileira, que aposta no multilateralismo e na construção de consensos regionais.
Internamente, o Mercosul ainda enfrenta entraves, como as divergências em torno da Tarifa Externa Comum — com Brasil, Paraguai e Uruguai defendendo reduções, e a Argentina tradicionalmente mais protecionista —, além da morosidade nos acordos com outros blocos, como a União Europeia, e da imagem pública desgastada, muitas vezes reforçada pela mídia.
Apesar das dificuldades, o bloco avança em áreas técnicas e sociais e tenta se adaptar às novas exigências do cenário internacional. A integração segue como uma aposta estratégica para fortalecer a região diante da crescente polarização global.
Conexão entre BRICS e Mercosul
Ambos os blocos funcionam como instrumentos de projeção internacional do Brasil. O Mercosul reforça a liderança regional; o BRICS amplia sua atuação global. Os dois também compartilham desafios: são formados por países com interesses diversos, operam em sistemas multilaterais em disputa e enfrentam o desafio de conquistar a opinião pública.
Um exemplo de aproximação com a sociedade civil foi o inédito Conselho Popular do BRICS, que realizou sua primeira reunião presencial no Rio para apresentar propostas aos chefes de Estado nas áreas de saúde, educação, ecologia, cultura, economia digital e inteligência artificial. A institucionalização desse tipo de participação mostra que a influência dos blocos não se limita às esferas diplomáticas.
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